quinta-feira, 22 de agosto de 2013

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Condenado pela memória


Confesso que não fazia ideia de quem era. Assim que coloquei o prato na mesa, a mulher entrou no restaurante, empurrando um carrinho de bebê, com uma linda criança. Menina! Percebi porque tinha uma fita vermelha em volta da cabeça e, bem no topo, um laço de cetim vermelho, cravejado de pedrinhas brilhantes, que caía nos olhos da pequena peruazinha. A mãe me viu e veio esfuziante me cumprimentar.
Da porta do restaurante até a mesa em que eu estava sentado, uns 30 metros, prometo que me esforcei para conhecer aquele sorriso que vinha em minha direção e certo de que eu tinha plena consciência de quem era. Eu não tinha. Comecei, em fração de milésimo de segundo, percorrer todas as rodas de amigos, academia, bares, viagens, boates, postos de combustível, coquetéis promocionais... Nada! A imagem não estava nem próximo de ser encontrada.
Em passos firmes ela chegava cada vez mais perto. Comecei a suar. Meu coração batia mais rápido, como se eu tivesse acabado de levar um grande susto. Tentei, mais uma vez em vão, lembrar. Como a chamaria? E a criança? O que perguntar? Um turbilhão passou pela minha cabeça. Ela estava a menos de três passos de mim quando sorri escancaradamente, encarei-a sem tirar os óculos escuros, respirei fundo e disse: “E aí?”. Ela aproximou o carrinho com a criança, como se quisesse me mostrar o rebento antes de qualquer coisa.
Foi quando fiz a detecção de todo o contexto, acima já citado, e lasquei a velha e boa lábia, na esperança de que surgisse uma pista sobre quem era: “E aí (repeti), o que tem feito?”. Minha cabeça fervilhava e minha memória corria de um lado para outro como aquelas cenas de documentários sobre neurologia, em que os neurônios começam a fazer as conexões, mostrando uma corrente de energia, até que tudo passa a ser uma imensa ligação nervosa. Não houve resposta.  Esperei, então, que ela se aprontasse na mesa, com o carrinho de bebê ao lado, e se assentasse. Novamente dirigi o olhar a ela e perguntei: “O que tem feito de bom? Nossa! Como está grande!”, me referindo ao bebê. Ela permaneceu muda e me ignorando.

Achei que tivesse ficado chateada por eu não ter correspondido ao sorriso-cumprimento na chegada ao restaurante. Fiquei intrigado e curioso. Queria, a todo custo, saber de onde a conhecia. Levantei-me, coloquei a mão no ombro esquerdo da mulher. Ela se assustou e olhou rápido para mim. Tirou os fones de ouvido e quase virou um ponto de interrogação na minha frente. “Sim...”, disse ela, com ar misterioso e já olhando por cima do meu ombro direito à procura de alguma coisa atrás de mim. “É que você me cumprimentou, quando chegou! Como você está?”, expliquei. “Desculpe. Estava cumprimentando meu amigo, sentado ali”, apontou o dedo para duas mesas adiante. “Mas eu estou muito bem, sim”, respondeu. Forcei um pouquinho, como quem não quer dar o braço a torcer e perguntei: “De onde nos conhecemos, mesmo?”. E ela: “Não tenho a mínima ideia. Nos conhecemos?”. E saiu para cumprimentar o amigo. Fiquei mudo e saí do restaurante.

domingo, 11 de agosto de 2013

Dia de macarrão – e dos Pais



Macarrão! O prato mais adorado pelo meu pai fosse segunda-feira, fosse domingo, feriado ou Natal. E, claro, domingo sempre foi dia de macarrão. Se perguntassem a ele qual era o prato preferido, a resposta vinha na sequência, antes mesmo que o interlocutor terminasse a pergunta: “Macarrão”, respondia ele quase salivando.
Macarrão para o meu pai era uma espécie de curinga da culinária. Chegou gente sem avisar? Faz macarrão. Tem churrasco, mas nem todos comem? Faz macarrão! Vamos passar o dia na casa de alguém da família? Vamos fazer macarrão. Nasceu alguém? Vamos comemorar. Faz macarrão. Morreu? Que tristeza. Vamos nos contentar. Faz macarrão. E assim era. Macarrão para qualquer finalidade.
Papai preparava também um músculo recheado, com mise en place iniciado três dias antes. Levava uma horta de ervas e tal. Aquilo marinava por uns três dias e, no domingo – ou no sábado à tarde – ia para a panela. Preciso dizer qual era o acompanhamento mais certeiro do prato? “Macarronada... daquelas tradicionais”, como ele adorava dizer. Tinha que ter muito queijo.
Hoje, domingo, Dia dos Pais é também dia de macarrão. Se meu pai estivesse aqui, estaria zanzando pela cozinha e sugestionando: “Acho que um macarrão combina, não é?”. E tudo, absolutamente tudo, para ele combinava com macarrão. Assim como tem gente que gosta de macarrão à bolonhesa, ao sugo, ao pesto, carbonara... papai também tinha a sua preferência: “Cozido”, sentenciava.

A você, meu querido, um enorme prato de macarrão, com guardanapo pendurado na gola da camisa para comer sem culpa. Feliz Dia dos Pais, onde quer que esteja. Obrigado por me guiar sempre pelo caminho certo. Beijo grande, Delcides!

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Por retaliação, atendente da Oi bloqueia telefone de cliente


Na semana passada, tive problemas com a internet na minha casa. Liguei para a operadora Oi e, em menos de cinco minutos, uma atendente resolveu meu problema. Fiz questão, como ela pediu, de aguardar o fim da ligação para avaliar o atendimento da moça. Quatro dias atrás, o problema com a internet voltou a ocorrer. Novamente liguei, mas o atendimento, desta vez, foi diferente. Primeiro fui transferido para três pessoas até saber que o problema não poderia ser resolvido com a mesma facilidade da primeira vez. Perguntei se, já que ficaria sem internet, se haveria um desconto na minha conta. Fui transferido para uma outra atendente.
Jeniffer me pareceu de pouca paciência. Após repetir, mecanicamente, por umas dez vezes, que não poderia fazer constar no protocolo que o cliente – eu, no caso – tinha ficado dois dias sem internet, ela me sugeriu que eu esperasse a conta chegar primeiro para contestar depois. Ora! Já aviso com antecedência para que o erro não aconteça. Mas ela não me alisou. Pedi para falar com um supervisor. Ela não permitiu, a princípio. Depois me deixou pendurado à espera de atendimento por quase meia hora. Quando vi que ela queria vencer pelo cansaço, desisti de falar com o supervisor e pedi para que ela me transferisse para que eu fizesse a avaliação do atendimento dela. A moça, nervosa, me disse que não iria me transferir porque não havia mais aquela forma de avaliação. Vale lembrar que a gravação que se houve no início de cada ligação para a operadora Oi pede para que o cliente aguarde para avaliar o atendimento. 20 minutos depois, a ligação foi derrubada e, como eu precisa trabalhar, deixar para resolver depois.
Cheguei em casa à noite e percebi que o meu telefone residencial não estava normal. Um dia depois tentei, novamente sem sucesso, efetuar ligações. Precisando muito de usar o telefone, liguei, mais uma vez, na operadora Oi. Foi quando fiquei sabendo da péssima surpresa: havia um bloqueio na minha linha feita pela atendente Jeniffer, mais de 24 horas antes. Um absurdo, sem precedentes! Em mais de dez anos como cliente, nunca paguei uma conta, sequer, com atraso. Aliás, minhas contas domésticas estão todas cadastradas para débito automático. Quando Eliane, a atendente, viu o que havia acontecido pude perceber que ela ficou constrangida com a atitude da moça e disse baixinho algo do tipo: “Isso não pode acontecer!”. Ela não quis repetir.
Depois de várias tentativas, Eliane conversou com vários supervisores e me garantiu que, em até 24 horas, tudo voltaria ao normal. Segundo ela, o bloqueio tinha sido feito como seu eu tivesse solicitado. Não solicitei! Pedi todas as gravações das ligações e exigi explicações da operadora. Me pediram para aguardar. 24 horas depois e... Nada! 48 horas depois e... Nada ainda! Liguei novamente. Repeti toda a história desde o primeiro dia para mais duas atendentes. Pedi para falar com um supervisor. Acessando os meus processos, a supervisora percebeu que o bloqueio tinha sido desfeito, mas, logo em seguida, feito de novo! É brincadeira! Como uma atendente, sem educação e sem tato para lidar com um cliente faz uma barbaridade dessas e ainda repete, sem que ninguém tome uma providência? Isso é muito grave! Bloquear a comunicação de um cliente sem qualquer explicação é muito grave!

Hoje pela manhã, um técnico foi enviado para resolver o problema e disse que ainda havia um bloqueio na linha. Até agora não tive qualquer contato da operadora Oi. Nada de desculpas, nada de explicações e, o pior, nada de desbloqueio do meu telefone. Como pode isso?

terça-feira, 2 de julho de 2013

Il Silenzio


Hoje, dia 2 de julho, é aniversário do meu pai! Como todos os anos, segue a minha homenagem... Feliz aniversário, onde quer que esteja!

Não me lembro bem de quantos anos eu tinha. Mas não me esqueço de que meus pés quase tocavam o estuque de PVC da cozinha de casa quando papai me pegava no colo e erguia-me, segurando firme com as mãos em meus tornozelos, enquanto minha cabeça descansava em um de seus ombros. Papai sempre fazia isso, erguendo-me como se fizesse uma canoa com os dois braços e me embalava para dormir ou me acalmar – papai também tinha esse poder! –, sempre na altura do seu pescoço. Geralmente passeávamos entre a cozinha e a área de casa, em passos lentos, no fim do dia, quando a luz do céu avermelhado pelo por do sol de inverno invadia parte da casa. Eu sentia o cheiro da jabuticabeira florida fora do tempo e ouvia o canto alvoroçado dos passarinhos e ouvia mais: emitindo um som que vibrava com a língua, para dar um efeito de vários instrumentos, papai entoava Il Silenzio!

Ao estender os braços eu já imaginava: ele iria começar com um som forte no meu ouvido esquerdo, enquanto meus pés tentavam caminhar pelo teto. Aos poucos, ele me desceria devagar, já meio tonto de sono, e manter-me-ia em seus braços, agora entoando a música um tanto mais baixo para não me despertar. Ainda assim, eu podia ouvir os pássaros e sentir o cheiro das flores brancas de jabuticaba. Até sonhava com elas e, na seqüência do sonho, via as galhas cheias de bolas pretas, prontas para explodir na boca. Nessa hora, a música era apenas um murmúrio, que acompanhava meu sono e me levava a sonhar cada vez mais profundamente. E escrevendo isso, parece que ainda estou naquele sonho.

O som diminuía cada vez mais e a algazarra dos pássaros sumia rápido. Uma corrente de ar mais fria entrava por baixo do barquinho feito por papai com os braços. Estávamos a caminho da cama. Mas antes disso, ele caminhava comigo por todos os cômodos da casa até queIl Silenzio tivesse sido assoviada em toda a sua plenitude, como se cada instrumento tivesse que ser afinado antes de terminar. Era a minha canção de ninar, escolhida pelo meu pai só para mim! Eu nunca tinha ouvido-a de outra forma. A conheci com papai murmurando-a e assim foi até um dia desses, quando fui surpreendido por show gravado em DVD. De imediato, surgiu um soluço, depois um leve aperto no peito e uma sensação de bem-estar e proteção. Deixei as lágrimas escorrerem.

Enquanto ouvia, já deitado e com os olhos molhados, caí no sono e fui levado, instantaneamente, para algumas décadas atrás. No sonho que sonhava, além das imagens que eu via – coloridas, diga-se! – eu também sentia o cheiro das flores brancas e ouvia os pássaros cantarem. Desta vez, papai passeou comigo pelo quintal e meus pés tocavam o tronco do coqueiro que havia sido plantado ao lado da jabuticabeira. Pude sentir as ramas dos arbustos do quintal passarem pelo meu braço amolecido pelo sono. Eu estava lá, sem dúvida. Como se o tempo parasse no sonho, Il Silenzio durou toda a noite e madrugada. Os braços de papai me embalaram até que a manhã chegasse e uma algazarra parecida, com passarinhos diferentes, me acordou hoje cedo. Mas o cheiro das flores de jabuticaba continuava no meu quarto, as lágrimas já haviam secado, a música ainda tocava na minha cabeça e a saudade... Ah! Essa ainda grita no peito como a corneta que toca, solitariamente, um silêncio barulhento me fazendo lembrar dos momentos em que eu andava no teto ao som dos murmúrios de um sábio protetor.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ainda há dúvidas


Quando Luiz Fernando Veríssimo primorosamente escreveu O Clube dos Anjos – Gula, um dos melhores livros sobre os pecados capitais, ele mostrou que não é apenas o peixe que morre pela boca. Os gulosos acabam findando suas vidas por um pouquinho a mais do prazer da gula. Mas é pelo prazer. Quando esse prazer dá lugar à imposição e comer sem fome ou enfiar comida goela abaixo de alguém torna-se um sufoco quotidiano, há uma reação natural do organismo em regurgitar tudo de uma vez, até mesmo o que ainda cabia, devagarinho. É assim que enxergo o protesto que tomou conta das ruas no Brasil, ecoou nos mais longínquos cantos do mundo, sufocou outros assuntos importantes e se transformou no maior movimento popular da história de um país de mais de 500 anos. Encheu. Lotou. Ninguém engole mais. Estamos vomitando o que sempre foi enfiando goela abaixo de todos nós, os brasileiros.
Ainda há muitas dúvidas. Não sei, por exemplo, até onde tudo isso vai chegar e se, quando as manifestações cessarem, o preço do arroz e do feijão vai baixar para que a comida chegue ao prato de todos os brasileiros. Gostaria de saber se depois de tantos gritos e quebradeiras as crianças de todos os cantos terão salas de aula decentes, merenda escolar e livros para estudar e entender, num futuro, o que está acontecendo hoje. Queria saber se haverá mudanças nos contracheques dos professores, verdadeiros responsáveis pela formação de toda uma Nação. Não sei se as condições do transporte público, depois disso, serão condizentes com os valores pagos. Preocupa-me também o atendimento à saúde pública, que deixa gente morrer a mingua numa fila à espera de atendimento. Morre de esperança. Morre mas é obrigada, antes, a pagar todos os impostos, sob pena de perder a cidadania. E o pior: impostos altos e que, ao invés de retornar em forma de benefícios para quem os paga, como rege a lei, retorna para satisfazer as vontades de poucos e encher os bolsos de outros. Já enchemos. Estamos lotados. Não cabe mais!
Ainda fico pensando se haverá, de fato, uma limpeza na política e na forma justa de agir com quem mete a mão no dinheiro público, que deveria ser usado para consertar os estragos das rodovias, para equipar os hospitais, para melhorar os salários de quem realmente trabalha para o país crescer, que precisa contribuir por mais de meio século para ter direito à aposentadoria, enquanto poucos recebem, em 12 meses, 15 salários e outros auxílios, podendo se aposentar com dinheiro suficiente para construir, todo mês, uma sala de aula de primeiro mundo para 50 crianças estudar. Será que o jogo de interesses terá sempre um político como vencedor? Nunca o povo? Será que é utopia pensar num país onde as pessoas não precisem chorar e pedir “pelo amor de Deus” para dizer que estão morrendo? Isso é desespero! É utopia querer fora do poder aqueles que, criminalmente, desviaram as verbas que serviriam para melhor as condições de vida da população em benefício próprio? Acho que chega. Basta!
Será que depois disso tudo aquela história de empregar a esposa, a irmã, o irmão, a cunhada e o genro em cargos de ‘aspones’, com salários milionários em órgãos públicos vai acabar? E se não acabar, haverá punição? Vão devolver o dinheiro com correções? Enquanto isso, como fica o salário daquele fulano que estudou durante 20 anos, tirando da boca para pagar escola particular – já que a qualidade da pública... você sabe! – e é obrigado a bater ponto e trabalhar as oito horas por dia? Como vai funcionar a assiduidade nas cortes políticas? Todos vão trabalhar de segunda a sexta-feira, pelo menos? Vão justificar seus salários? Ou as manifestações conseguirão diminuir os valores estratosféricos nos contracheques de muitos políticos? Sim, porque quando se consegue de um lado, como foi o caso da ‘redução’ do valor da passagem do transporte público, é preciso realocar verbas para suprir a necessidade de outro setor, o empresarial, no caso. Ou seja, cobre um santo e descobre outro. E vão tirar de onde?
Se o leão acordou – e bravo, pelo que vimos! – ele vai enfrentar com ganância, com força, mas vai agüentar até quando? E depois que ele se cansar, vem o sossego ou ele volta a dormir e tudo começa a ser enfiado goela abaixo de novo? Não se pode mais parar. Começou tem de ir até o fim. Quando é o fim? Na hora de reinventar a política brasileira e mostrar, aí sim, quem manda nesse território Tupiniquim, hoje jogado às lambanças. Quem está por aí, nessa vidinha suntuosa e apenas empurrando goela abaixo o que o povo é obrigado a aceitar, já foi escolhido. Chega. Basta. Não dá mais! É o momento de renovar. Se a faxina foi feita, temos de trocar tudo e colocar só coisa nova. Gente nova! Gente que se preocupa com o preço do arroz e do feijão porque quer ver comida no prato do povo, que quer dar às crianças um ensino digno para que eles possam ser os novos que assumirão, um dia, a responsabilidade pelo país. Gente que não agüenta ver doente na fila, morrendo a mingua. Gente que tenha vergonha na cara e não aceita que o dinheiro dos impostos seja usado para outra finalidade que não o bem coletivo. Gente que trabalha, que dá o suor e o sangue, se preciso for, para não deixar a sujeira contaminar de novo o que um dia uma Nação inteira limpou. 


quinta-feira, 6 de junho de 2013



E se você tivesse a oportunidade de entrevistar um escritor? Pois os alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, tiveram. E não foi um escritor qualquer. Há duas semanas, os adolescentes estiveram com o moçambicano Mia Couto no auditório da escola. Em duas horas de conversa, os meninos não se intimidaram: fizeram perguntas inteligentes e não deixaram espaço para silêncios constrangedores (a propósito, veja o que o escritor tem a dizer sobre o silêncio na oitava pergunta).
Você lutou pela independência de Moçambique durante a guerra civil. Como a sua vivência como militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) marcou o seu trabalho como escritor?
Marcou de várias maneiras. Foi um processo longo, de escolhas, de um certo risco em um dado momento. Foi algo que me ensinou a não aceitar e a não me conformar. É a grande lição que tiro, que também me ajuda hoje a estar longe desse movimento de libertação, que se conformou e se transformou naquilo que era o seu próprio contrário. Mas eu acredito que ser uma pessoa feliz e autónoma é uma conquista pessoal. Não se pode esperar que algum movimento social ou político faça isso por você. Isso é algo que resulta do nosso próprio empenho.
Como é ser escritor em Moçambique?
Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava chegando em casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava escondendo. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante entrando na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele me reconheceu. Então ele pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas me conhecem. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.
Essa história é para dizer que, para uma parte dos moçambicanos, a relação com o livro é uma coisa nova. É a primeira geração que está lidando com a escrita, com o escritor, com o livro. Nós, escritores moçambicanos, sabemos que escrevemos para uma pequena porcentagem da população, que são os que sabem ler e escrever. O livro tem uma circulação muito restrita. Mas, mesmo assim, as tiragens dos meus livros em Moçambique giram em torno de 6 mil, 7 mil exemplares, o que é um número alto. Quando comparo com as tiragens que faço no Brasil, posso dizer que o Brasil não vai muito além. O Brasil não lê tanto quanto pensamos. Se contarmos a população inteira do Brasil e apenas aquela que lê e compra livros, veremos que a situação é proporcional à de Moçambique.
O que os escritores fazem para promover o livro em Moçambique?
A Associação de Escritores de Moçambique faz encontros em escolas primárias e secundárias e em fábricas. E aí tentamos fazer alguma coisa. Mas os livros estão muito caros. É o trabalho que escritor faz, mas é uma panaceia, porque o resto não depende do escritor.
Quais são os maiores problemas de Moçambique hoje?
Antes de responder à pergunta, eu vou dizer uma coisa. A imagem que nós temos uns dos outros é feita muito de clichês, de estereótipos. Vocês também têm uma imagem feita fora. A primeira vez que eu vim a São Paulo, há alguns anos, fui protagonista de uma história engraçada. Quando eu estava saindo de Moçambique, disseram-me que São Paulo era perigosíssima, que havia balas perdidas, gente morrendo, e eu comecei a ficar cheio de medo. Uma das minhas filhas me dizia até que eu ia morrer. Na viagem de avião, que dura onze horas, eu vim pensando que era um perigo e que eu seria assaltado. Tinham me dito para tomar cuidado quando chegasse ao aeroporto, porque tinha saído na Globo – lá também temos Globo – que havia falsos táxis que raptavam as pessoas.
E, de fato, eu já estava contaminado com aquela coisa. Quando cheguei, tinha um motorista da minha editora, mas ele não estava usando uniforme e não tinha nenhuma identificação. Eu logo perguntei se ele tinha identificação e ele disse: “Não, eu sou o Pepe”. E foi me conduzindo por um corredor e dizendo que o carro estava lá no fundo. E o carro não era propriamente um táxi. E a ideia de que eu estava sendo raptado começou a soar na minha cabeça. Quando entrei no carro e sentei ao lado do motorista, eu já estava olhando para a frente e pensando “esses são os últimos momentos da minha vida, vou reviver todo o meu passado, como nos filmes”. Até que o motorista pegou algo no porta-luvas. Era uma coisa metálica, para o meu desespero. E ele estendeu essa coisa e disse: “Aceita uma balinha?”. Vocês estão rindo, mas eu não tinha nenhuma vontade de rir, porque balinha lá não quer dizer a mesma coisa que aqui. Quer dizer bala no sentido literal mesmo, projétil de bala. E aí eu só consegui pensar que estava sendo assaltado, que aquele homem ia me matar, mas que era o assassino mais simpático que eu podia encontrar.
Isso é para mostrar como construímos a imagem uns dos outros. A imagem que se tem da África fora da África é sempre associada à fome, à miséria, à guerra. Mas os africanos não vivem todos assim. Eles são felizes, são construtores de vida, têm uma vida social riquíssima, têm culturas diversas, é o lugar no mundo onde há mais diversidade do ponto de vista linguístico e cultural. Então os problemas que temos são os mesmos da maior parte dos países africanos. Têm a ver com a miséria, têm a ver com o fato de que a sua própria história é muito recente. Moçambique teve uma guerra civil de 16 anos, em que morreram muitas pessoas. Quando morre uma pessoa, tanto faz se é militar ou civil, mas o que é mais triste é que as guerras da África são guerras que matam sobretudo os civis. Os soldados morrem pouco, porque muitas vezes se transformam em forças descomandadas, já que não existe um Estado forte e não há territórios definidos. Mas a África toda não é isso, há grandes histórias de sucesso. Moçambique é ao mesmo tempo uma grande história de sucesso, porque a guerra acabou em 1992 e, quando eu pensava que nunca mais ia ver a paz, o governo conseguiu instalar a paz juntamente com a sociedade civil. E hoje Moçambique é um grande parceiro internacional de investimento e de outros governos. Por exemplo, hoje o Brasil está muito presente em Moçambique, com projetos de construção, de estradas, portos, barragens etc. Portanto, acho que Moçambique vive hoje um momento muito feliz. Mas continua sendo um dos países mais pobres do mundo.
Com sua obra, você conseguiu apresentar a realidade de um país, e até de um continente. Como é a sua relação com Moçambique?
Eu não me considero representante de Moçambique, me considero apenas representante de mim mesmo. Eu tenho duas dificuldades: eu sou de um continente em que os brancos são minoria. Os brancos moçambicanos são minoria. Num país de 21 milhões, os brancos são 10 ou 20 mil. Portanto, eu não poderia ser o representante de qualquer coisa, se é que existe isso de representatividade. E a outra dificuldade é que eu tenho nome de mulher. Agora já não acontece tanto, mas antes, quando eu ia visitar um outro país, muitas vezes estavam esperando uma mulher negra. E eu ficava no aeroporto esperando que alguém viesse falar comigo e nada. Já tive desentendimentos terríveis.
Uma vez fui visitar Cuba e tinham organizado um presente para cada membro da delegação de jornalistas. Voltei com uma caixa de presentes. Na época, vivíamos em guerra. E, na guerra em Moçambique, nós vivíamos em uma situação-limite, não tínhamos nada. Nós saíamos de casa em busca de coisas para comer. Era essa a situação que meus filhos tinham de enfrentar todos os dias. Então eu estava fascinado com aquela coisa de ter ganhado um presente. Quando cheguei em Maputo, abri aquela caixa e eram vestidos, brincos, eram coisas para uma mulher, para a senhora Mia Couto. Então eu não me sinto representante nesse sentido, mas sinto que o fato de seu ser conhecido hoje fora de Moçambique me obrigar a ter uma responsabilidade para com o meu próprio país. Então, quando estou fora, eu tento divulgar a cultura de Moçambique, os outros escritores. Trago livros de escritores moçambicanos e entrego às editoras, para saber se é possível que sejam editados etc.
E com Portugal?
Eu sou descendente, sou filho de portugueses e tenho uma relação com Portugal muito curiosa, porque eu não conhecia Portugal até eu ser adulto. Só fui a Portugal quando eu comecei a publicar meus primeiros livros. E era uma coisa muito estranha, porque a concepção africana de lugar é que o lugar é nosso quando os nossos mortos estão enterrados no lugar. E eu não tenho mortos em Moçambique, infelizmente. Então os meus mortos estão enterrados em algum lugar no norte de Portugal. E eu fui ver esse lugar. Eu queria ver justamente porque queria ter essa relação quase religiosa com o lugar.
O que acontece é que os meus pais imigraram para Moçambique quando eram jovens, tinham 20 anos, e viveram toda a sua vida lá, nunca mais tiveram relação com Portugal. E eles contavam histórias de um país que, ao mesmo tempo que me fascinava, era uma coisa muito distante. O que acontecia é que a minha mãe, ao contar histórias sobre a sua família, seus tios e avós, trazia para mim e para meus irmãos uma presença que nos fazia muita falta, porque todos os meus amigos tinha avós, tios e falavam dos primos. Eu não tinha ninguém. A minha família eram os meus pais e os meus três irmãos. Então o que a minha mãe fazia ao contar histórias era inventar a família inteira. Eu precisava ter um sentimento de eternidade que era conferido por essas histórias que a minha mãe contava. Mas eram quase todas mentira, quase todas eram inventadas por ela.
Qual é a sua opinião sobre a reforma ortográfica?
Eu não sou a favor. Considero que alguns dos motivos que foram invocados para a reforma ortográfica não são verdadeiros. E acho que é uma discussão com a qual os portugueses, principalmente, ficaram muito nervosos, porque, para Portugal, mexer na língua é uma coisa muito sensível. Algumas pessoas de Portugal acreditam que a língua é a última coisa que eles têm, que é a primeira e última coisa que têm, é um sentimento imperial da sua própria presença no mundo que foi posto em causa. Mas a minha questão não é essa. É que eu sempre li os livros dos brasileiros e nunca tive problema nenhum, nunca tive dificuldade nenhuma. Para vocês, que estão lendo meus livros em português de Moçambique, existe alguma dificuldade particular por causa da grafia? Ou a dificuldade é o resto e essa é a única coisa que não é difícil?
Eu acho inclusive que haver uma grafia que tem alguma distinção, um traço de distinção pode trazer um outro sabor a uma escrita. E os brasileiros conhecem muito pouco de Moçambique, de Angola ou de São Tomé. Às vezes eu ando na rua e tenho uma dificuldade enorme para explicar quem eu sou. Na verdade, isso eu não sei explicar, mas a dificuldade é para explicar de onde eu venho. Quando falo que não sou de Portugal, sempre fica uma coisa difícil. Fazem as perguntas mais estranhas sobre o que pode ser Moçambique, se é um país que fica perto do Paraguai, por exemplo. Então a distância entre nós não é um problema que deriva da ortografia, deriva de outras coisas, de política, de uma falta de interesse, de um distanciamento. Isso não será resolvido mudando o acordo ortográfico.
O que pode mudar a imagem negativa que muitas pessoas têm da África?
Há várias Áfricas e eu estou falando daquela que eu conheço. Essa África que eu conheço sobrevive por um espírito de solidariedade, de abertura e de respeito com os outros. A forma que os africanos têm de se abordar, de saber um dos outros é uma coisa genuinamente autêntica. Quando eu estou cumprimentando alguém, quando estou falando com alguém, eu dou espaço para o outro. Então há uma lição de escutar os outros. Eu nunca falo quando o outro está falando, dou espaço, não tenho medo do silêncio, que é uma coisa que acontece aqui. As pessoas estão conversando, de repente há um silêncio, e isso é um peso, é uma coisa da qual temos que nos libertar, é uma ausência. Na África, essa ausência não existe. Nesse silêncio, há sempre alguém que fala. São os mortos. Por exemplo, a relação com o corpo. É preciso ter tempo para encontrar alguém. Quando eu estou falando com um homem, eu cumprimento com um aperto de mão. Mas o aperto de mão não é igual, tem um ritual. Depois do aperto, a mão fica na mão da outra pessoa. Não tem nada a ver com interpretação gay. A mão fica na mão da pessoa com quem estamos falando, e essa mão não tem peso, é uma mão leve. Porque se fala com o corpo. Temos essa liberdade de poder usar o corpo para dizer coisas que não podem ser ditas pela palavra. São coisas pequenas que nos mudam muito interiormente. É uma capacidade de estar disponível para os outros. E capacidade de ser feliz.
Eu também encontro muito isso no Brasil. Tem a letra de música brasileira que diz “levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. Eu acho que isso é, em grande parte, uma herança africana. Isto é para não ficar lamentando a desgraça. Eu acho que, se os europeus vivessem as dificuldades que vivem os africanos, eles seriam muito amargos. Aliás, já são. A forma como os africanos celebram a alegria de viver e o fato de que qualquer momento é um momento de festa, de celebração, de dança, de canto, acho que é outra coisa que é importante aprender. Há uma tolerância profunda. Vocês vão ouvir mil histórias sobre intolerância, e essas histórias também são verdadeiras. O mundo é feito dessa coisa contraditória, mas a verdade é que há uma tolerância muito grande. Essa tolerância nasce de uma coisa. O que eu vou dizer agora é muito importante: a África só pode ser entendida se vocês perceberem que a África tem uma outra religião. Essa África negra tem uma outra religião. Essa religião não tem nome. Não é o candomblé, não é a umbanda, é outra coisa. É uma religiosidade que não se separou das outras esferas do pensamento. Não é um sistema de pensamento. Na África que eu conheço, existem os deuses das famílias. Você tem os seus deuses, eu tenho os meus deuses. Isso significa que eu não estou muito preocupado em te convencer de que existe uma verdade só, que é uma coisa muito típica das regiões monoteístas, que é uma verdade que tem de ser imposta ao outro e o outro tem de seguir esse princípio. Você pode ter a sua verdade, eu tenho a minha, e está tudo certo. Acho que essa é a razão para os africanos terem essa tolerância.
Mas a verdade é que africanos são muito parecidos com todos os outros. Essa ideia de que a África é muito diferente, muito exótica existe só na cabeça de algumas pessoas. Mas há uma coisa que é preciso ser dita. Em uma sociedade que é muito pobre, às cinco da manhã, às vezes eu saio de casa e vejo as pessoas já acordadas, atravessando quilómetros a pé, andando 30, 40 quilómetros para ir à escola, saindo de casa sem o café da manhã e tomando simplesmente uma xícara de chá com muito açúcar para dar energia, para ir para a escola aprender. Eu tenho um prazer enorme de ir às escolas em Moçambique, porque os meninos estão ali com uma fé quase religiosa. Eles estão ali absorvendo, têm os olhos abertos até o infinito, estão completamente ali. Não se ouve uma mosca passando na sala. É um investimento que eles fazem em uma outra esperança, em uma outra crença. É impressionante. Mas há escolas em Moçambique nas quais eu não vou: a escola americana, por exemplo, que é uma chatice. É uma vida feita de facilidades, em contraste com essa vida de conquistas, em que as pessoas têm de sair de manhã e têm de lutar. Às vezes nem tenho coragem de perguntar a esses meninos o que eles fizeram para chegar à escola naquele dia. Muitas vezes o giz é feito com pau de mandioca seca. Às vezes, não há sala. É uma árvore. E não há cadeiras, as pessoas sentam no chão. No entanto, aqueles meninos estão todos os dias ali na escola, assim como os professores. Isso é uma grande esperança. É um universo de gente que sabe que tem de fazer isso para construir uma vida diferente. É uma grande escola.
Como você e as personagens da sua obra dialogam com o mundo contemporâneo, que é marcado pelo consumismo e pelo hedonismo?
Eu acho que um jogo de construção e desconstrução porque esse mundo que você retrata como sociedade do consumo existe e não existe em Moçambique, porque muitas vezes consumimos muito pouco. Consumimos mais aquilo que é ilusão. Cada vez menos o Estado confere Educação e saúde, e nós temos que conseguir isso por outras vias. Então o que eu procuro fazer nos meus livros é uma coisa que eu posso fazer como escritor. Eu não posso lutar para além desse limite, que é sugerir que há outros caminhos, que é possível sonhar, que não podemos ficar acomodados, resignados. Obviamente eu não posso propor uma tese ou um modelo alternativo nos meus livros, nem saberia fazer isso, mas posso incentivar o gosto, a vontade.
Como você vê os seus personagens no cinema? Como é a visão física deles?
É um estranhamento, porque aquilo que eu criei não tinha voz nem rosto, nem para mim mesmo. Então de repente o personagem tem uma voz. Mas, mesmo que seja a mais bela voz do mundo ou o rosto mais belo do mundo, o fato de ter um rosto e uma voz e não estar aberto e não ter vozes múltiplas é uma perda. Por isso, eu me distanciei. Se participo do filme, é somente para pontualmente dar algum apoio, mas não como alguém que tenha competência para isso, porque eu não tenho. Eu quero que o realizador de cinema faça um produto distante, que é capaz de se soltar, ganhar asas e sair do texto escrito, senão perde como livro e perde como filme.
Você gostou de Um rio chamado tempo, uma casa chama terra, filme baseado em seu livro?
Mais ou menos. O que tinha de dizer já disse ao realizador, que é meu amigo. Gostei, mas não gostei.
Retirado de:

Vale a pena conhecer! Vale a pena entender...

http://www.esquerda.net/artigo/onze-perguntas-para-mia-couto-uma-entrevista-inspiradora

sábado, 18 de maio de 2013

Salve Jorge e seus furos gloriosos: uma avaliação fria do fim de alguns personagens


A novela acabou (graças a São Jorge Guerreiro), mas uma nuvem ainda paira sobre minha cabeça: a situação de alguns personagens que, como vários da trama mal escrita de Glória Perez, ficou sem desfecho. Um fim com furo glorioso, se me permitem o trocadilho! A eles:

Fatma
Desde que Mustafá saiu da TV Pirata, Fatma estava ali do lado dele e de Berna (ou seria Gina?), ouvindo todos os segredos cabeludos daquela casa. Nos últimos capítulos, sua participação resumiu-se em preparar chás para Mustafá não beber. Era só ele chegar em casa – pensem!, – pedia um chá. Enquanto a pobre mucama caminhava até a cozinha pra preparar o bendito, padrão Musta já tinha cascado fora. “Onde está Mustafá Bei”, foi uma das frases mais ditas por Fatma que, se tiver tomado a metade dos chás que ofereceu para o vendedor turco quando ele a deixava na chapada, deve ter virado membro do Santo Dayme e sumido para a Amazônia, já que até a aparência indígena lhe era peculiar. Foi viver com os índios Wayampi, no norte do Amapá, e fazer shampoo de mutamba porque vale lembrar: não existe índio careca.

Adam
Marido de Fatma, (e isso só foi dito, mesmo, quando já tínhamos visto a luz no fim túnel, que era a novela) foi acometido por um surto psicótico depois que viu um bebê no meio de tanta prostituta. Deve ter imaginado que VOUTEVINGARJÉSSHYKA seria a próxima a dar o show no palco. Em um de seus sumiços, foi tomado por uma força extraterrestre que se hospedou no corpo dele. Tal e qual abdução, sumiu!

Zoe
Essa moça turca, amiga da Aisha, é uma das moças turcas mais inteligentes de que já tive notícia. Morava em Istambul e falava português melhor do que 90% da população brasileira. Seu papel, que se resumia em buscar Aisha na praia durante as crises de frescura, deve ter também se findado na praia. Aisha subiu, desceu e subiu de novo o morro. E a amiga? Ã? A família de Mustafá abandonou a amiga da filha postiça onde? Cri cri cri...

Irina
Depois de ter a vida devassada por conta de passar 99,9% dos capítulos fazendo contas sentadas... Depois de especularem que ela estava com problemas no fêmur e que não podia andar pela idade... Depois de confundirem-na com Charles Xavier, dizendo que, como mutante, ela tinha conseguido outro emprego, se fez de coitadinha. “Eu só fazia a contabilidade!” e teve que se levantar e quase saiu correndo. É a maior prova de que a necessidade faz o sapo pular...

Miro (André Gonçalves)
Nem tivemos tempo de decorar o nome do personagem. Veio e foi como uma onda no mar, plagiando Lulu Santos. Fim sem sentido também.

Nilceia
A irmã da Lucimar (também conhecida como Solineusa ou Pôia) fez unha, merchan da Natura, subiu e desceu o morro e... deve ter ficado perdida num daqueles becos e não chegou a tempo de gravar o final escrito pra ela. Dizem que até agora tem contrarregra procurando ela no Morro do Alemão. Parece-me que seu destino glorioso (me perdoem o trocadilho outra vez!) era um salão de beleza no povoado de Zyah, na Capadócia. Também só especulação.



Jéssica (a outra que morreu)
Ghost! Depois da última mesa branca, que na verdade foi num barranco na praia, nunca mais apareceu para agradecer Morena pela vingança prometida e feita. Deve ter baixado em outra freguesia.


Tamar
A mulher do neto do Silvio Santos também estava na trama com um zero à esquerda, assim como Juniô! Pariu um filho, que serviu apenas para massacrar a irmã de inveja, e... e só!

Junior
Além de gritar “Vó, a Adriana”, “Eu quero brigadeiro” e “Cadê minha mãe” com toda aquela emoção (eu sempre achei que ele era parente da Vick e que de noite dormia, mesmo, numa caixa) serviu de empata foda, a parte mais atuante do personagem. Fora isso... Nadica de nada.

Vó Farid
Milagrosamente se curou do Alzheimer. Deve ter transferido a doença para a autora. Já ouvi dizer que essas coisas acontecem mais do que se imagina.

Sarila
Depois de descobrir o paradeiro de VOUTEVINGARJÉSSIKHA por causa de uma pétala de flor que estava na roupa do neto quando foi sequestrado pelos capangas de Lívia e blá blá blá... foi chamada para fazer o CSI Capadócia!

Ekran
Acho que caiu no poço e ninguém salvou!

Esma
Juro que não pensei num fim pra ela.

Kemal
Juro que não pensei num fim pra ele.


Ricardo
O policial federal narigudíssimo da silva xavier, como entrou sumiu! Começou um flerte com a Cissa Guimarães e mijou na espoleta. Como assim, né? Era claro que era pra ser. Mas como dizia a Érica: “Não era pra ser!"


Drago
O filho da Cristiane Torloni, que tem cara de qualquer coisa, menos de gente, foi cúmplice do outro montador de cavalo e saiu sem um arranhão da história. Também saiu pela porta dos fundos do quartel. Ninguém viu.

Pescoço
Deveria ter tido um fim mais glorioso (se me perdoem mais uma vez o uso do trocadilho). Nem os telefonemas do celular dela para Lívia (feitos por Wanda numa outra encarnação e muito mal amarrado pela autora) ficaram claros. Continuou ali, deitado no sofá e sofrendo de um torcicolo chamado Aisha.

Diva
Se fazia de esperta, mas a sonsa nunca descobriu que o binóculo do marido, seu Clóvis (outro zero à esquerda), era pra ver a piriguetaiada do morro.

Sidney
“Quem, mesmo?”, você deve ter se perguntado. O Filho do Mussum, neto da dona Diva e do Clóvis que nunca teve pai, nem mãe! Que fim levou? Eu imaginava um final glorioso (abusando do trocadilho) com uma rádio comunitária no morro ou um site bombado em toda a América Latina, com extensão na Turquia, dada a facilidade da ponte-aérea... Imagine a internet.

Beto
E o Beto? Beto... Beto... Beto... Ah, o progenitor do Júnior. Só passou na trama pra ser pai do boneco e ensinar Morena atirar! Pronto.

Yolanda
Criada para causar a discórdia, deram notícia dela num dos capítulos do mês passado. Disseram que estava casada com um argentino. Coisas de Glória Perez com preguiça de ir até o país vizinho gravar uma ceninha dela com o marido, já que o orçamento tinha estourado com tantas pontes-aéreas Rio-Turquia como se fossem Salvador-Santo Amaro da Purificação.

Caíque
Ficou metade da novela emprestado para o SBT, onde gravou participação no remake de Carrossel. Apareceu de novo para tirar as roupas da mulher do Tande do armário e levar pra casa dela. Pronto. Sumiu de novo. Era namorado da Lurdinha e o relacionamento também não teve fim...

Salete
A empregada de dona Leonor (que ganhou na justiça o direito de ser reconhecida como empregada pela CLT) tinha feito a vida inteirinha pra passar ao lado do turco Murat, que conheceu quando foi arrastada para ser capacho – ou melhor, tapete persa – na Turquia, voltou pra cozinha e de lá não saiu mais. Eu acho.

Murat
Sem destino final. Com participação irrisória, me esqueci de pensar no fim dele. Deve tá lá onde estava. Onde era mesmo?

Tartan
O velho marido de Cyla que repetia tudo como disco de vinil furado em radiola velha é um caso à parte. Era um personagem interessante. Mas como todos os personagens interessantes da novela, ficou renegado à repetir as últimas palavras na cozinha do restaurante. Eu acho.

Buquê
Esse era o nome da personagem de Narjara Tureta. Sabiam? Bem, voltou para o Rio de Janeiro, devido á grande facilidade de ponte-aérea, e deu um up grade na barraca de cocos que tem em Copacabana. Agora com um plus: Coco com rack!

Russo
Depois de ser estapeado pelas garotas, foi esquecido algemado na cama. Parecem derrubaram a boate cenográfica em cima dele. Também, né, um personagem tão escondido na trama... Nem merecia fim maior. Caiu no esquecimento mesmo.

Foi isso. Um fim nada glorioso, se me permitem, mais uma vez, o trocadilho, para os personagens. Fiquei sabendo que Glória Perez recebeu mais uma chance. Depois de ser chamada ao Departamento Pessoal da Rede Globo, assim que o último capítulo foi ao ar, acabaram revendo a condição dela, o tempo de casa e tals, e encaminharam-na para o elenco de apoio de Zorra Total. É isso... Que venha Amor à Vida.