domingo, 9 de agosto de 2015

Dia dos Pais: O cachorro do vizinho


Poucas vezes na vida vi meu pai se levantar depois que o sol estivesse em riste. “Dormir é perder tempo”, dizia ele que acordava pela manhã fazendo barulho. Era para movimentar a casa e acordar quem ainda desejava ficar na cama até mais tarde. Era vontade de interagir, de ver gente circulando pelos cômodos. Era vontade de dividir o café e o pão de queijo com molho tártaro – que ele mesmo fazia questão de fazer. Papai não era pessoa solitária. Gostava de fazer tudo rodeado de gente.

E foi justamente por essa mania de acordar cedo, antes mesmo do sol, que ele era chamado para as tarefas da madrugada, quando era tempo de festa da cidade, em Nova Veneza. Virou coordenador da alvorada, do foguetório que abalava a as redondezas às cinco da madrugada, junto aos sinos e às músicas da igreja. Não que fosse devoto contumaz, mas porque gostava de acordar cedo. Então, quando o mês de julho chegava ele tinha trabalho antes do próprio ofício.

Por volta das quatro e pouco da manhã, com um frio que parecia cortar a face, ele se levantava e preparava o café, enquanto o pão de queijo assava. Num desses dias de festa, os primeiros fogos já pipocavam no céu da cidade, sob o comando dado por ele no dia anterior. Ao abrir a porta da área, que dava para o pequeno quintal que tínhamos em casa, ele foi surpreendido por um cachorro assutado com o barulho dos foguetes. O vira-latas era do vizinho e entrava em pânico quando ouvia os estouros. O cachorro passou pelo meio das pernas dele, foi direto para o quarto e se alojou atrás do guarda-roupas. Acordei ouvindo um “sai, cachorro” meio abafado. Achei que estivesse sonhando. Mas a insistência me fez levantar para ver do que se tratava.

Quando entrei no quarto dele a cena que vi era algo surreal. Papai ajoelhado no chão, com uma vara de pescar na mão, cutucava o cachorro, que permanecia imóvel e amedrontado atrás do guarda-roupas. Quando os fogos começaram, de vez, o cachorro começou a uivar, tamanho era o pânico do animal. Papai, aparentemente irritado, arrastou o móvel e o cachorro, encantuado, não ofereceu resistência. Puxou-o pela coleira até o quintal, juntou as forças que lhe restavam, pegou o cão e o colocou pra fora, encorajando-o a voltar para o quintal do vizinho por uma abertura no muro.

Missão cumprida! Ou quase. O animal parecia feito de mola. Quando chegou do outro lado e meu pai virou as costas, o cão saltou o muro novamente pro lado de cá. Ludibriou papai e entrou em casa, mais uma vez. Não era para se achar graça, mas eu ria escondido para não deixá-lo nervoso. Papai foi até o quarto da bagunça – todo mundo tem num em casa – e pegou uma corda, fez uma laço e conseguiu, em fim, imobilizar o animal. Desta vez, saiu pelo portão da rua com o cão, que sumiu na imensidão escura, uivando como se fosse louco, tamanho era o pavor. A esta altura, o sol já avermelhava o céu e papai deixou de lado a alvorada daquele dia para tomar um banho que esfriasse a cabeça e tirasse o cheiro do bicho.

E como hoje as alvoradas, para mim, não têm mais a mesma importância, acredito que de onde estiver estará sorrindo. E os fogos hoje são exclusivamente para ele. Feliz Dia dos Pais, onde estiver!

terça-feira, 14 de julho de 2015

Num Estado laico, obrigatoriedade da Bíblia nas escolas é insanidade


Quando eu era criança, lembro-me de acordar cedo aos domingos para acompanhar minha mãe à missa. Criado assim, dentro do cristianismo católico, passei por todos os processos que a igreja prega: batismo, primeira comunhão, crisma... Na mesma época, estudava em escola pública e lia os poucos livros que a biblioteca, também pública, oferecia. Em nenhuma das instituições fui obrigado a ler a Bíblia. Não que não seja um livro importante, interessante e de cunho também histórico. Apenas não me obrigaram. Estudei, cresci e me formei. Formei também uma consciência crítica do que, para mim, é certo ou errado. Disso tudo me sobrou a ideia que obrigação é uma necessidade imposta pela falta de educação. O que não foi o meu caso.

O Brasil precisa de educação e isso ninguém contesta. Somente assim, o brasileiro saberá escolher bem seus representantes, aqueles que se proponham a lutar em benefício da sua cidade, Estado, país e, principalmente, em benefício dos cidadãos. Não precisamos de políticos que, assim como os fundamentalistas e os de tolerância duvidosa ou forjada, tentam empurrar garganta abaixo de uma sociedade carente de estudos básicos a imposição da sua fé e da sua crença. Pessoas assim ignoram completamente a fé alheia e comungam dos ideais intolerantes que movem, de uma forma ou de outra, uma violência desenfreada mundo afora.

Cada um segue a fé a qual lhe faz bem, lhe traga paz e sanidade mental. Cada um escolhe o seu livro, seja o Alcorão, a Bíblia, o Zend Avesta, o Mahabharata, o Tripitaka ou os segmentos de Sidarta Gautama. Não me venha querer impor qualquer crença que seja sem saber se “eu” quero segui-la. Isso não é democracia. É como se, por exemplo, colocassem os filhos de uma família evangélica para estudar numa escola muçulmana e os obrigassem a seguir o que dita o Alcorão. Ou jogassem um bramanista numa escola espírita e o obrigasse a entender – e crer! – nas mesas girantes, estudadas por Kardec, no início da codificação do espiritismo. Não é assim que funciona. Não se enfia ideologia na cabeça de alguém pelo mero prazer de difundir a própria crença. Quem sabe o que é melhor para “mim” sou eu.

Onde fica a individualidade do cidadão? É sufocada pelo preconceito arraigado que desmantela um sistema laico! Isso é, a meu ver, um afronta ao cidadão e ao uso do espaço público, mantido por meio dos impostos pesados pagos pelo cidadão, para difundir interesses próprios ou de uma minoria intolerante que não enxerga o indivíduo como um ser múltiplo e com vontades e desígnios únicos. Parlamentares que passam o tempo de trabalho, também pago pelo cidadão, arquitetando projetos de aceitação duvidosa e de cunho altamente discriminatório, servem apenas para fomentar o ódio e a intolerância ao diferente. Esse tipo de iniciativa nunca vai gerar qualquer tipo de benefício intelectual ou moral.

O que deveria haver – e aqui dou meus préstimos com ideias de bons projetos de lei – era a preocupação com a leitura obrigatória diária do Código Nacional de Trânsito, em todas as escolas, para tentar melhorar o caos e falta de educação com a qual nos deparamos diariamente nas ruas, como se estivéssemos em uma selva sem leis. Deveriam apresentar projeto de lei para ensinar educação financeira nas escolas e fazer com que crianças começassem cedo a pensar no futuro e não depender de políticos que se aproveitam da boa vontade de tanta gente humilde para fazer a carreira. Deveriam obrigar, por meio de projetos, o respeito a todas as diferenças, sejam elas religiosas, sociais, sexuais, raciais... Deveriam pregar, sim, a tolerância e a igualdade. Para os fundamentalistas religiosos, uma pergunta: Não foi isso que o Cristo pregou?

A leitura da Bíblia é de grande valia. Para muitos, essencial para se viver em acordo com a sociedade, com o mundo e consigo mesmo. Vale e muito! Mas daí a obrigar a todas as pessoas, diferentes ou ignorantes a um tipo de crença, a praticar os ideais religiosos avessos aos seus, isso é, no mínimo, insano. E onde está a suma que o Brasil é um Estado laico? Isso já foi esquecido? Jogaram isso na lama também, junto com a intolerância e o respeito ao próximo? Penso que é obrigação das autoridades resgatar esse princípio. Quando os ideais cristãos, os quais alguns insistem em dizer que seguem e comungam, forem respeitados – igualdade, tolerância, caridade e o amor ao próximo –, aí sim, quem sabe, esse tipo de obrigatoriedade deixará de ser necessário.


Rimene Amaral é jornalista

http://www.aredacao.com.br/artigos/59923/num-estado-laico-obrigatoriedade-da-biblia-nas-escolas-e-insanidade

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Treinamento funcional – uma semana depois


Depois de dez dias passados do meu primeiro treino funcional, o sol voltou a brilhar novamente. Um pouco ofuscado, é certo, mas há luz. Nesses dez dias, conheci mais meu corpo e aprendi que os músculos gritam sempre que são estimulados. Gritam tanto que parecem estar dilacerados. Consequência: dor! E são aqueles mesmos músculos com quem você conversava a vida inteira e não sabia que havia variantes deles que podem – e vão! – doer muito mais.

O treino funcional parece inocente, mas não é. Treino funcional é cruel! É como se seu corpo fosse acordado de um sono profundo e jogado na capoeira com três leões famintos correndo atrás de você. Músculos, mente e respiração parecem chegar ao limite. E chegam! Há dias em que o estômago revira por horas devido à quantidade de ácido lático circulando pelo corpo, depois das fissuras musculares.

Na segunda semana, comecei a compreender que, sim, definitivamente, eu odeio qualquer tipo de exercício físico que fuja do trivial garfo-faca-copo em levantamento. Com ou sem aparelho, exercício é algo que massacra. Mas como não sou mais adolescente e a vida fica cada dia mais cheia de nove horas por conta da tecnologia, exercício físico continua sendo fundamental para manter a saúde da mente e do corpo (depois que o corpo se curar dos exercícios). Nessa segunda semana, também percebi que, apesar do sofrimento, o tempo é o melhor amigo – e também pode ser o pior inimigo. Amigo porque só com ele as dores passam. Inimigo porque se ele passar do ponto as dores voltam pra matar.

Então, já que é preciso movimentar para que os músculos e a saúde não atrofiem, vamos aos exercícios funcionais. Dizem que um dia – o engraçado é que ninguém especifica quando. E conheço gente que já está lá faz anos e ainda sentem – as dores passam. Enquanto isso não acontece, sigo com medo, pavor e receio da sala de torturas medievais. Mas é necessário.


Ah!, essa semana, Matador, meu instrutor, disse que vai me fazer gostar de exercício. Me contorci de rir, claro! Foi a série de abdominal do dia! Mas pensa comigo: tem que fazer, vamos fazer aquilo que menos nos maltrata. Ontem corri amarrado. Sim! Você corre com um elástico amarrado à sua cintura. Corre mas não sai do lugar. As panturrilhas amanheceram hoje como se fossem prato português: batatas ao murro. Desde que levantei, estou andando como pato manco com espinho no pé! Quando a vida sorrir pra mim de novo, volto e conto. Sigamos, pois. Adieu!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A segunda aula de “Treino Funcional” – A redenção / Fênix


Hoje tive a segunda aula de treino funcional. O instrutor – que agora chamo de Matador, por razões óbvias! – me recebeu com uma cara meio estranha, achando que eu não fosse aparecer mais. Disse a ele que estava apenas esperando a ressurreição, já que pessoas mortas ou semimortas não se locomovem. Acho que ele não me levou a sério! Mas achou engraçado quando comparei o local das aulas do treino com uma câmara de tortura medieval. Disse até que ia contar para as pessoas e seres humanos.

Bem, tenho duas notícias. A primeira: sobrevivi! A segunda: sinto que o meu fim de semana está comprometido por conta das novas apresentações. É que hoje fiquei conhecendo um outro grupo de músculos que nunca, em tempo algum, alguém havia me falado sobre eles. E quer saber? Estão todos agitados, já que hoje Matador não deu trégua e me botou pra fazer exercícios “like tomorrow doesn’t exist”. Mas haverá! Nota: Matador já começou a usar uns pesos. Eu sabia que a coisa não seria simples assim...

A cama elástica, coisa que a gente vê como brincadeira de criança tem o poder de me enfrentar descaradamente. Ela olha pra mim e sei que ela está pensando: “Vem cá. Pula um pouquinho aqui. Dez minutinhos, só. Faço nada não!”. E quando você sai de cima daquilo, suas pernas encontram um chão que não se move e as pisadas têm o mesmo peso de quem pisa em Júpiter.

Durante o meu treino funcional, vi um rapaz (coitado!) subindo do chão, usando apenas os braços e puxando uma corda de navio amarrada ao teto e com os pés fixos em pneu de trator (?). O que era aquilo?! A pessoa vai precisar de ajuda para colocar o cinto de segurança do carro ou para comer, beber, dirigir e fazer qualquer tipo de movimento com os braços e as mãos. Tá louco!

Bem, apesar da tremedeira nos braços e nas pernas, com a apresentação dos novos músculos – que, dizem, serão meus amigos de agora em diante – o estômago já voltou ao normal. Meu sangue saiu da fase “Fábrica de queijos Gouda” para “Laticínios Piracanjuba”. Acho que agora vai. Se não for, fica. Sem promessas. Sem expectativas. Vamos acompanhar cada passo! Obrigado pela força, porque essa... já não a tenho mais.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Treino funcional

Sobre o treino funcional que fiz na segunda-feira, o primeiro da minha vida, alguns pontos notados e preciso revelar que:

1 – O local parece ser insalubre como qualquer outro campo de concentração.
2 – Os instrutores são tão cruéis quanto os soldados nazistas.
3 – Você não pega peso, mas o seu peso te faz entender o quanto suas pernas são fortes para te sustentar.
4 – Relaxante muscular e anti-inflamatório são gêneros de primeira necessidade da farmacinha de casa.
5 – As 10 horas seguintes ao treino são de extrema fraqueza, sensação idem à da que precede a morte, acredito!
6 – As 24 horas seguintes ao treino são de dores descritas como: apanhar de ripa, um caminhão passar por cima e dar ré, um elefante dançar cara-caramba-cara-caraô em cima do corpo, ser jogado de cima do Empire State Building sem qualquer amortecimento... e por aí vai! Você pensa que vai morrer.
7 – Nas 48 horas seguintes ao treino você tem a certeza de que respirar, piscar e engolir são tarefas que podem matar. A vida passa diante dos seus olhos quando se executa qualquer uma dessas atividades.
8 – Não se pensa em outra coisa que não uma cama e uma bolsa quente.
9 – Me fez repensar o sentido da vida e de qualquer exercício que não seja o de levar o garfo e o copo à boca...
10 – Tô pensando sério em rever os princípios que traduzem o bem viver e o sobreviver.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Não vou “comemorar”


Quando os cabelos brancos extrapolam as madeixas e invadem a barba pelas laterais do rosto, a vida passa a ter outros sentidos. Não damos mais tanta importância às notícias de vizinhos e colegas de trabalho. Os assuntos nas mesas de bar passam a ser projetos para o futuro. Amigos, aqueles verdadeiros, passam a ser parceiros dos nossos sonhos. E como sonhamos mais... Não apenas em ter mais dinheiro, mas em fazer algo que nos traga satisfação.  Eu mesmo era perdulário! Digo isso porque, na semana passada durante ‘aquela faxina’, consegui me desvencilhar de muita coisa que havia comprado e não tinha usado. Em alguns casos, nem me lembrava mais que tinha comprado. Qual não foi a minha surpresa em descobrir que tinha em casa um modelador de hambúrgueres, depois de ter ficado decepcionado, algum tempo atrás, por não ter conseguido comprar algo semelhante em um site de compras? Enfim, muda-se o foco.

Esta semana foi tranquila. Em outros tempos ela teria sido tensa, à procura de lugares especiais, comidas diferentes e bebidas idem que agradariam a uma legião de amigos por um prazo de quatro horas, não mais que isso, que duraria a comemoração do meu aniversário. Farei uma travessa de macarrão, com muito molho, para comer acompanhado de um vinho que não é todo dia que se bebe, ouvirei a música que quiser, no volume acima do normal, quantas vezes eu quiser. E, apesar de não estar em companhia de pessoas que gosto, não me sentirei só. Amizade a gente guarda para todo dia e não apenas para o dia das comemorações.

Vou aceitar todos os abraços, todas as felicitações e cumprimentos. E melhor ainda se vierem acompanhados de presentes. Aí, sim, a felicidade é completa. Mas não farei torta doce ou salgada, não estourarei espumante e não receberei em casa com salgadinhos de festa. Bem diferente dos aniversários de infância, quando minha tia passava o dia preparando um bolo – pão-de-ló com dois recheios: ameixa e abacaxi com doce de leite, coberto com glacê de claras – e, possivelmente, chorando no fim do dia por não ter conseguido fazer da forma como queria. É que, por causa do tempo chuvoso, o glacê não se sustentava em cima do bolo. Mesmo assim, tinha cantoria de parabéns, refrigerantes com gravatas e balas de coco embrulhadas em papel de seda colorido. Ficou a saudade.


Hoje farei do meu aniversário um dia de descanso. E farei somente aquilo que eu quiser fazer e comerei de tudo, sem me lembrar que um dia inventaram algo chamado “dieta”. Vou beber como se não houvesse amanhã – mas sei que haverá! – e me acabarei num prato de macarrão no fim do dia, depois de lanchar a terceira pamonha do ano, à moda, com pimenta e linguiça. Mas não vou me esquecer de ninguém. Apesar de o aniversário ser meu, são os meus amigos que sempre merecem os cumprimentos e meus eternos agradecimentos por estarem sempre ao meu lado, mesmo que no plano virtual. Parabéns a mim, obrigado a todos vocês.

Rimene Amaral, 07 de novembro de 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Emoções em frascos




O olfato é, sem dúvida, o meu sentido mais aguçado e desde que me entendo por gente os cheiros fazem parte da minha vida como se fossem uma marca. Minha memória olfativa é infalível, é emotiva, é forte e me faz sair de mim para lugares e tempos remotos. A primeira lembrança que me vem à mente quando se fala nessa tal memória é a primeira florada da jabuticabeira da casa do meu avô. Eu era acordado pela chuva fina e insistente que caía naquela manhã de sábado e, pela janela entreaberta, entrava um frescor com cheiro de flor de jabuticaba, misturada ao café fresco que mau pai fazia. Nada mais aconchegante. Nada mais calmante e nada mais inesquecível... Lá se vão algumas décadas.

O tempo seguiu seu curso e eu fui aperfeiçoando meu olfato, selecionando os cheiros mais importantes da minha vida e guardando em algum lugar, aqui dentro, que eu mesmo nem sabia que ainda estavam lá. E, de repente, quando um desses cheiros passa novamente pelo seu nariz e você fecha os olhos, vem uma história de vida que me faz encher os olhos d’água, voltar no tempo e quase poder tocar o que a lembrança escancara, depois daquela cutucada em algum ponto guardado ali na memória. Até as pessoas parecem estar ali, do seu lado.

E, de tanto cheiros que me fazem sentir essas emoções, um deles é o cheiro de lavanda que, quando me conquistou, era apenas dentro de um frasco de vidro. Meu pai usava todos os dias pela manhã. Minha mãe também. Esse perfume de lavanda sempre se misturava a um cheiro de café fresco e me remetia, ainda criança, ao sábado de manhã, quando da primeira florada da jabuticabeira. Definido, então, que a lavanda era o meu cheiro preferido, cresci procurando todas as variações da planta. E foi em Paris que conheci uma touceira de lavanda, ao vivo e a cores, e pude me esfregar nela para sentir o perfume que ela exala quando tocada. 

Corri o mundo. Conheci lugares, pessoas, sabores e muitos cheiros. E dentre esses cheiros, mais lavanda. No sul da França, conheci uma lavanda com cheiro de... de vida! Comprei uns quatros frascos para não me esquecer mais. Em outra viagem, conheci um boticário, em Firenze, na Toscana italiana, que fabricava perfumes a partir do seu cheiro preferido. Adivinha? Claro, pedi um perfume de lavanda e a surpresa foi maior do que o esperado. Quando senti o cheiro do perfume já no vidro, depois de todas as misturas feitas, era exatamente o cheiro da lavanda que meu pai usava, mais de 30 anos atrás. Meus olhos marejaram quando fechei os olhos e voltei no tempo.

Esta semana fui convidado para o lançamento da fragrância Eau de Leonora, criada por uma das mulheres que mais admiro pela fineza, elegância, inteligência, simplicidade, firmeza, simpatia, beleza... e um monte de adjetivos que poderia passar horas escrevendo. Leonora Rocha Lima Nogueira conseguiu colocar em frascos mais que um líquido perfumado de lavanda. Ele garimpou no fundo da alma as emoções e as lembranças e fez com que tudo viesse à tona. Hoje, quando passei na loja para adquirir um frasco – faço isso com tudo o que tem cheiro de lavanda – senti-o na pele e fechei os olhos. Foi como ser sugado para uma dimensão diferente. Fui, novamente, jogado num passado que eu não me lembrava mais.

Veio aquela mistura de aconchego, de cama limpa, de banho quente depois de um dia de cansaço, de abraço de pai e mãe, de fim de tarde em casa com bolo saindo do forno. Revi uma vida que ficou na lembrança, apenas. E que lembrança! Leonora conseguiu colocar nos frascos muito mais que um líquido cheiroso. Ela colocou emoções, ela colocou o passado, a saudade, a felicidade... Ela conseguiu ser fiel à lavanda, que veio cheia de frescor, de energia – e calmaria, quando se quer! Ele colocou no frasco a lavanda arteira e cheia de nuances, conforme a pele respira. Ganhei mais um frasco de emoções e mais um pedaço da vida que havia ficado perdia no tempo e em algum lugar aqui dentro. Hoje tudo isso despertou, veio à tona e trouxe a emoção junto. Obrigado por me permitir isso novamente.

Para Leonora Rocha Lima Nogueira, que me fez reviver emoções.



sábado, 9 de agosto de 2014

O perigoso – a história do chuchu antes do voo


 Nada de viagens longas, de amuar na casa de desconhecidos – e pouco, na casa de conhecidos –, nada de malas que ultrapassassem o tamanho suficiente para duas calças, cinco camisas, lenços, meias e cuecas... Mesmo sendo uma das companhias mais agradáveis em quaisquer circunstâncias, meu pai sempre foi muito caseiro. Gostava de receber, de casa cheia, de movimentação. Mas havia lugares e datas sagradas para receber a visita dele. E, claro, aonde chegava conquistava seus espaços. Um deles era a cozinha.

Falar que papai cozinhava bem é chover no molhado. Isso todo mundo já sabe. Até quem não o conheceu. E, acima de tudo, não usava mais que uma meia dúzia de ingredientes e muita, mas muita simplicidade, como em tudo que fazia e no jeito de viver. Papai gostava de arroz moreno, feito na mesma panela que fitara a carne ou a linguiça. Gostava de farofa de pimenta godê, de abobrinha batida, de molho de quiabo com jiló – que ele nomeou de “molho verde” –, e de chuchu. E como gostava de chuchu. Da forma mais simples: alho, sal, pimenta, água e chuchu. Só! Uma comida das mais inocentes e, ouso dizer, mais sem sentido. Chuchu é o quarto estágio da água. Mas quem comia o chuchu que papai fazia, jamais olharia para o vegetal novamente com o mesmo olhar.

Pois bem... Numa das poucas viagens que meu pai fez que não fosse para Bahia – segunda terra-natal dele por escolha própria – a cozinha também foi um dos cantos mais frequentados da casa dos sobrinhos-compadres, Lena e Tadeu, em Vitória, no Espírito Santo. Durante a temporada, muita comilança, como não poderia deixar de ser. Comida baiana – já que a casa era de baiana –, muita moqueca, frutos do mar, cerveja... Uma infinidade de comidas, diríamos, de peso. De muito peso. O que, sem novidade, agravaria a função do fígado e faria com que todos, depois de uns dias, passassem a uma dieta mais leve. Papai nas rédeas do fogão não permitia isso.

No dia da volta para casa, papai acordou cedo e se enveredou na cozinha. Lembrando que os ânimos e a digestão ainda estavam prejudicados e, levando em consideração que passaríamos metade do dia em voos e aeroportos, era melhor preparar algo leve. Eis que surge o chuchu, mas numa versão “hard”, com muita pimenta. Foi aí que papai e todas as outras pessoas que conheciam a história passaram a chamar o chuchu de “perigoso”, numa clara evidência de contrassenso, depois de passar dias de enfarando de verdadeiras bombas em forma de comida. Riram todos, de soluçar, quando ele apresentou o prato de chuchu e disse: “Tenho medo de comer isso, já que vamos voar. Mas comeremos com calma porque isso aqui é perigoso!”.


Pelo chuchu, pelas viagens, pela simplicidade e pelas conquistas... Feliz Dia dos Pais ao meu pai! 

domingo, 27 de julho de 2014

O cozinheiro da Condessa F.


Para que Condessa F. receba todas as quintas-feiras, o trabalho do cozinheiro, um dos personagens principais desses dias tumultuadamente deliciosos, deve começar muito antes de os primeiros convivas chegarem. Aliás, as atividades para a realização do pequeno banquete, escolhido a dedo para cada um, da próxima quinta começam assim que o último convidado desta quinta-feira deixe o salão, com uma flûte de espumante nos dedos, rindo das cócegas que o perlage faz em seu nariz e trocando as pernas enquanto atravessa o portão, revelando uma silhueta engraçada, desenhada na contraluz pelos últimos raios de sol do fim do dia.

Enquanto a governanta dava as ordens aos serviçais para colocar o salão nos trinques, Condessa F. já estava recolhida aos aposentos, imersa numa banheira vitoriana com sais, flor de laranjeira e alecrim, com uma máscara de creme de pepino escondendo a pele alva da face. Era nessa hora que a mente do mago das caçarolas começava a fervilhar. Sentado à frente da lareira da sala principal, com taça de bourgogne na mão esquerda e um cachimbo de ervas cuidadosamente selecionadas – as mesmas que ele usava na alquimia dos pratos, sejamos claros! – na mão direita, ele começava a compor a base para o cardápio da próxima quinta-feira.

Às 11 da noite, Condessa F. descia a escadaria, envolvida em um hobby de seda branco estampado com flores de cerejeira, deliciosamente perfumada. Passava pelo cozinheiro com um sorriso faceiro e tomava-lha a taça, forçando-o a se levantar para pegar a garrafa e preparar uma nova carga de ervas – aquelas mesmas da horta, usadas nos pratos, lembremos! – para o cachimbo. Depois de tragar a primeira taça em silêncio ela iniciava a descrição dos convivas que estariam na recepção da próxima quinta. Era o que o cozinheiro precisava para criar a alquimia certa para satisfazer o paladar e os desejos escusos dos covidados e garantir que o trabalho de alcoviteira e casamenteira de Condessa F. não fosse em vão.

“Pimenta, noz-moscada, cardamomo e canela”, pensava o cozinheiro em voz alta, diante da sugestão de Condessa F. de convidar duas novas moçoilas para a próxima quinta. Com relação àquela senhora mal-humorada que sempre reclamava do encosto da cadeira, que cansava sua lombar, o cozinheiro resolveu ousar e pensou em codornas recheadas com farofa de erva-doce e molho de chocolate apimentado. Aos barões da cana-de-açúcar – herdeiros de um latifundiário que exportava o produto para regiões da Europa – o alquimista serviria bebidas a base de anis e mel, com toques de menta para refrescar o hálito. Os irmãos eram os mais cortejados e Condessa F. fazia questão de empurrá-los para uma jovem senhora qualquer.

Sem qualquer sacrifício, o cozinheiro ia criando os pratos, um a um, conforme a condessa sugeria os convidados. Pensou nas entradas e nos petit fours, a base de muita castanha e geleias. Então, viriam os chás e os drinques coloridos, com misturas inimagináveis de bebidas que fariam com que os convivas se soltassem ao ponto de ceder aos encantos que Condessa F. criava para enaltecer um e outro. A essa altura, todos estariam inebriados e propensos aos romances.

Depois seriam servidos os pratos quentes. Massas preparadas com manjericão, tomates frescos e queijos variados. Faisões assados inteiros, perfumados com molho de framboesas frescas e acompanhados de farofa de tâmaras e cebolas anãs caramelizadas. Risoto de arroz negro cozido em vinho e finalizado com azeite trufado e pimentas vermelhas salpicadas. Cada prato teria sua função, diríamos, aceleradora das atitudes de Condessa F. para com a formação dos casais, que também “vivia um pouco dos amores alheios”, como fazia questão de frisar aos mais chegados, depois de umas taças de espumante. As receitas fortuitas alcançariam os sentimentos mais íntimos dos novos estranhos apresentados a cada quinta.

As sobremesas – ah, as sobremesas! – essas dispensariam um tempo maior, para um trabalho mais elaborado. As frutas e os cremes, os chocolates, as ervas picantes e as pimentas lambuzadas em mel seriam degustados com licores finos e mais espumantes, porque o perlage era o que fazia as mulheres rirem. Isso atraía os homens e deixava Condessa F. em êxtase.

E quando mais uma quinta-feira terminasse os convivas novamente cruzariam o portão do salão, alguns solitários como chegaram, outros inebriados pelo álcool de mãos dadas, numa clara evidência de que o trabalho de aproximação, deliciosamente concebido pela condessa, tinha surtido efeito. Então, a anfitriã pegaria mais uma garrafa de espumante, subiria os degraus até o quarto, se despiria vagarosamente, pensando nos resultados que aquela quinta poderia render e mergulharia o corpo cansado na mesma banheira. Logo, ela desceria as escadas, perfumada e faceira, vestindo um hobby de seda vermelho, tomaria a taça de vinho das mãos do cozinheiro e iniciariam mais um cardápio para a próxima quinta. 

Leia também, para entender melhor, 
http://www.aredacao.com.br/colunas/46329/cassia-fernandes/condessa-f-recebe-as-quintas


Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo e escreve o blog: http://odonodotempo.blogspot.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Sangue nos olhos e fel nas veias


Um belo dia abro a minha caixa de correio e encontro uma correspondência do DETRAN-GO. “Olha, que coisa mais simpática! Meu Departamento de Trânsito me enviando correspondência!”, pensei. Não. Não era! Eram dois boletos para pagamento parcelado do meu IPVA, licenciamento e todos esses impostos adoráveis que nós brasileiros pagamos. “Que bom. Será mais fácil quitar o tributo. Mas onde está a terceira parcela?”, questionei. Bem, fiquei sabendo mais tarde que a terceira parcela chegaria para mim, também como correspondência, quando as duas primeiras fossem pagas. Olha só que coisa bem feita. De primeiro mundo!

Duas parcelas pagas e eis que recebo a terceira. Estava lá na minha caixa de correios como da primeira vez. Fiquei emocionado com a presteza do DETRAN-GO. Daí bateu a dúvida: como eu deveria fazer para pegar o meu documento, depois que pagasse a terceira parcela? Fui atrás e fiquei sabendo que eu receberia o documento também pelos Correios. Que emoção, gente! Mas o último atendente me alertou: “É preciso que haja alguém em casa para receber o documento!”. Pára tudo! Quer dizer que quem mora só e trabalha o dia todo não pode receber o documento em casa? Como é isso? Uma nuvem começou a se formar e voltei ao telefone à procura de informações. Após ligar quatro vezes para o número 154 – onde a certeza não impera nem sobre a questão de fome e sede de cada um dos atendentes – tentei mais uns oito números. Cada um que atendia me deixava, em média, 10 minutos esperando para tentar encontrar a resposta. Mas ninguém soube me dizer como eu deveria agir.

Finalmente a resposta veio depois que procureioutras pessoas que trabalham no órgão e se condoeram com a minha preocupação. Era assim: eu deveria desconsiderar o boleto para pagamento da terceira parcela que havia recebido em casa e retirar outro através do site do DETRAN-GO. Assim, segundo as informações, eu pagaria a última parcela na Caixa Econômica Federal (CEF), que fica dentro do Vapt-Vupt e já pegaria meu documento. Ufa! Fui lá e o fiz.

Dia 15. Vencimento do tal documento. Aproveito o horário de almoço para resolver as pendências. Como não sou cliente da CEF, enfrento uma fila no meu banco para sacar o valor em dinheiro, contadinho da Silva, inclusive os 56 centavos em moedas, e rumo para o Vapt-Vupt onde pagaria, já pegaria meu documento, voltaria ao trabalho e todos ficariam felizes para sempre, até o próximo ano. Vã ilusão!

12h53 entro na fila. “O sistema está fora do ar!”, grita a mulher de uniforma azul lá na frente. Paciência. É a única hora que tenho. Vamos esperar. 13h15. O sistema volta a funcionar. Chega a minha vez. “Senhora, preciso de uma senha para o banco também ou apenas para pegar o documento no DETRAN depois que eu pagá-lo?”. Ela me olhou, olhou para o documento, me fitou nos olhos e disse: “Com esse boleto retirado no site, você só vai poder pegar o seu documento em três dias!”. Meus olhos se encheram de sangue. Meu coração disparou. Senti um amargo nunca dantes provado invadir minha boca. Contei até um milhão em menos de cinco segundos. Respirei. Acima de mulher, num cartaz, lia-se algo do tipo: desacatar funcionário público em sua função poderia ser pior!


Respirei de novo. Profundamente, desta vez. “E como eu devo fazer, senhora, para que eu pegue o meu documento hoje e não precise voltar aqui e enfrentar tudo isso de novo?”, perguntei. Pelo que ela me disse, eu teria de pegar uma senha, esperar ser chamado, retirar um outro boleto – que vi, era exatamente igual ao que eu tinha nas mãos –, ir até a agência bancária, pagar, voltar, pegar mais uma senha, esperar ser chamado e, finalmente, depois de findado o dia e a paciência, estaria de posse do meu documento. Não acreditei. Mas peguei a tal senha. Número 231. O visor chamava a de número 190. 40 minutos depois, resolvi ir ao banco pagar o que eu tinha na mão e voltar no fim da semana, de posse de um pouco mais de paciência. A senha chamada ainda era a 214. Banco fechado. Me encaminharam para uma casa lotérica. Documento pago. Agora é aguardar a sexta-feira chegar e enfrentar, mais uma vez, os serviços mal oferecidos do DETRAN-GO, com sangue nos olhos e fel nas veias. E sorrindo ou ainda posso ser preso por desacato.