terça-feira, 5 de janeiro de 2016

O pós-vida: encarando as trevas

Foram dias e noites de esbórnia extrema. Cafés da manhã demorados, almoços com amigos, amigas e agregados, outro almoço com a família que você não via desde o Natal passado, lanches e cafés da tarde que deixariam os ingleses com inveja escura da quantidade de cafeína no seu sangue... E os jantares? Ah! Os jantares. A grande maioria das confraternizações - palavrinha fila da puta! - é feita em jantares. E são várias. Algumas se chocam em data e horário e você é obrigado a frequentar pelo bom relacionamento durante todo o ano. Quem se confraternizou, muitas vezes nem sabe seu nome ou quem é você! Mas é fim de ano, tem comida e bebida de graça... Já viu, né?

Aí você passa o mês de dezembro inteiro numa maratona de ingestão de comidas de todas as procedências e bebidas idem. Ingere uma quantidade de calorias absurda, todas pesadas que, em dias normais, daria pra se alimentar um mês, e como coisas que são vistas apenas no fim de ano. E parece mágica. Assim que o dia primeiro de janeiro acaba essas coisas também somem. Os sorrisos que você recebia até do porteiro mal humorado do prédio da frente também se evaporam como as comidas, depois do primeiro dia do ano. A vida começa a entrar nos eixos de novo. A vida começa a ser dura de novo. Nessa dureza depois do primeiro dia do ano está o que há de mais drástico, dramático, odioso, depressivo, porém necessário: a academia!

Acordar na primeira segunda-feira já é suficientemente depressivo para acionar um Rivotril. Mas, cabeça boa que somos, levantamos felizes, tomamos uma caneca de café - na esperança de que ela mude seu humor - e vamos para o trabalho feliz da vida. Quer dizer, médio! Enquanto se trabalha a imagem daquele tanto de pesos e barras de ferro ficam martelando na sua cabeça, com o perdão do trocadilho. Meio-dia. Não há mais como fugir. Rumo à academia.

No caminho a gente tenta de tudo. Liga pra 200 amigos pra saber se não precisa de ajuda, procura a Associação dos Animais Abandonados pra saber se há animal a ser procurado, liga pra sua tia pra saber se ela não quer que você a acompanhe naquela costureira lá no fim do mundo... Chega-se ao matadouro! Um local com um monte de aparelhos de ferro cercados por espelhos - o que me incomoda pacas, já que desde o início de dezembro só uso o espelho do carro para pentear cabelo. Não quero ver meu corpo.

Com um sorriso descomunal e desnecessário, o personal olha pra você e, todo entusiasmado, pergunta como está. "Com ódio!", respondo. E continua: "Qual foi a última ficha que fez?". Ah... Vá se ferrar! Não sei nem quantas garrafas de vinho tomei ontem, ONTEM, e ele quer saber qual foi a última ficha que executei na semana passada, antes do Réveillon! Sem chance. Peço para ele fazer outra e parar de se fazer de feliz porque tá me irritando.

Primeiro exercício: sensação de morte súbita na segunda execução. Dou uma volta, olho as árvores através dos vidros e retorno ao sacrifício. Mais uma série é meu coração bate um "plá" com o fígado. Os dois parecem se desentender. Desisto da série e vou para o segundo exercício.

Segundo exercício: ainda sorrindo - não imagino o motivo que os profissionais de academia sorriem tanto - o personal chega até mim e me prepara: "serão dois em um, agora". Em espanto, olhos os olhos dele e, com sarcasmo, sugiro: "por que não fazemos todos logo de uma vez? Saio daqui pro hospital e não precisarei aparecer aqui até o fim do carnaval".

Terceiro exercício (que, na verdade, é o quarto): pernas em boicote. Respiro. Tento de novo. O FDP do personal me encara e diz sorrindo: "Força!". Tenho antipatia de gente empolgada! Executo a série na certeza de que nunca mais serei o mesmo.

Quarto e quinto exercícios: apesar de saber que já viramos o ano, começo a ver luzes piscando e pergunto se já estão preparando as luzes pisca-pisca para o Natal deste ano. Mas era apenas um pré-desmaio. Água e descanso e...

Sexto exercício: olhei pro personal e fui incisivo: "Alguém tá te pagando pra tentar me extinguir do planeta?". Ele ri. Eu tento erguer um braço, mas prefiro guardar forças. Ou inquérito sobrou dela.


Sétim... "CHEGA!", Gritei. "Não faço nem adedonha mais hoje. Cê besta! Já tem quase 40 minutos que tô aqui morrendo...". Ele sorri, de novo, me irrita mais uma vez, e pede para que eu vá para a esteira. "Meiorinha de corrida leve!". Faço 15 minutos andando e pronto.

Chega! Vou embora, afinal faltam apenas quatro segundas-feiras para o carnaval, que é quando a gente se permite de novo! Axé.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Novas instalações


Toda vez que tento instalar um programa no meu PC, o Windows pergunta, usando um toque sonoro de piano, todo sombrio: "Você tem certeza (é tipo um: olha lá, hein? Se o negócio fudê com a sua máquina o problema é teu, que aceitou!, sabe?) e permite as modificações que sertão feitas neste computador?”. Daí eu fico uma hora lendo e tentando entender o que esta máquina quis dizer com “você tem certeza?”. Eu sinto como se eu estivesse sendo julgado por um tribunal pelos piores crimes já conhecidos.

Essa mensagem é como as trombetas do apocalipse soando no seu ouvido. É possível houver até a risada debochada do cara que criou essa mensagem falando: “Vai, seu idiota, você entende muuuuuuito de computador... Aceita, vai. E fode com a sua máquina! Hauheauhaeuhuae (é uma risada sinistra) Mas se você não aceitar você também não terá o que você precisa”. Com isso ele já tira o dele da reta e coloca o meu. E a revolta me bate quando me vejo refém desse povo. Te falá, viu?

Aí você pensa: “Ok! Eu tenho que decidir, certeza, se eu permito as tais modificações (?) no meu computador. Mas que modificações são estas?”. Começo a passar pelo processo de desespero. Me sinto vigiado. É como se um dispositivo interno esperasse apenas eu aceitar as tais modificações para instalar algo que eu jamais teria a mínima noção do que seria. “E se isso modificasse a minha máquina para pior? E se o PC, que já não era lá um supersônico – longe disso! Anos-luz, diria eu! – virasse uma carroça de ré? E se... E se... Você vai fazer isso com você?”.

Me atenho que sinto sede. Saio de frente da tela do computador e me dirijo até a geladeira. Abro-a e começo a imaginar se aceito ou não as modificações. “Água com gás ou suco?”, pergunto para mim mesmo, desejando não ter me questionado sobre a bebida para que não me tolhesse parte dos pensamentos, já que precisaria de todos eles para focar na decisão de aceitar ou não as modificações que serão feitas no meu computador, caso as aceite. Bebo água!

Volto para a mensagem escrita, gritando na minha cara e jogando toda a responsabilidade daquela decisão apenas a mim. Única e exclusivamente minha. Tanto a decisão quanto a responsabilidade pelas tais mudanças. Mas quais são elas, gente? Desespera. Sufoca. São nesses momentos que exercitamos fé e paciência. Eu paro pra pensar, só um instante: “O que é mesmo que eu estou baixando?”. Desligo o computador e abro um vinho.

Este sou eu. Rimene Amaral

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Uma experiência adjetivada


Não é todo mundo que sabe apreciar um bom vinho e reconhecer suas nuances. Muito menos, quem sabe conceituar um vinho, pelo seu sabor, usando de outros sentidos ou de predicados e adjetivos que são comuns às pessoas. Pois bem. Me atrevi!

Depois de um dia de muito trabalho, cheguei em casa e, na sequência, minha amiga Andréa Reges manda-me uma mensagem para a confirmação da rua que moro. Chegava ela, alguns minutos depois, munida de um bolo-de-rolo inigualável – que congelei e comi com café quente no dia seguinte – e uma garrafa de vinho, enviada gentilmente pela admirável Sandra Vaucel, da Casa do Vinho Francês – com um cartão fino, selado com cera, como somente as pessoas de alma nobre o fazem. Sorri de orelha a orelha. Minha árdua tarefa aquela noite era tomar o vinho e dar o meu parecer com relação a ele, um francês de uma das mais suntuosas castas.

Já imaginando que a noite seria de uma degustação quase orgásmica, subi apressadamente para deixar o vinho respirando na adega, enquanto mantinha o ambiente do quarto a 16 graus centígrados. Estávamos naqueles dias de calor intenso, senegalês, eu diria, mas não poderia deixar a tarefa de provar e falar sobre as minhas impressões. Missão que foi abortada antes mesmo de eu levar o vinho para resfriar. O interfone tocou e as visitas privaram-me de seguir adiante com o ritual. Desculpe-me, mas precisei ser egoísta.

Dias depois, com a certeza da solidão inócua, comecei o ritual um tanto mais cedo. Assim que o sol se pôs, a temperatura do ambiente foi acertada para os mesmos 16 graus. Preparei algumas frutas secas, castanhas e pães. Tudo pronto. Vinho resfriado. Banho tomado. Perfume acertado... lá fui eu para a labuta!

Confesso – e disso não tenho medo, já que a confissão, além de demonstração de nobreza, é auxílio da sapiência – que até três anos atrás meu paladar não se dava muito bem com os vinhos franceses. Que os conterrâneos de Napoleão não me escutem, mas achava-os um tanto “sem-graça”, meio aguados ou fracos, já que meu paladar carecia de algo mais robusto, como é o caso dos vinhos portugueses, espanhóis e chilenos. Fiquei com esse palpite até que fiz uma pequena incursão pelo vinho francês, numa viagem a Bordeaux. Claro, minhas impressões caíram por terra e passei a administrar meu paladar para os vinhos franceses. Uma grata surpresa!

Voltando ao presente de Sandra, segui a regra da boa degustação. Abri o vinho, deixei-o respirar por poucos minutos, já que era um vinho fino, leve... Três dedos abaixo da metade da taça preenchidos. Uma olhada contra a luz. O bouquet entrando pelas vias nasais e, finalmente, o paladar. Deixei o líquido preencher todo o espaço da minha boca e abraçar todas as minhas papilas. Até mesmo as que eu não sabia que existiam. Engoli e o retrogosto confirmou as minhas impressões.

Pois bem. De olhos fechado quase viajei com a sensação que tive. Ainda com os pés no chão, pude ir longe. E consegui pensar na descrição mais certa para a bebida. Da forma mais honesta que eu poderia tê-la feito. Eu consegui – assim espero! – descrever o vinho com as mesmas sensações que usamos para descrever gente. Conceituei-o com os mesmos adjetivos e predicados usados para conceituar pessoas que conhecemos. A primeira impressão foi a de elegância. Um vinho que começa tímido, com sabor leve e, aos poucos, vai tomando conta de tudo e, como um tsunami, invade o paladar e mostra sua força. Mas nada que cause qualquer constrangimento. É um vinho fino, que não agride o paladar, mas sabe – perdoe-me a expressão – “chegar chegando”. É elegante porque, apensar de leve, tem um tanino não muito curto e um toque frutado e refrescante, apesar de aquecer o corpo e a alma. E o melhor, o bouquet permanece durante toda a degustação.


Há quem diga que é frescura. Pode ser, principalmente, para quem não tem o costume ou nunca se deixou ser tocado pelas papilas lá detrás da língua, pelo tanino de uma boa casta. Portanto, antes de qualquer julgamento, afine seu paladar para o seu tipo de vinho e permita-se, antes de qualquer coisa, se deixar levar pelas qualidades, predicados e adjetivos que uma uva pode lhe apresentar quando o seu líquido começa a entrar pelo seu corpo. Poético, né? Mais ainda: prazeroso! Tim-tim... 

domingo, 9 de agosto de 2015

Dia dos Pais: O cachorro do vizinho


Poucas vezes na vida vi meu pai se levantar depois que o sol estivesse em riste. “Dormir é perder tempo”, dizia ele que acordava pela manhã fazendo barulho. Era para movimentar a casa e acordar quem ainda desejava ficar na cama até mais tarde. Era vontade de interagir, de ver gente circulando pelos cômodos. Era vontade de dividir o café e o pão de queijo com molho tártaro – que ele mesmo fazia questão de fazer. Papai não era pessoa solitária. Gostava de fazer tudo rodeado de gente.

E foi justamente por essa mania de acordar cedo, antes mesmo do sol, que ele era chamado para as tarefas da madrugada, quando era tempo de festa da cidade, em Nova Veneza. Virou coordenador da alvorada, do foguetório que abalava a as redondezas às cinco da madrugada, junto aos sinos e às músicas da igreja. Não que fosse devoto contumaz, mas porque gostava de acordar cedo. Então, quando o mês de julho chegava ele tinha trabalho antes do próprio ofício.

Por volta das quatro e pouco da manhã, com um frio que parecia cortar a face, ele se levantava e preparava o café, enquanto o pão de queijo assava. Num desses dias de festa, os primeiros fogos já pipocavam no céu da cidade, sob o comando dado por ele no dia anterior. Ao abrir a porta da área, que dava para o pequeno quintal que tínhamos em casa, ele foi surpreendido por um cachorro assutado com o barulho dos foguetes. O vira-latas era do vizinho e entrava em pânico quando ouvia os estouros. O cachorro passou pelo meio das pernas dele, foi direto para o quarto e se alojou atrás do guarda-roupas. Acordei ouvindo um “sai, cachorro” meio abafado. Achei que estivesse sonhando. Mas a insistência me fez levantar para ver do que se tratava.

Quando entrei no quarto dele a cena que vi era algo surreal. Papai ajoelhado no chão, com uma vara de pescar na mão, cutucava o cachorro, que permanecia imóvel e amedrontado atrás do guarda-roupas. Quando os fogos começaram, de vez, o cachorro começou a uivar, tamanho era o pânico do animal. Papai, aparentemente irritado, arrastou o móvel e o cachorro, encantuado, não ofereceu resistência. Puxou-o pela coleira até o quintal, juntou as forças que lhe restavam, pegou o cão e o colocou pra fora, encorajando-o a voltar para o quintal do vizinho por uma abertura no muro.

Missão cumprida! Ou quase. O animal parecia feito de mola. Quando chegou do outro lado e meu pai virou as costas, o cão saltou o muro novamente pro lado de cá. Ludibriou papai e entrou em casa, mais uma vez. Não era para se achar graça, mas eu ria escondido para não deixá-lo nervoso. Papai foi até o quarto da bagunça – todo mundo tem num em casa – e pegou uma corda, fez uma laço e conseguiu, em fim, imobilizar o animal. Desta vez, saiu pelo portão da rua com o cão, que sumiu na imensidão escura, uivando como se fosse louco, tamanho era o pavor. A esta altura, o sol já avermelhava o céu e papai deixou de lado a alvorada daquele dia para tomar um banho que esfriasse a cabeça e tirasse o cheiro do bicho.

E como hoje as alvoradas, para mim, não têm mais a mesma importância, acredito que de onde estiver estará sorrindo. E os fogos hoje são exclusivamente para ele. Feliz Dia dos Pais, onde estiver!

terça-feira, 14 de julho de 2015

Num Estado laico, obrigatoriedade da Bíblia nas escolas é insanidade


Quando eu era criança, lembro-me de acordar cedo aos domingos para acompanhar minha mãe à missa. Criado assim, dentro do cristianismo católico, passei por todos os processos que a igreja prega: batismo, primeira comunhão, crisma... Na mesma época, estudava em escola pública e lia os poucos livros que a biblioteca, também pública, oferecia. Em nenhuma das instituições fui obrigado a ler a Bíblia. Não que não seja um livro importante, interessante e de cunho também histórico. Apenas não me obrigaram. Estudei, cresci e me formei. Formei também uma consciência crítica do que, para mim, é certo ou errado. Disso tudo me sobrou a ideia que obrigação é uma necessidade imposta pela falta de educação. O que não foi o meu caso.

O Brasil precisa de educação e isso ninguém contesta. Somente assim, o brasileiro saberá escolher bem seus representantes, aqueles que se proponham a lutar em benefício da sua cidade, Estado, país e, principalmente, em benefício dos cidadãos. Não precisamos de políticos que, assim como os fundamentalistas e os de tolerância duvidosa ou forjada, tentam empurrar garganta abaixo de uma sociedade carente de estudos básicos a imposição da sua fé e da sua crença. Pessoas assim ignoram completamente a fé alheia e comungam dos ideais intolerantes que movem, de uma forma ou de outra, uma violência desenfreada mundo afora.

Cada um segue a fé a qual lhe faz bem, lhe traga paz e sanidade mental. Cada um escolhe o seu livro, seja o Alcorão, a Bíblia, o Zend Avesta, o Mahabharata, o Tripitaka ou os segmentos de Sidarta Gautama. Não me venha querer impor qualquer crença que seja sem saber se “eu” quero segui-la. Isso não é democracia. É como se, por exemplo, colocassem os filhos de uma família evangélica para estudar numa escola muçulmana e os obrigassem a seguir o que dita o Alcorão. Ou jogassem um bramanista numa escola espírita e o obrigasse a entender – e crer! – nas mesas girantes, estudadas por Kardec, no início da codificação do espiritismo. Não é assim que funciona. Não se enfia ideologia na cabeça de alguém pelo mero prazer de difundir a própria crença. Quem sabe o que é melhor para “mim” sou eu.

Onde fica a individualidade do cidadão? É sufocada pelo preconceito arraigado que desmantela um sistema laico! Isso é, a meu ver, um afronta ao cidadão e ao uso do espaço público, mantido por meio dos impostos pesados pagos pelo cidadão, para difundir interesses próprios ou de uma minoria intolerante que não enxerga o indivíduo como um ser múltiplo e com vontades e desígnios únicos. Parlamentares que passam o tempo de trabalho, também pago pelo cidadão, arquitetando projetos de aceitação duvidosa e de cunho altamente discriminatório, servem apenas para fomentar o ódio e a intolerância ao diferente. Esse tipo de iniciativa nunca vai gerar qualquer tipo de benefício intelectual ou moral.

O que deveria haver – e aqui dou meus préstimos com ideias de bons projetos de lei – era a preocupação com a leitura obrigatória diária do Código Nacional de Trânsito, em todas as escolas, para tentar melhorar o caos e falta de educação com a qual nos deparamos diariamente nas ruas, como se estivéssemos em uma selva sem leis. Deveriam apresentar projeto de lei para ensinar educação financeira nas escolas e fazer com que crianças começassem cedo a pensar no futuro e não depender de políticos que se aproveitam da boa vontade de tanta gente humilde para fazer a carreira. Deveriam obrigar, por meio de projetos, o respeito a todas as diferenças, sejam elas religiosas, sociais, sexuais, raciais... Deveriam pregar, sim, a tolerância e a igualdade. Para os fundamentalistas religiosos, uma pergunta: Não foi isso que o Cristo pregou?

A leitura da Bíblia é de grande valia. Para muitos, essencial para se viver em acordo com a sociedade, com o mundo e consigo mesmo. Vale e muito! Mas daí a obrigar a todas as pessoas, diferentes ou ignorantes a um tipo de crença, a praticar os ideais religiosos avessos aos seus, isso é, no mínimo, insano. E onde está a suma que o Brasil é um Estado laico? Isso já foi esquecido? Jogaram isso na lama também, junto com a intolerância e o respeito ao próximo? Penso que é obrigação das autoridades resgatar esse princípio. Quando os ideais cristãos, os quais alguns insistem em dizer que seguem e comungam, forem respeitados – igualdade, tolerância, caridade e o amor ao próximo –, aí sim, quem sabe, esse tipo de obrigatoriedade deixará de ser necessário.


Rimene Amaral é jornalista

http://www.aredacao.com.br/artigos/59923/num-estado-laico-obrigatoriedade-da-biblia-nas-escolas-e-insanidade

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Treinamento funcional – uma semana depois


Depois de dez dias passados do meu primeiro treino funcional, o sol voltou a brilhar novamente. Um pouco ofuscado, é certo, mas há luz. Nesses dez dias, conheci mais meu corpo e aprendi que os músculos gritam sempre que são estimulados. Gritam tanto que parecem estar dilacerados. Consequência: dor! E são aqueles mesmos músculos com quem você conversava a vida inteira e não sabia que havia variantes deles que podem – e vão! – doer muito mais.

O treino funcional parece inocente, mas não é. Treino funcional é cruel! É como se seu corpo fosse acordado de um sono profundo e jogado na capoeira com três leões famintos correndo atrás de você. Músculos, mente e respiração parecem chegar ao limite. E chegam! Há dias em que o estômago revira por horas devido à quantidade de ácido lático circulando pelo corpo, depois das fissuras musculares.

Na segunda semana, comecei a compreender que, sim, definitivamente, eu odeio qualquer tipo de exercício físico que fuja do trivial garfo-faca-copo em levantamento. Com ou sem aparelho, exercício é algo que massacra. Mas como não sou mais adolescente e a vida fica cada dia mais cheia de nove horas por conta da tecnologia, exercício físico continua sendo fundamental para manter a saúde da mente e do corpo (depois que o corpo se curar dos exercícios). Nessa segunda semana, também percebi que, apesar do sofrimento, o tempo é o melhor amigo – e também pode ser o pior inimigo. Amigo porque só com ele as dores passam. Inimigo porque se ele passar do ponto as dores voltam pra matar.

Então, já que é preciso movimentar para que os músculos e a saúde não atrofiem, vamos aos exercícios funcionais. Dizem que um dia – o engraçado é que ninguém especifica quando. E conheço gente que já está lá faz anos e ainda sentem – as dores passam. Enquanto isso não acontece, sigo com medo, pavor e receio da sala de torturas medievais. Mas é necessário.


Ah!, essa semana, Matador, meu instrutor, disse que vai me fazer gostar de exercício. Me contorci de rir, claro! Foi a série de abdominal do dia! Mas pensa comigo: tem que fazer, vamos fazer aquilo que menos nos maltrata. Ontem corri amarrado. Sim! Você corre com um elástico amarrado à sua cintura. Corre mas não sai do lugar. As panturrilhas amanheceram hoje como se fossem prato português: batatas ao murro. Desde que levantei, estou andando como pato manco com espinho no pé! Quando a vida sorrir pra mim de novo, volto e conto. Sigamos, pois. Adieu!

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A segunda aula de “Treino Funcional” – A redenção / Fênix


Hoje tive a segunda aula de treino funcional. O instrutor – que agora chamo de Matador, por razões óbvias! – me recebeu com uma cara meio estranha, achando que eu não fosse aparecer mais. Disse a ele que estava apenas esperando a ressurreição, já que pessoas mortas ou semimortas não se locomovem. Acho que ele não me levou a sério! Mas achou engraçado quando comparei o local das aulas do treino com uma câmara de tortura medieval. Disse até que ia contar para as pessoas e seres humanos.

Bem, tenho duas notícias. A primeira: sobrevivi! A segunda: sinto que o meu fim de semana está comprometido por conta das novas apresentações. É que hoje fiquei conhecendo um outro grupo de músculos que nunca, em tempo algum, alguém havia me falado sobre eles. E quer saber? Estão todos agitados, já que hoje Matador não deu trégua e me botou pra fazer exercícios “like tomorrow doesn’t exist”. Mas haverá! Nota: Matador já começou a usar uns pesos. Eu sabia que a coisa não seria simples assim...

A cama elástica, coisa que a gente vê como brincadeira de criança tem o poder de me enfrentar descaradamente. Ela olha pra mim e sei que ela está pensando: “Vem cá. Pula um pouquinho aqui. Dez minutinhos, só. Faço nada não!”. E quando você sai de cima daquilo, suas pernas encontram um chão que não se move e as pisadas têm o mesmo peso de quem pisa em Júpiter.

Durante o meu treino funcional, vi um rapaz (coitado!) subindo do chão, usando apenas os braços e puxando uma corda de navio amarrada ao teto e com os pés fixos em pneu de trator (?). O que era aquilo?! A pessoa vai precisar de ajuda para colocar o cinto de segurança do carro ou para comer, beber, dirigir e fazer qualquer tipo de movimento com os braços e as mãos. Tá louco!

Bem, apesar da tremedeira nos braços e nas pernas, com a apresentação dos novos músculos – que, dizem, serão meus amigos de agora em diante – o estômago já voltou ao normal. Meu sangue saiu da fase “Fábrica de queijos Gouda” para “Laticínios Piracanjuba”. Acho que agora vai. Se não for, fica. Sem promessas. Sem expectativas. Vamos acompanhar cada passo! Obrigado pela força, porque essa... já não a tenho mais.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Treino funcional

Sobre o treino funcional que fiz na segunda-feira, o primeiro da minha vida, alguns pontos notados e preciso revelar que:

1 – O local parece ser insalubre como qualquer outro campo de concentração.
2 – Os instrutores são tão cruéis quanto os soldados nazistas.
3 – Você não pega peso, mas o seu peso te faz entender o quanto suas pernas são fortes para te sustentar.
4 – Relaxante muscular e anti-inflamatório são gêneros de primeira necessidade da farmacinha de casa.
5 – As 10 horas seguintes ao treino são de extrema fraqueza, sensação idem à da que precede a morte, acredito!
6 – As 24 horas seguintes ao treino são de dores descritas como: apanhar de ripa, um caminhão passar por cima e dar ré, um elefante dançar cara-caramba-cara-caraô em cima do corpo, ser jogado de cima do Empire State Building sem qualquer amortecimento... e por aí vai! Você pensa que vai morrer.
7 – Nas 48 horas seguintes ao treino você tem a certeza de que respirar, piscar e engolir são tarefas que podem matar. A vida passa diante dos seus olhos quando se executa qualquer uma dessas atividades.
8 – Não se pensa em outra coisa que não uma cama e uma bolsa quente.
9 – Me fez repensar o sentido da vida e de qualquer exercício que não seja o de levar o garfo e o copo à boca...
10 – Tô pensando sério em rever os princípios que traduzem o bem viver e o sobreviver.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Não vou “comemorar”


Quando os cabelos brancos extrapolam as madeixas e invadem a barba pelas laterais do rosto, a vida passa a ter outros sentidos. Não damos mais tanta importância às notícias de vizinhos e colegas de trabalho. Os assuntos nas mesas de bar passam a ser projetos para o futuro. Amigos, aqueles verdadeiros, passam a ser parceiros dos nossos sonhos. E como sonhamos mais... Não apenas em ter mais dinheiro, mas em fazer algo que nos traga satisfação.  Eu mesmo era perdulário! Digo isso porque, na semana passada durante ‘aquela faxina’, consegui me desvencilhar de muita coisa que havia comprado e não tinha usado. Em alguns casos, nem me lembrava mais que tinha comprado. Qual não foi a minha surpresa em descobrir que tinha em casa um modelador de hambúrgueres, depois de ter ficado decepcionado, algum tempo atrás, por não ter conseguido comprar algo semelhante em um site de compras? Enfim, muda-se o foco.

Esta semana foi tranquila. Em outros tempos ela teria sido tensa, à procura de lugares especiais, comidas diferentes e bebidas idem que agradariam a uma legião de amigos por um prazo de quatro horas, não mais que isso, que duraria a comemoração do meu aniversário. Farei uma travessa de macarrão, com muito molho, para comer acompanhado de um vinho que não é todo dia que se bebe, ouvirei a música que quiser, no volume acima do normal, quantas vezes eu quiser. E, apesar de não estar em companhia de pessoas que gosto, não me sentirei só. Amizade a gente guarda para todo dia e não apenas para o dia das comemorações.

Vou aceitar todos os abraços, todas as felicitações e cumprimentos. E melhor ainda se vierem acompanhados de presentes. Aí, sim, a felicidade é completa. Mas não farei torta doce ou salgada, não estourarei espumante e não receberei em casa com salgadinhos de festa. Bem diferente dos aniversários de infância, quando minha tia passava o dia preparando um bolo – pão-de-ló com dois recheios: ameixa e abacaxi com doce de leite, coberto com glacê de claras – e, possivelmente, chorando no fim do dia por não ter conseguido fazer da forma como queria. É que, por causa do tempo chuvoso, o glacê não se sustentava em cima do bolo. Mesmo assim, tinha cantoria de parabéns, refrigerantes com gravatas e balas de coco embrulhadas em papel de seda colorido. Ficou a saudade.


Hoje farei do meu aniversário um dia de descanso. E farei somente aquilo que eu quiser fazer e comerei de tudo, sem me lembrar que um dia inventaram algo chamado “dieta”. Vou beber como se não houvesse amanhã – mas sei que haverá! – e me acabarei num prato de macarrão no fim do dia, depois de lanchar a terceira pamonha do ano, à moda, com pimenta e linguiça. Mas não vou me esquecer de ninguém. Apesar de o aniversário ser meu, são os meus amigos que sempre merecem os cumprimentos e meus eternos agradecimentos por estarem sempre ao meu lado, mesmo que no plano virtual. Parabéns a mim, obrigado a todos vocês.

Rimene Amaral, 07 de novembro de 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Emoções em frascos




O olfato é, sem dúvida, o meu sentido mais aguçado e desde que me entendo por gente os cheiros fazem parte da minha vida como se fossem uma marca. Minha memória olfativa é infalível, é emotiva, é forte e me faz sair de mim para lugares e tempos remotos. A primeira lembrança que me vem à mente quando se fala nessa tal memória é a primeira florada da jabuticabeira da casa do meu avô. Eu era acordado pela chuva fina e insistente que caía naquela manhã de sábado e, pela janela entreaberta, entrava um frescor com cheiro de flor de jabuticaba, misturada ao café fresco que mau pai fazia. Nada mais aconchegante. Nada mais calmante e nada mais inesquecível... Lá se vão algumas décadas.

O tempo seguiu seu curso e eu fui aperfeiçoando meu olfato, selecionando os cheiros mais importantes da minha vida e guardando em algum lugar, aqui dentro, que eu mesmo nem sabia que ainda estavam lá. E, de repente, quando um desses cheiros passa novamente pelo seu nariz e você fecha os olhos, vem uma história de vida que me faz encher os olhos d’água, voltar no tempo e quase poder tocar o que a lembrança escancara, depois daquela cutucada em algum ponto guardado ali na memória. Até as pessoas parecem estar ali, do seu lado.

E, de tanto cheiros que me fazem sentir essas emoções, um deles é o cheiro de lavanda que, quando me conquistou, era apenas dentro de um frasco de vidro. Meu pai usava todos os dias pela manhã. Minha mãe também. Esse perfume de lavanda sempre se misturava a um cheiro de café fresco e me remetia, ainda criança, ao sábado de manhã, quando da primeira florada da jabuticabeira. Definido, então, que a lavanda era o meu cheiro preferido, cresci procurando todas as variações da planta. E foi em Paris que conheci uma touceira de lavanda, ao vivo e a cores, e pude me esfregar nela para sentir o perfume que ela exala quando tocada. 

Corri o mundo. Conheci lugares, pessoas, sabores e muitos cheiros. E dentre esses cheiros, mais lavanda. No sul da França, conheci uma lavanda com cheiro de... de vida! Comprei uns quatros frascos para não me esquecer mais. Em outra viagem, conheci um boticário, em Firenze, na Toscana italiana, que fabricava perfumes a partir do seu cheiro preferido. Adivinha? Claro, pedi um perfume de lavanda e a surpresa foi maior do que o esperado. Quando senti o cheiro do perfume já no vidro, depois de todas as misturas feitas, era exatamente o cheiro da lavanda que meu pai usava, mais de 30 anos atrás. Meus olhos marejaram quando fechei os olhos e voltei no tempo.

Esta semana fui convidado para o lançamento da fragrância Eau de Leonora, criada por uma das mulheres que mais admiro pela fineza, elegância, inteligência, simplicidade, firmeza, simpatia, beleza... e um monte de adjetivos que poderia passar horas escrevendo. Leonora Rocha Lima Nogueira conseguiu colocar em frascos mais que um líquido perfumado de lavanda. Ele garimpou no fundo da alma as emoções e as lembranças e fez com que tudo viesse à tona. Hoje, quando passei na loja para adquirir um frasco – faço isso com tudo o que tem cheiro de lavanda – senti-o na pele e fechei os olhos. Foi como ser sugado para uma dimensão diferente. Fui, novamente, jogado num passado que eu não me lembrava mais.

Veio aquela mistura de aconchego, de cama limpa, de banho quente depois de um dia de cansaço, de abraço de pai e mãe, de fim de tarde em casa com bolo saindo do forno. Revi uma vida que ficou na lembrança, apenas. E que lembrança! Leonora conseguiu colocar nos frascos muito mais que um líquido cheiroso. Ela colocou emoções, ela colocou o passado, a saudade, a felicidade... Ela conseguiu ser fiel à lavanda, que veio cheia de frescor, de energia – e calmaria, quando se quer! Ele colocou no frasco a lavanda arteira e cheia de nuances, conforme a pele respira. Ganhei mais um frasco de emoções e mais um pedaço da vida que havia ficado perdia no tempo e em algum lugar aqui dentro. Hoje tudo isso despertou, veio à tona e trouxe a emoção junto. Obrigado por me permitir isso novamente.

Para Leonora Rocha Lima Nogueira, que me fez reviver emoções.