sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Condenado pela memória


Confesso que não fazia ideia de quem era. Assim que coloquei o prato na mesa, a mulher entrou no restaurante, empurrando um carrinho de bebê, com uma linda criança. Menina! Percebi porque tinha uma fita vermelha em volta da cabeça e, bem no topo, um laço de cetim vermelho, cravejado de pedrinhas brilhantes, que caía nos olhos da pequena peruazinha. A mãe me viu e veio esfuziante me cumprimentar.
Da porta do restaurante até a mesa em que eu estava sentado, uns 30 metros, prometo que me esforcei para conhecer aquele sorriso que vinha em minha direção e certo de que eu tinha plena consciência de quem era. Eu não tinha. Comecei, em fração de milésimo de segundo, percorrer todas as rodas de amigos, academia, bares, viagens, boates, postos de combustível, coquetéis promocionais... Nada! A imagem não estava nem próximo de ser encontrada.
Em passos firmes ela chegava cada vez mais perto. Comecei a suar. Meu coração batia mais rápido, como se eu tivesse acabado de levar um grande susto. Tentei, mais uma vez em vão, lembrar. Como a chamaria? E a criança? O que perguntar? Um turbilhão passou pela minha cabeça. Ela estava a menos de três passos de mim quando sorri escancaradamente, encarei-a sem tirar os óculos escuros, respirei fundo e disse: “E aí?”. Ela aproximou o carrinho com a criança, como se quisesse me mostrar o rebento antes de qualquer coisa.
Foi quando fiz a detecção de todo o contexto, acima já citado, e lasquei a velha e boa lábia, na esperança de que surgisse uma pista sobre quem era: “E aí (repeti), o que tem feito?”. Minha cabeça fervilhava e minha memória corria de um lado para outro como aquelas cenas de documentários sobre neurologia, em que os neurônios começam a fazer as conexões, mostrando uma corrente de energia, até que tudo passa a ser uma imensa ligação nervosa. Não houve resposta.  Esperei, então, que ela se aprontasse na mesa, com o carrinho de bebê ao lado, e se assentasse. Novamente dirigi o olhar a ela e perguntei: “O que tem feito de bom? Nossa! Como está grande!”, me referindo ao bebê. Ela permaneceu muda e me ignorando.

Achei que tivesse ficado chateada por eu não ter correspondido ao sorriso-cumprimento na chegada ao restaurante. Fiquei intrigado e curioso. Queria, a todo custo, saber de onde a conhecia. Levantei-me, coloquei a mão no ombro esquerdo da mulher. Ela se assustou e olhou rápido para mim. Tirou os fones de ouvido e quase virou um ponto de interrogação na minha frente. “Sim...”, disse ela, com ar misterioso e já olhando por cima do meu ombro direito à procura de alguma coisa atrás de mim. “É que você me cumprimentou, quando chegou! Como você está?”, expliquei. “Desculpe. Estava cumprimentando meu amigo, sentado ali”, apontou o dedo para duas mesas adiante. “Mas eu estou muito bem, sim”, respondeu. Forcei um pouquinho, como quem não quer dar o braço a torcer e perguntei: “De onde nos conhecemos, mesmo?”. E ela: “Não tenho a mínima ideia. Nos conhecemos?”. E saiu para cumprimentar o amigo. Fiquei mudo e saí do restaurante.

domingo, 11 de agosto de 2013

Dia de macarrão – e dos Pais



Macarrão! O prato mais adorado pelo meu pai fosse segunda-feira, fosse domingo, feriado ou Natal. E, claro, domingo sempre foi dia de macarrão. Se perguntassem a ele qual era o prato preferido, a resposta vinha na sequência, antes mesmo que o interlocutor terminasse a pergunta: “Macarrão”, respondia ele quase salivando.
Macarrão para o meu pai era uma espécie de curinga da culinária. Chegou gente sem avisar? Faz macarrão. Tem churrasco, mas nem todos comem? Faz macarrão! Vamos passar o dia na casa de alguém da família? Vamos fazer macarrão. Nasceu alguém? Vamos comemorar. Faz macarrão. Morreu? Que tristeza. Vamos nos contentar. Faz macarrão. E assim era. Macarrão para qualquer finalidade.
Papai preparava também um músculo recheado, com mise en place iniciado três dias antes. Levava uma horta de ervas e tal. Aquilo marinava por uns três dias e, no domingo – ou no sábado à tarde – ia para a panela. Preciso dizer qual era o acompanhamento mais certeiro do prato? “Macarronada... daquelas tradicionais”, como ele adorava dizer. Tinha que ter muito queijo.
Hoje, domingo, Dia dos Pais é também dia de macarrão. Se meu pai estivesse aqui, estaria zanzando pela cozinha e sugestionando: “Acho que um macarrão combina, não é?”. E tudo, absolutamente tudo, para ele combinava com macarrão. Assim como tem gente que gosta de macarrão à bolonhesa, ao sugo, ao pesto, carbonara... papai também tinha a sua preferência: “Cozido”, sentenciava.

A você, meu querido, um enorme prato de macarrão, com guardanapo pendurado na gola da camisa para comer sem culpa. Feliz Dia dos Pais, onde quer que esteja. Obrigado por me guiar sempre pelo caminho certo. Beijo grande, Delcides!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Por retaliação, atendente da Oi bloqueia telefone de cliente


Na semana passada, tive problemas com a internet na minha casa. Liguei para a operadora Oi e, em menos de cinco minutos, uma atendente resolveu meu problema. Fiz questão, como ela pediu, de aguardar o fim da ligação para avaliar o atendimento da moça. Quatro dias atrás, o problema com a internet voltou a ocorrer. Novamente liguei, mas o atendimento, desta vez, foi diferente. Primeiro fui transferido para três pessoas até saber que o problema não poderia ser resolvido com a mesma facilidade da primeira vez. Perguntei se, já que ficaria sem internet, se haveria um desconto na minha conta. Fui transferido para uma outra atendente.
Jeniffer me pareceu de pouca paciência. Após repetir, mecanicamente, por umas dez vezes, que não poderia fazer constar no protocolo que o cliente – eu, no caso – tinha ficado dois dias sem internet, ela me sugeriu que eu esperasse a conta chegar primeiro para contestar depois. Ora! Já aviso com antecedência para que o erro não aconteça. Mas ela não me alisou. Pedi para falar com um supervisor. Ela não permitiu, a princípio. Depois me deixou pendurado à espera de atendimento por quase meia hora. Quando vi que ela queria vencer pelo cansaço, desisti de falar com o supervisor e pedi para que ela me transferisse para que eu fizesse a avaliação do atendimento dela. A moça, nervosa, me disse que não iria me transferir porque não havia mais aquela forma de avaliação. Vale lembrar que a gravação que se houve no início de cada ligação para a operadora Oi pede para que o cliente aguarde para avaliar o atendimento. 20 minutos depois, a ligação foi derrubada e, como eu precisa trabalhar, deixar para resolver depois.
Cheguei em casa à noite e percebi que o meu telefone residencial não estava normal. Um dia depois tentei, novamente sem sucesso, efetuar ligações. Precisando muito de usar o telefone, liguei, mais uma vez, na operadora Oi. Foi quando fiquei sabendo da péssima surpresa: havia um bloqueio na minha linha feita pela atendente Jeniffer, mais de 24 horas antes. Um absurdo, sem precedentes! Em mais de dez anos como cliente, nunca paguei uma conta, sequer, com atraso. Aliás, minhas contas domésticas estão todas cadastradas para débito automático. Quando Eliane, a atendente, viu o que havia acontecido pude perceber que ela ficou constrangida com a atitude da moça e disse baixinho algo do tipo: “Isso não pode acontecer!”. Ela não quis repetir.
Depois de várias tentativas, Eliane conversou com vários supervisores e me garantiu que, em até 24 horas, tudo voltaria ao normal. Segundo ela, o bloqueio tinha sido feito como seu eu tivesse solicitado. Não solicitei! Pedi todas as gravações das ligações e exigi explicações da operadora. Me pediram para aguardar. 24 horas depois e... Nada! 48 horas depois e... Nada ainda! Liguei novamente. Repeti toda a história desde o primeiro dia para mais duas atendentes. Pedi para falar com um supervisor. Acessando os meus processos, a supervisora percebeu que o bloqueio tinha sido desfeito, mas, logo em seguida, feito de novo! É brincadeira! Como uma atendente, sem educação e sem tato para lidar com um cliente faz uma barbaridade dessas e ainda repete, sem que ninguém tome uma providência? Isso é muito grave! Bloquear a comunicação de um cliente sem qualquer explicação é muito grave!

Hoje pela manhã, um técnico foi enviado para resolver o problema e disse que ainda havia um bloqueio na linha. Até agora não tive qualquer contato da operadora Oi. Nada de desculpas, nada de explicações e, o pior, nada de desbloqueio do meu telefone. Como pode isso?

terça-feira, 2 de julho de 2013

Il Silenzio


Hoje, dia 2 de julho, é aniversário do meu pai! Como todos os anos, segue a minha homenagem... Feliz aniversário, onde quer que esteja!

Não me lembro bem de quantos anos eu tinha. Mas não me esqueço de que meus pés quase tocavam o estuque de PVC da cozinha de casa quando papai me pegava no colo e erguia-me, segurando firme com as mãos em meus tornozelos, enquanto minha cabeça descansava em um de seus ombros. Papai sempre fazia isso, erguendo-me como se fizesse uma canoa com os dois braços e me embalava para dormir ou me acalmar – papai também tinha esse poder! –, sempre na altura do seu pescoço. Geralmente passeávamos entre a cozinha e a área de casa, em passos lentos, no fim do dia, quando a luz do céu avermelhado pelo por do sol de inverno invadia parte da casa. Eu sentia o cheiro da jabuticabeira florida fora do tempo e ouvia o canto alvoroçado dos passarinhos e ouvia mais: emitindo um som que vibrava com a língua, para dar um efeito de vários instrumentos, papai entoava Il Silenzio!

Ao estender os braços eu já imaginava: ele iria começar com um som forte no meu ouvido esquerdo, enquanto meus pés tentavam caminhar pelo teto. Aos poucos, ele me desceria devagar, já meio tonto de sono, e manter-me-ia em seus braços, agora entoando a música um tanto mais baixo para não me despertar. Ainda assim, eu podia ouvir os pássaros e sentir o cheiro das flores brancas de jabuticaba. Até sonhava com elas e, na seqüência do sonho, via as galhas cheias de bolas pretas, prontas para explodir na boca. Nessa hora, a música era apenas um murmúrio, que acompanhava meu sono e me levava a sonhar cada vez mais profundamente. E escrevendo isso, parece que ainda estou naquele sonho.

O som diminuía cada vez mais e a algazarra dos pássaros sumia rápido. Uma corrente de ar mais fria entrava por baixo do barquinho feito por papai com os braços. Estávamos a caminho da cama. Mas antes disso, ele caminhava comigo por todos os cômodos da casa até queIl Silenzio tivesse sido assoviada em toda a sua plenitude, como se cada instrumento tivesse que ser afinado antes de terminar. Era a minha canção de ninar, escolhida pelo meu pai só para mim! Eu nunca tinha ouvido-a de outra forma. A conheci com papai murmurando-a e assim foi até um dia desses, quando fui surpreendido por show gravado em DVD. De imediato, surgiu um soluço, depois um leve aperto no peito e uma sensação de bem-estar e proteção. Deixei as lágrimas escorrerem.

Enquanto ouvia, já deitado e com os olhos molhados, caí no sono e fui levado, instantaneamente, para algumas décadas atrás. No sonho que sonhava, além das imagens que eu via – coloridas, diga-se! – eu também sentia o cheiro das flores brancas e ouvia os pássaros cantarem. Desta vez, papai passeou comigo pelo quintal e meus pés tocavam o tronco do coqueiro que havia sido plantado ao lado da jabuticabeira. Pude sentir as ramas dos arbustos do quintal passarem pelo meu braço amolecido pelo sono. Eu estava lá, sem dúvida. Como se o tempo parasse no sonho, Il Silenzio durou toda a noite e madrugada. Os braços de papai me embalaram até que a manhã chegasse e uma algazarra parecida, com passarinhos diferentes, me acordou hoje cedo. Mas o cheiro das flores de jabuticaba continuava no meu quarto, as lágrimas já haviam secado, a música ainda tocava na minha cabeça e a saudade... Ah! Essa ainda grita no peito como a corneta que toca, solitariamente, um silêncio barulhento me fazendo lembrar dos momentos em que eu andava no teto ao som dos murmúrios de um sábio protetor.