segunda-feira, 31 de março de 2014

Diálogo com a vizinha de cima / Parte II: a faxina


 Era madrugada de sexta para sábado. Havia feito trabalho extra e, portanto, o descanso justo tinha sido atrasado. Meus 89 relógios, incluindo os de parede, marcavam 3h14 duma madrugadinha fresca. Ótimo para dormir. Tomei um banho, fiz uma “boquinha” e caí na cama. Quase 4 da manhã. Foram duas horas de um sono profundo e acalentador. Não mais que duas horas.

Às 6 horas, ainda escuro por causa do inverno, ouço um barulho estranho e quase ensurdecedor, devido ao silêncio que se fazia, ainda de madrugada. Acordei e quase grudei no teto, como os gatos quando são assustados e arrancados de um sono profundo. Até fazer a cabeça funcionar para entender o que estava acontecendo demorou um pouco. Não foi difícil confirmar que o barulho vinha, adivinha de onde? Do apartamento de cima.

A vizinha parecia ter acordado disposta a fazer uma faxina daquelas. Pelo visto – ou ouvido – ela começara por arrastar os móveis. E já tinha começado pelo sofá. Não tinha visto nada. Ainda estava na minha cama. Mas eu podia desenhar a cena toda: a vizinha de cima com um lenço amarrado na cabeça, uma camiseta das Óticas Sollaris toda relaxada e uma bermuda de lycrapreta. Nos pés, as legítimas: havaianas brancas com as tiras azuis.

Esperei mais um pouco antes de tomar qualquer decisão. Mas ela parecia querer colocar o sofá dentro do banheiro, ou na sacada, na cozinha... sei lá. O que sei é que a vizinha de cima ficou durante meia hora arrastando alguma coisa lá em cima e impedindo-me de dormir. Tive de tomar providências.

Enrolei-me no roupão e, descalço, subi as escadas rumo ao andar de cima. 6h32 da manhã. A vizinha de cima abriu a porta.

A mulher do apartamento de cima: Bom dia!

Eu: Bom dia! A senhora vai dar faxina hoje?

A mulher do apartamento de cima: Ah, sim! Sábado é dia de f...

Antes mesmo de ela pronunciar a palavra ‘faxina’, me adiantei.

Eu: ... E de dormir até mais tarde também, expliquei a ela.

Ela fez um olhar de quem não havia entendido.

A mulher do apartamento de cima: Como?

Eu: Minha senhora, hoje é sábado. Trabalhei até de madrugada. Cheguei cansado e pretendo dormir pelo menos mais umas duas horas. Seria possível a senhora me permitir?
A mulher do apartamento de cima: Mas eu não estou...

Novamente a atropelei:
Eu: Está sim, senhora. A senhora parece estar arrastando seu sofá para o banheiro. Sofá fica quieto na sala. A senhora sabe que horas são? E a senhora sabe a que horas começou a arrastar as coisas em casa? E a senhora sabe que tem alguém no apartamento de baixo tentando dormir? Acho que conhece todas as respostas. Agora eu vou descer, vou voltar para a minha cama e vou dormir. Vou dormir sem qualquer barulho no apartamento de cima do meu até às 11 horas. Entendeu?

Ela balançou a cabeça afirmativamente e engoliu seco.

Eu: Passar bem!

A mulher do apartamento de cima: Bom dia!

Eu: Espero que seja. Só depende da senhora!

sábado, 1 de março de 2014

E quem não gosta de carnaval?


Você é daquelas pessoas que passam o ano todo programando o feriado de carnaval? Combina com os amigos? Aluga casa em Pirenópolis ou flat em Caldas Novas? Procura uma praia animada, onde a farra com gente desconhecida é garantida? Ferve em Salvador? Recife? Customiza aquela camiseta com pedras brilhosas e outras bijuterias? Junta aquela graninha suada para comprar uma fantasia e desfilar numa escola de samba do Rio de Janeiro? Passa a quaresma inteira postando nas redes sociais as fotos que tirou na Marquês de Sapucaí, lavado de suor e com as penas da alegoria se despencando? Tudo bem. Você faz parte da grande maioria de brasileiros e de gringos que aportam em terras tupiniquins para curtir a folia de Momo – que, de Momo, mesmo, ninguém tem nem notícia! Você está dentro da normalidade de um monte de gente que é apaixonada por carnaval.

Mas mesmo nascendo, crescendo e vivendo no Brasil, tem gente que não gosta de carnaval. Não tolera a jardineira que está tão triste, não quer saber quantos risos, oh!, quanta alegria e nem se há mais de mil palhaços no salão. Enquanto os foliões passam os últimos dias do ano – já que o Brasil só funciona mesmo depois do carnaval – se intoxicando, há quem passa o feriadão dormindo, lendo, comendo bem, assistindo a bons filmes e seriados. E tem gente que, acredite, passa o carnaval rezando. E se você é desses que preferem algo mais tranqüilo que a folia, aí vão algumas dicas para se divertir – ou não! – durante o reinado de Momo.

1.                  Assistir a seriados: É hora de colocar em dia todas as temporadas daquele seriado norte-americano que você comprou numa promoção do Submarino, por R$ 99,90. Em média, cinco temporadas. Cada uma com quatro DVDs. Cada DVD tem quatro episódios. Cada episódio, em média, 40 minutos. São 3200 minutos de filme, ou 53,333 horas. Tirando seis horas de sono por dia, mata-se um seriado todinho em três dias. Ainda sobra um dia e meio. Mais uns oito filmes ainda podem ser assistidos.

2.                  Vigiar a cidade: Minha amiga Maria Thereza Alencastro Veiga é dessas. A idéia é a seguinte: entre um intervalo e outro de um programa de TV, ou na pausa longa que você costuma dar para “descansar as vistas”, pode-se chegar até a sacada do apartamento ou à janela de casa e ver se tudo corre bem pela cidade onde, desde sexta depois das seis da tarde, é possível andar nu pelas ruas. Atenção! Qualquer movimento suspeito que não seja um cachorro correndo, um pombo dando um rasante numa estátua ou um catador desavisado procurando latinhas de alumínio é motivo suficiente para correr e chamar a polícia. Você pode ajudar a manter a ordem.

3.                  Visitar os parentes: Momento propício para visitar aquela tia doente de erisipela, que não anda mais faz uns seis anos e, na última vez que te viu durante a ceia de Natal de 2008, te chamou de desnaturado. Passe numa padaria boa e compre meio quilo de cada quitanda – pão-de-queijo, broa de fubá, enroladinho, diplomata... –, umas quatro caixas de suco de pêssego e leve como demonstração de que você se importa, sim, com ela. Aquelas laranjas descascadas por máquinas também são excelentes para essas ocasiões. O problema será achar os vendedores, que devem ter corrido para vendê-las na folia da cidade mais próxima. No mais, mantenha a tia com a boca cheia. Isso vai evitar que ela fale demais e que você ouça o que não quer.

4.                  Cozinhar: É um bom momento para abrir um daqueles sites de “culinária prática para iniciantes” ou pegar aquele livro “Dona Benta”, que você ganhou num amigo secreto naquela empresa em que você trabalhou na década de 1990, e colocar em prática todos os dotes culinários que nunca teve. Vantagem: os supermercados estarão vazios e você vai poder comprar todos os ingredientes com calma e não vai gastar muito tempo na fila do caixa. Desvantagem: é feriado e a empregada só virá no fim da outra semana. A sujeira toda será só sua e você ainda corre o risco de passar dias comendo a mesma coisa para não deixar perder o que sobrou, já que as receitas são sempre para mais de uma pessoa e, quem se aventura pela cozinha pela primeira vez, quer ver volume!

5.                  Preparar uma horta: Mora em casa com quintal ou tem uma floreira na sacada do apartamento? Pronto! O principal você já tem: terra. Na sexta-feira à tarde, quando uma imensa multidão formar filas de veículos nas rodovias a caminho da folia, você estará num viveiro de mudas ou num supermercado escolhendo as sementes. Compre três ervas de tempero (sugiro alecrim, manjericão e tomilho), uma espécie de pimenta e alguns tubérculos. Não se esqueça do adubo, da terra preta e de um regador. Se você tiver preparo físico e os exercícios para a lombar não o faz sofrer, você conseguirá fazer sua horta no fim de semana, tran-qui-la-men-te. Vai sobrar ainda dois dias e meio para ler tudo sobre “Como ter uma horta em casa”. Ensina-se até a plantar em garrafas pet.

6.                  Arrumar os armários: Seu janeiro passou tão rápido que você, assim como eu, deixou de fazer aquela faxina? Então é hora de deixar preguiça de lado, já que fevereiro dá os últimos suspiros. Papeis tidos como importantes, notas fiscais, comprovantes de compras com cartão de crédito, listas telefônicas – sim, elas ainda existem! – as centenas de propagandas da nova pizzaria do seu bairro, os cartões de visita que você jamais vai se lembrar de quem são, quilos de chamex com anotações inúteis, revistas velhas, jornais e similares. Separe tudo e chame uma associação que venda o papel para a reciclagem. Você ainda faz uma boa ação.

Mas se nenhuma dessas atividades te agradar, que tal abrir uma boa garrafa de vinho – ou duas. Quem sabe três? –, convidar os possíveis amigos que também estão à espera de alguma coisa para fazer, encher a mesa de batatas ruffles de todos os sabores e amendoins japoneses, preparar aquele set de músicas que você não escuta há anos e se entregar à sessão naftalina? No fim das contas, vai dormir tranqüilo e o carnaval servirá, ao menos, para reparar as olheiras. Bom carnaval. Bom sono. Axé!

Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo

http://www.aredacao.com.br/artigos/40913/e-quem-nao-gosta-de-carnaval

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O fim mais certo para os personagens de Amor à Vida...


Paloma: Tropeça numa calçada irregular, quebra os dentes e fura um olho. Passa o resto da vida fazendo fisioterapia.

Bruno: Adquire cisticercose e entra em coma. Pronto!

Ninho: Começa a vender baseados prontos na Praça da Sé. É escalteado por um diretor de Hollywood e ganha papel em Breaking Bad. Um ano depois ele acredita que o seriado é a vida real e tem uma overdose.

Félix: Vai preso. Depois de tudo o que fez, né, Braseew?, tem que pagar. E será, no presídio, amigo da garotada!

Pilar: É encaminhada para um spa, mas não o da Clara Matolli.

César: Tem um AVC de último grau. Baba sem sentir e faz todas as sujeiras na roupa.

Márcia: Ganha na loteria e compra a casa da Griselda. Vai viver de renda e morar no Marapendi Dreams. No futuro, será assassinada por Tereza Cristina.

Valdirene: Com o dinheiro que Márcia deu pra ela, monta uma churrascaria e uma pizzaria. Abre falência em quatro meses.

Ordália: Abre um puteiro. Vira cafetina e chama Wanda para uma sociedade, com franquias na Holanda e Turquia.

Dr. Herbert: De repente, some. Assim como veio, vai…

Paulinha: Deixada no lixão com Mãe Lucinda, vai ser responsável por cuidar das carraspanas do Nilo.

Thales: Como todo escritor romântico de séculos atrás, passa as noites frias de São Paulo com os pés numa bacia de gelo para morrer de tuberculose.

Niko: Vende a casa, compra um ônibus e vai vender sushi na estrada como uma espécie de Priscila tupiniquim.

Eron: Redescobre os sites eróticos e vira garoto de programa.

Amarilys: É seqüestrada por Wanda e Ordália e vira escrava sexual em Ancara.

Michel: Escorrega na banheira do motel, bate o saco na garrafa de champanhe francesA, fica estéril e perde a libido.

Patrícia: Surta e abre um sex shop. Usa todos os vibradores diariamente e lança uma espécie de cartilha explicativa sobre os brinquedinhos.

Silvia: Perde o registro da OAB e se entrega ao vício das drogas.

Edith: Casa-se com Wagner (o mordomo) e vai morar em uma edícula no fundo de uma mansão onde os dois trabalham: ela como babá e ele como copeiro e escravo sexual da madame, dona da mansão.

Jonathan: Internado numa clínica psiquiátrica com transtorno tripolar, não dorme à noite, procura seus pais na internet o dia todo e não conversa com pessoas cujos nomes começam com as letras E, F, C e T.

Tâmara: Vivendo com Cuocodilo Dande, some para a Austrália. Há relatos de que ela será morta por um gnu e sua carcaça comida por hienas.

Lutero: Encontra Flora, que lhe dá de presente o livro “O Médico e o Mostro”. Assume a personalidade de Silveirinha.

Atílio/Gentil: Percebe que a dupla personalidade é coisa do demônio e encara o personagem de Ariano Suassuna em O Alto da Compadecia.

Denizard: Explode!

Carlito: Monta uma escola e passa a dar aulas particulares de português para treinar cicerones que vão receber turistas durante a Copa.

Dona Bernarda: Raspa a cabeça e volta a costurar roupas para as bonecas de Victor Valentin.

Perséfone: Explode!

Gigi, Murilo e Sandrinha: Morrem soterrados pelos escombros da casa onde moram.

Dr. Jaques: Acusado de erro médico, perde o registro e se casa com Priscila.

Priscila: Explode!

Daniel: Abre uma academia para a terceira idade.

Gina: Vira pastora e passa as tardes visitando os pobres para ler a palavra de Deus. Quando ela sai de casa, o marido dá um beijo nela e a inentiva: “Vá, meu amor, fazer a boa ação. Vá Gina... Vá Gina!”

Elias: Passa o dia em casa cuidando dos 17 filhos que terá com Gina. À noite, faz biscate como garçom no bar que era de Denizard, o sogro.

Laerte: Morre em decorrência da Aids.

Ianiá: Morre em decorrência da Aids.

Neide: Vira assistente social e vai trabalhar num asilo de autistas.

Linda: Passa o resto da vida tentando entender o que Rafael tem que ela não tem.

Rafael: Passa o resto da vida sendo acariciado por Linda naquilo que ele tem e ela não.

Amadeu: Segue na vendinha do hospital.

Renan: Faz uma cirurgia plástica para melhorar o rosto e acaba sendo sequestrado por E.T.s.

Vega: Vira uma melancia verde (Saramandaiando).

Ciça: Morre engasgada com uma uva.

Joana: Entra em depressão e passa a frequentar o MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas) depois que encontra Luciano se atracando com uma enfermeira na UTI do São Magno.

Luciano: Se torna polígamo.

Pérsio e Rebeca: Se casam e montam uma frente de assistencialismo às vítimas da Faixa de Gaza.

Lídia: Monta uma casa de chás e passa a vender Herbalife.

Vanderley: Confundido com um bambu, procura Silvio Santos e explica o resto da piada pra ele.

Vivian: Explode no Peru, depois de encher a cara e acender um cigarro enquanto arrotava.

Maciel: É contratado como motorista de ônibus pela Prefeitura de São Paulo e morre carbonizado em um incêndio causado pelos bandidos maranhenses... (?)

Ignácio: Tenta acabar com o casamento da Carla Perez porque quer a loira a qualquer custo.

Reinaldo: Explode!

Aline: Foge da cadeia, foge do país (porque nessa novela isso é possível) e vira sócia da Clara Matolli no spa no Caribe.


segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Paciência a quilo



Quem nunca comeu num restaurante por quilo que atire a primeira colherada de fricassê. Com o tempo escasso, durante a semana, os restaurantes ‘entre-sirva-pese-coma-e-pague’ ganharam mais clientes que as lojas que vendem artigos chineses ao preço de R$ 1,99. Antes restritos a arroz, feijão, carne, alface e tomate, os restaurantes agora têm um cardápio variadíssimo, com saladas diversificadas ao ponto de deixar qualquer macrobiótico com inveja. As massas, as carnes – inclui-se churrasco – e as sobremesas fazem qualquer pessoa se sentir num banquete diário na hora do almoço. Esse é o problema. Tem coisa demais para escolher.

Assim que se entra no restaurante já se esbarra no fim da fila. Sim. Há filas longas e lentas, primeiro, para pegar o prato. Depois começa a exposição das bandejas. Freqüento um restaurante que oferece nada menos que 54 tipos de salada. Há coisas ali que nunca imaginava existir. E olha que conheço bem de comida. Junto com o que pode ser servido como entrada vêm os patês, suflês e todos os pratos derivados da culinária francesa, incluindo o fricassê – que fiquei sabendo há pouco, o original não contem frango. Começa a via-sacra e o teste de paciência.

À sua frente sempre tem: uma garota magra que conta os caroços de lentilha que estão na colher e vão para o prato; uma mulher de meia idade que se propôs a entrar na dieta justamente naquele dia – esta, ainda na dúvida, coloca tudo no prato e depois devolve metade porque a consciência pesou com a quantidade de batata; uma mãe tentando convencer o filho que acabara de sair da escola a comer alguma coisa que não seja arroz e batata frita; um senhor que não consegue enxergar direito e enche o prato de grão de bico, achando que são bolinhos de queijo e, quando percebe o engano, cai na risada e devolve tudo para a bandeja, jorrando saliva num raio de quatro bandejas para cada lado – já me eliminam oito ‘misturas’... e a paciência.

Tem também aquela dondoca indecisa, uma das figuras diárias que mais me irritam nas filas dos restaurantes. Ela coloca 17 pedaços de beterraba escolhidos cuidadosamente – todos medindo dois centímetros cúbicos – e percebe que é demais. Devolve oito para a bandeja. Viu que ficaram nove. Mas ela gosta de números redondos e pega mais um. E assim ela faz com o arroz, o feijão e tudo o que pode ser contável naquele infindável cardápio. Eu estou ali, bem atrás, esperando pacientemente que ela se decida pelas suas quantidades. Quase desejo sua morte.

Dia desses havia uma senhora bastante debilitada à minha frente, na fila, não sei se surda ou com mal de Alzheimer. E eu esperando com toda a paciência que Deus me deu. A acompanhante dela gritou seis vezes perguntando se ela queria “patê de palmito com salmão defumado”. Seis vezes! Tive de intervir e abortar a sétima tentativa. Expliquei que palmito, para uma senhora daquela idade, poderia causar botulismo. A acompanhante botou a mão direita no peito, apertou os olhos, exclamou alguma coisa que não consegui entender e passou para o próximo prato. Agilizei a fila em dois minutos, um ganho considerável de tempo, visto que em alguns momentos a fila para.

Daí vem o churrasco e as pessoas acham que estão em casa, num sábado à tarde, à beira da piscina e sem nada mais para fazer do que ouvir pagode o resto da tarde e jogar conversa fora. Exigem que o churrasqueiro pegue todos os espetos para ver qual é a carne que mais vai agradar. Quando alguém aponta a carne com o pegador e pede pra ver do outro lado e não sabe se aceita ou não, eu desisto. Fico só no carboidrato com salada porque, naquele momento, a paciência já era e a fome está indo junto. Sem falar com ainda é preciso enfrentar a fila da balança e encarar o garçom, que sempre espera a gente enfiar a primeira garfada na boca para chegar do lado e perguntar: “O senhor já foi atendido? Vai beber alguma coisa?”. 

http://www.aredacao.com.br/artigos/39046/paciencia-a-quilo

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mudando os rumos de Amor à Vida


Acho que Walcyr Carrasco já deu o que deveria da... ops!, o que tinha que dar. Tá na hora de agitar essa novela, mexer o doce, engrossar o caldo, agitar o pedaço. Então, proponho uma reviravolta nesse folhetim canalha, sem emoção (se bem que depois de Carminha, as outras são as outras e só!). Aos personagens e ao caminho que daria a eles. Walcyr, acorda e lê issaqui!

Amarillys volta do coma ou da outra vida (já que toda novela agora tem isso) e atazana a vida de Bruno até ele cometer suicídio. Se ela sobreviver, ela mata ele.

Paulinha sequestra Jaiminho e Fabrício e sai vagando por São Paulo à procura de Mãe Lucinda.

Paloma, óbvio, volta pra clínica e vai tomar choque elétrico com razão.

Cabocla e Lúcua Veríssimo encaixotam Dr. César, cortando-lhe os braços e as pernas, tal como Helena. Passarão o resto da novela fazendo maquiagem nele, como se fosse boneca de porcelana. Elas gravam os vídeos e soltam no Youtube. Félix curte todos.

Anjinho tem uma amigdalite monstra e é internado no São Magno. Lutero fará a cirurgia para a retirada das amígdalas e o deixará mudo. Pronto!

Tia Celina (ou dona Bernarda, como queiram!) descobre que pegou gonorreia de Lutero, enlouquece e volta a costurar roupas para as bonecas de Vitor Valentim, num asilo da zona Oeste.

Márcia vira crente e abre um Cassino com o pastor Waldomiro.

Valdirene fica responsável pela pregação e passa a orar em línguas.

Vega escorrega no banheiro, bate a cabeça no vaso e morre. Pronto, também.

Ordália vira parteira e abre uma casa de massagens para puérperas.

Fúlvio, também conhecido como Denizard, explode... É, que nem a dona Redonda mesmo.

Niko vai pra Holanda, troca de sexo e implanta um útero. Volta grávido... Uma besteira a mais não vai jogar o nome do Walcyr na lama.

Leila aprende a caminhar com os braços, de cabeça pra baixo, plantando bananeiras e vence as paraolimpíadas.

Nicole vira um enxame de borboleta, acaba com as árvores dos Jardins, em São Paulo, e passa a ser considerada a 9ª praga do Egito no Brasil.

Paula Lavigne processa Thales pela biografia não-autorizada de Nicole. Ele vai preso e tem de falar com ela duas vezes por semana.

Michel é sequestrado e capado. Patrícia vira mãe-de-santo frígida.

Edith se interna numa cracolândia no centro de São Paulo. No final vai encontrar Paulinha grávida, Jaiminho de dreads e Fabrício com varíola.

Jonathan vira assassino em série e começa a dar trabalho para a polícia. FBI é chamado para ajudar a desvendar os casos.

Depois de uma crise de pancreatite, Perséfone passa a trabalhar num açougue... Só. Alguns personagens são assim.

Glauce, Gigi e Gina montam um hotel-fazenda. Só Gina trabalha e todos mandam ela ir embora de lá, enchendo o saco da pobre: “Vá, Gina... Vá, Gina...” Mas Gina fica.

Linda descobre que é filha da Vivian (a alcoólatra da Terça Insana) e cai na manguaça também.

Pai e Mãe de linda, assim como o irmão, Daniel, morrem queimados no incêndio provocado por Linda, que deixa uma garrafa de cachaça derramar no sofá e coloca fogo, sem querer, ao tentar acender um baseado. Ela consegue fugir seguindo um caramujo.

Atílio ganha na Mega Sena, que nem Griselda. Félix fica de olho. Num repente de perda de memória, ele se apaixona por Félix e os dois vão viver felizes para sempre. Eron vira copeiro de luxo e assistente judiciário deles.

Vamos todos fazer essa mensagem chegar até Walcyr Carrasco? Quem sabe a gente não consegue aproveitar os últimos meses dessa novela, heim?

Os outros... os outros são os outros e só. Não darão audiência mesmo...


Rimene Aamral

sábado, 26 de outubro de 2013

Pondo a sanidade à prova

No próximo fim de semana, mais de sete milhões de candidatos, em todo o Brasil, devem enfrentar a prova do Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM. Digo enfrentar porque é uma verdadeira batalha psicológica – e por que não dizer física? – a partir do exato momento em que o candidato adentra a sala de provas até as próximas cinco horas e meia. Aliás, candidato, prova e tempo, os três envolvidos no processo, não são nada compatíveis e são todos uns contra os outros.

Não cheguei a fazer prova do ENEM, mas acredito que deve equivaler, guardadas as devidas proporções, a um vestibular do curso mais concorrido e complexo desse país. Relatos de alunos dizem respeito a falhas no cérebro, lesão psíquica, choro compulsivo, tremedeira e ranger de dentes, durante e após a prova. O candidato tem 90 questões pela frente e começa com todo o gás. Uma hora depois ele respondeu só dez porque teve que ler e reler as questões vinte vezes, e cada uma delas tem quase uma página de enunciado.

As respostas, de múltipla escolha, são outros quinhentos. Composta das letras A, B, C, D e E quando o candidato chega a ler a letra C é humanamente impossível lembrar o que a questão pede. No início, até que a coisa vai bem. Do meio pra frente começa a complicar e quando chega ao fim, ele não lembra mais como começou e o que a pergunta quer saber. Isso deixa o cara meio abobado, achando que fundiu.

É aí que começa o momento zen que cada um deve pôr em prática no momento da prova: para, respira fundo, come um chocolate, toma água... E mesmo assim não funciona, garantem os sofredores. O sentimento é de angústia, de incapacidade, de desespero... O candidato retoma a prova e ainda faltam 70 questões! Setenta! Nenhuma a menos. E você pensa que o cara é o único? Não. Ele olha para os lados e as pessoas estão aflitas, comendo. Sim, as pessoas vão fazer a prova do ENEM com uma bolsa daquelas ‘ecobags’ de supermercado, com tudo o que um bom piquenique deve ter. Tem gente que leva comida como se fosse entrar num barco que vai rodar o mundo sem expectativa de parar nos próximos três anos.

É desumano. Olhando para os lados, os candidatos estão pálidos, sem sangue no rosto, com respiração curta, tentando encontrar o ar que, ao que parece, já está bem rarefeito. E você acha que alguém se levanta para ir embora antes de quatro horas e meia de prova? Não! Ninguém nem ameaça. Ninguém quer ser o primeiro. Na verdade, o que dá vontade de fazer, a partir desse momento, segundo relatos, é marcar, a partir da questão 45, a letra B em todas, entregar o cartão preenchido e ir embora correndo.

Entendidos no assunto explicam que, se é pra “jogar no bicho”, a chance de acertar é maior, marcando uma letra só. Sei de um cara que, numa prova de vestibular para um curso de humanas, ele marcou letra B nas 12 questões de Física. Acertou quatro, um terço da prova, e não zerou. Valeu. Mas essa história de marcar todas as questões que sobraram com a mesma letra, depois que a massa encefálica pediu arrego, demanda desprendimento, desapego. Não se pode ler a questão, porque, senão, o candidato vai querer compreender aquilo e vai voltar à estaca zero. No desespero, o candidato olha para os lados e não sabe se as pessoas estão entendendo absolutamente tudo ou absolutamente nada.

A competição é injusta, a meu ver, principalmente com alunos jovens, criados para ser crânios de ferro, e candidatos mais erados, já passados dos 30. Há pessoas que querem mudar isso e acham que o estudante não pode passar por essa pressão toda. Já acompanhei algumas saídas de candidatos das provas do ENEM. Não vi um aluno sair feliz de uma prova. As pessoas saem estressadas, cuspindo em quem oferece água, na saída da prova. Gente chorando e a imprensa com a câmera na cara do candidato perguntando como foi a prova. Que resposta o repórter espera? Isso não sei. Mas a resposta que ele tem é sempre seguida de delirium tremens e choro, muito choro!

Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Não precisa dizer que adora


Não precisa dizer que adora
A gente gosta do que é gostoso e rúcula não é
Não precisa dizer que adora

Rimene Amaral*
 
Goiânia - Sou um glutão contumaz e como de tudo: quiabo, jiló, abóbora, couve, agrião – principalmente se vier acompanhado de uma bela rabada com teor de colesterol que beira o infarto fulminante – pepino, azeitona (acredite, tem gente que não suporta o cheiro da azeitona!), enfim, os tais alimentos coloridos que devem – preste atenção, eu disse ‘devem’ – entrar no nosso prato para que a alimentação seja um exemplo de saúde nos dias modernos. A parte da discussão sobre vegetais cultivados com agrotóxicos, não será levada em consideração.
 
Tempos modernos e saúde comprometida. Sim, as pessoas se esquecem de que para comer bem precisa de tempo. Fast food mata! Algumas, aos poucos. E, de uns tempos pra cá, a frase “você é o que você come” passou a ser bradada até nos pitdogs de esquina e nas barraquinhas que vendem sanduíches com ingredientes de procedências duvidosas. Pronto. Virou moda.

Nutricionistas, nutrólogos, mestres-cucas, chefs de cozinha e a Marinalva, empregada da minha ex-sogra, começaram a introduzir as verduras e os legumes na dieta e diminuir a carne. Nem falo mais na batata frita. Esta, coitada, ficou renegada às boas lembranças da infância. E, do nada, aparece a rúcula. Do nada, não. Aquilo tem uma origem.
 
A rúcula, “Eruca Sativa”, é uma hortaliça procedente de áreas do Mediterrâneo e da Ásia Ocidental – eu aposto que chegou aqui de forma clandestina. Integra a família das ‘crucíferas’, em conjunto com o nabo, o repolho, os brócolis, o agrião, o rabanete e as couves, entre outros. Cresce entre 10 e 15 centímetros de altura, com folhas alongadas e recortadas. Tal como qualquer tipo de praga, o crescimento é rápido e forma pequenas touceiras. Seu sabor forte não passa despercebido – ah, mas não passa mesmo, já que tem gosto de borracha queimada.

Possui uma legião de apreciadores e outros não suportam seu sabor picante (a grande maioria dos 99,99% dos seres vivos existentes na face da terra, mas que comem por conveniência). Dizem que o suco da rúcula, combinado com o de agrião, aquele que vem com a rabada, provoca uma verdadeira limpeza e desintoxicação do organismo. Cabe dizer que o álcool também é usado como desinfetante.
 
A rúcula é muito utilizada na Itália. No Brasil é mais conhecida nos estados do Sul, mas já se alastrou como praga pelo país inteiro. É utilizada como complemento de refeições devido ao seu forte sabor, capaz de eliminar o sabor de outros alimentos.

É nutricionalmente rica em proteína – eu prefiro carne! –, vitaminas A e C e sais minerais, principalmente enxofre, cálcio e ferro. Contém ômega 3, que também encontro facilmente no peixe frito com cerveja, diga-se, ou em cápsulas, sem gosto algum. Também exerce uma função especial sobre o funcionamento dos intestinos, atuando como antiinflamatório nas colites.
 
Vale explicar que a única coisa que realmente me faz sentir náuseas é a tal da jaca. E não se fala mais nela, por favor! Não sou contra a rúcula ou qualquer outro tipo de alimento, se é que rúcula é alimento. Concordo com todos os benefícios nutricionais que essas folhas coloridas e tubérculos mal-encarados possuem.

Acho até, disso conseguiram me convencer, que faz muito bem à saúde, prevenindo um monte de doenças e tal. Tudo bem. Já sei disso e os como. Mas estufar o peito, virar o queixo em 30 graus para o ombro direito, baixar as pálpebras e erguer as sobrancelhas para dizer: “Eu adoro rúcula” aí é hipocrisia. A gente gosta do que é gostoso e rúcula não é.
 
Gostoso é o sabor de uma torta de trufas com morangos frescos, chantili com cerejas – belgas, por favor! Ninguém, no dia do aniversário, por exemplo, que é quando a gente baixa a guarda de qualquer dieta de restrição, achando que vale como presente, acorda com o desejo de comer rúcula.

Aposto que nesse exato momento muita gente pensou e até falou pra si mesmo: “Ah, eu gosto de rúcula”. Gosta não. Tolera por convenção ou porque é usada em pratos chiques. Ficou estipulado que rúcula faz bem ao organismo e pronto. Daí, gente cabeça aberta, que adora uma coisa diferente, até pra falar que é diferente também, sai com uma dessas. Ninguém gosta de rúcula. O sabor é ruim!
 
Então, deixando a hipocrisia de lado, o que não é nada feio e ninguém vai te recriminar por isso, ficamos assim: gostoso é um arroz com charque – e cabe aqui até uma vinagrete com muito azeite e limão. Gostoso é um sanduíche de esquina com maionese colorida e sunday de morango. É uma lasanha à bolonhesa com muito queijo e uma garrafa de Malbec. Gostoso é um prato bem fundo, cheio de feijoada com torresmo – aceito a laranja – e uma infinidade de delícias que eu poderia passar o resto da vida escrevendo.

Mas vamos botar a mão na consciência: rúcula não é gostoso. Assim como tantas outras coisas, ela existe apenas para mostrar que a vida não deve ser apenas um mar de chocolate derretido com conhaque ou champanhe. É saudável? É. Mas todo mundo pode encontrar a saúde – inclusive a mental – sem precisar estufar o peito e dizer que adora rúcula. Tenha santa paciência!
 
*Rimene Amaral é jornalista, fotógrafo e metido a chef.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A pastinha da loiraça belzebu

Goiânia - Assim que bateram na porta do gabinete, o parlamentar arrumou a gravata, passou a mão pelos cabelos, ajeitando os fios arrepiados, penteou o cavanhaque com as unhas, respirou fundo e ordenou a entrada. Quando a porta foi aberta, a imagem que apareceu era de tirar o fôlego: loira, olhos azuis cintilantes, boca desenhada, nariz de princesa e um corpo esculpido por horas diárias de malhação e alimentação adequada. Debaixo do braço, uma pastinha.
O parlamentar balançou a cabeça de um lado para o outro, passou a mão direita no rosto, como se enxugasse um suor que aparecera de repente e pediu para que ela se assentasse, sem conseguir desviar o olhar dos fascinantes olhos azuis à sua frente. Quando estendeu a mão esquerda apontando a cadeira para a moça, o parlamentar percebeu que sobrava algo. Disfarçadamente, retirou a aliança e a colocou no bolso.
Os serviços oferecidos pela jovem moça tinham a ver com um tal fundo que ela representava. Não se sabia bem que espécie de fundo era esse. O certo é que, de tão bom o negócio, o parlamentar convidou outros amigos para participar da aplicação no tal fundo. A conversa acabou se estendendo e, do gabinete, o parlamentar e os colegas, junto com a loira, foram a um restaurante, onde conversaram muito, beberam, comeram e decidiram fazer o investimento: colocaram no fundo da moça.
Depois que todo mundo descobriu que o tal fundo não era o que se apresentava e que, na verdade, esse fundo da moça loira não era algo cuja legalidade era inquestionável, veio a público o envolvimento da loira de olhos de anjo com todos aqueles que colocaram no fundo. E agora, como explicar? Um deu lá suas justificativas, o outro fingiu de morto e o parlamentar que recebeu a encantadora moça da pasta em seu gabinete fugiu das explicações. Não disse nada a ninguém a pedido de um outro alguém, não se sabe quem. Ficou o não dito pelo silêncio.
Mas a curiosidade maior é saber como foi a explicação em casa, para a esposa do parlamentar encantado. Aliás, não é todo dia que se encontra uma loiraça Belzebu, de olhos cintilantes, com uma pasta debaixo do braço, no seu ambiente de trabalho disponibilizando o seu fundo. Haja explicações! E que sejam convincentes. Caso contrário, a cama, por um tempo, será o sofá da sala.
Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

“Teje presa”, disse o fiscal à prostituta

Goiânia - O país inteiro levantou um gigante que abalou as estruturas das três esferas de poder do Brasil para manifestar contra tanta bandalheira, roubalheira e absurdos que ficaram entalados durante anos na garganta do povo. Depois de chacoalhar tudo por onde passou, o gigante parece ter adormecido, novamente! Efeito da caipirinha brasileira? Pode ser. O que aconteceu, nesse ínterim, ficou num limbo que, para relembrar, é preciso se recompor aos poucos.
 
Enquanto centenas de milhares de brasileiros foram às ruas pedindo o fim dessa balbúrdia, parlamentares tricotavam assuntos os mais variados, faziam seus conchavos, se trancavam em seus gabinetes e criavam os maiores absurdos que esse país já deve ter visto ou ouvido falar, depois da Idade Média.

Um dos motivos das manifestações, o projeto conhecido como “Cura Gay”, de autoria do deputado tucano, o goiano evangélico João Campos, colocou em xeque a seriedade das leis criadas pela Câmara dos Deputados e demonstrou, mais uma vez, que o que vale, para uma parcela de parlamentares intolerantes, é demonstrar poder. Seja em nome de Deus ou da própria insanidade. Não vingou! E, provavelmente, por um lapso de lucidez, o nobre deputado voltou atrás e desistiu do projeto.
 
João Campos recuou, mas não sossegou. Quando todo mundo achava que o nobre deputado tivesse adormecido como o tal gigante, eis que ele volta às páginas dos jornais e aos noticiários com outro absurdo, nas mesmas proporções medievais do primeiro.

Desta vez, Campos propôs a criminalização da prostituição e de quem usa os serviços das mulheres, cuja profissão é tida como a mais antiga. O Projeto de Lei 377/2011 modifica o Código Penal Brasileiro e torna crime contratar e aceitar a oferta de serviços sexuais. É mais um embate da intolerante bancada evangélica com os deputados progressistas que, ao que parece, para mim, é falta de serviço.
 
Diante disso tudo, fico imaginando como seria a fiscalização do tal ato criminoso. A polícia poderá agir? Quem, na verdade, ficará responsável por conter o crime de prostituição? Como os ‘fiscais’ saberão onde devem fiscalizar? Penso que seria mais ou menos assim: a dona chega à casa do cliente e toca o interfone.

O fiscal que está na esquina vê que a saia está meio curta demais e a maquiagem carregada e a aborda, fazendo os questionamentos de praxe – “O que a senhora faz? O que veio fazer aqui? Quem chamou a senhora?”. Olha a bolsa dela e conta a grana. Ela entra para a empreitada. Do lado de fora, o fiscal encosta no muro e acende um cigarro atrás do outro. Quando a dona sai ele a aborda novamente, pede a bolsa dela, abre e conta o dinheiro. Se tiver mais dinheiro do que quando entrou, o fiscal brada: “Teje presa!”.
 
Depois disso, a dona é algemada. O fiscal oferece um cigarro a ela, como cortesia, já que, antes de ser prostitua é mulher, coloca-a no banco da frente da viatura – se colocar atrás e ele estiver só, podem chamá-lo de taxista; se ela for atrás e houver um motorista na frente, vão dizer que é carro de paulista porque andam dois homens na frente e uma mulher atrás – e seguem para o distrito.

O delegado recebe a dona e faz o B.O. A mulher é encaminhada ao presídio. Mas espera aí... e o cara que contratou os serviços da dona? Quem vai à casa dele fiscalizar se, realmente, o serviço foi feito? E como? Aí deve entrar em cena outro profissional que fará o ‘observatório’ e o sentenciará inocente ou culpado. Neste caso, “teje preso” também!

Rimene Amaral é jornalista e fotógrafo.