quinta-feira, 6 de junho de 2013



E se você tivesse a oportunidade de entrevistar um escritor? Pois os alunos do 3º ano do Ensino Médio do Colégio São Luís, em São Paulo, tiveram. E não foi um escritor qualquer. Há duas semanas, os adolescentes estiveram com o moçambicano Mia Couto no auditório da escola. Em duas horas de conversa, os meninos não se intimidaram: fizeram perguntas inteligentes e não deixaram espaço para silêncios constrangedores (a propósito, veja o que o escritor tem a dizer sobre o silêncio na oitava pergunta).
Você lutou pela independência de Moçambique durante a guerra civil. Como a sua vivência como militante da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique) marcou o seu trabalho como escritor?
Marcou de várias maneiras. Foi um processo longo, de escolhas, de um certo risco em um dado momento. Foi algo que me ensinou a não aceitar e a não me conformar. É a grande lição que tiro, que também me ajuda hoje a estar longe desse movimento de libertação, que se conformou e se transformou naquilo que era o seu próprio contrário. Mas eu acredito que ser uma pessoa feliz e autónoma é uma conquista pessoal. Não se pode esperar que algum movimento social ou político faça isso por você. Isso é algo que resulta do nosso próprio empenho.
Como é ser escritor em Moçambique?
Vou contar um pequeno episódio que pode ajudar a responder a essa questão. Um dia eu estava chegando em casa e já estava escuro, já eram umas seis da tarde. Havia um menino sentado no muro à minha espera. Quando cheguei, ele se apresentou, mas estava com uma mão atrás das costas. Eu senti medo e a primeira coisa que pensei é que aquele menino ia me assaltar. Pareceu quase cruel pensar que no mundo que vivemos hoje nós podemos ter medo de uma criança de dez anos, que era a idade daquele menino. Então ele mostrou o que estava escondendo. Era um livro, um livro meu. Ele mostrou o livro e disse: “Eu vim aqui devolver uma coisa que você deve ter perdido”. Então ele explicou a história. Disse que estava no átrio de uma escola, onde vendia amendoins, e de repente viu uma estudante entrando na escola com esse livro. Na capa do livro, havia uma foto minha e ele me reconheceu. Então ele pensou: “Essa moça roubou o livro daquele fulano”. Porque como eu apareço na televisão, as pessoas me conhecem. Então ele perguntou: Esse livro que você tem não é do Mia Couto?”. E ela respondeu: “Sim, é do Mia Couto”. Então ele pegou o livro da menina e fugiu.
Essa história é para dizer que, para uma parte dos moçambicanos, a relação com o livro é uma coisa nova. É a primeira geração que está lidando com a escrita, com o escritor, com o livro. Nós, escritores moçambicanos, sabemos que escrevemos para uma pequena porcentagem da população, que são os que sabem ler e escrever. O livro tem uma circulação muito restrita. Mas, mesmo assim, as tiragens dos meus livros em Moçambique giram em torno de 6 mil, 7 mil exemplares, o que é um número alto. Quando comparo com as tiragens que faço no Brasil, posso dizer que o Brasil não vai muito além. O Brasil não lê tanto quanto pensamos. Se contarmos a população inteira do Brasil e apenas aquela que lê e compra livros, veremos que a situação é proporcional à de Moçambique.
O que os escritores fazem para promover o livro em Moçambique?
A Associação de Escritores de Moçambique faz encontros em escolas primárias e secundárias e em fábricas. E aí tentamos fazer alguma coisa. Mas os livros estão muito caros. É o trabalho que escritor faz, mas é uma panaceia, porque o resto não depende do escritor.
Quais são os maiores problemas de Moçambique hoje?
Antes de responder à pergunta, eu vou dizer uma coisa. A imagem que nós temos uns dos outros é feita muito de clichês, de estereótipos. Vocês também têm uma imagem feita fora. A primeira vez que eu vim a São Paulo, há alguns anos, fui protagonista de uma história engraçada. Quando eu estava saindo de Moçambique, disseram-me que São Paulo era perigosíssima, que havia balas perdidas, gente morrendo, e eu comecei a ficar cheio de medo. Uma das minhas filhas me dizia até que eu ia morrer. Na viagem de avião, que dura onze horas, eu vim pensando que era um perigo e que eu seria assaltado. Tinham me dito para tomar cuidado quando chegasse ao aeroporto, porque tinha saído na Globo – lá também temos Globo – que havia falsos táxis que raptavam as pessoas.
E, de fato, eu já estava contaminado com aquela coisa. Quando cheguei, tinha um motorista da minha editora, mas ele não estava usando uniforme e não tinha nenhuma identificação. Eu logo perguntei se ele tinha identificação e ele disse: “Não, eu sou o Pepe”. E foi me conduzindo por um corredor e dizendo que o carro estava lá no fundo. E o carro não era propriamente um táxi. E a ideia de que eu estava sendo raptado começou a soar na minha cabeça. Quando entrei no carro e sentei ao lado do motorista, eu já estava olhando para a frente e pensando “esses são os últimos momentos da minha vida, vou reviver todo o meu passado, como nos filmes”. Até que o motorista pegou algo no porta-luvas. Era uma coisa metálica, para o meu desespero. E ele estendeu essa coisa e disse: “Aceita uma balinha?”. Vocês estão rindo, mas eu não tinha nenhuma vontade de rir, porque balinha lá não quer dizer a mesma coisa que aqui. Quer dizer bala no sentido literal mesmo, projétil de bala. E aí eu só consegui pensar que estava sendo assaltado, que aquele homem ia me matar, mas que era o assassino mais simpático que eu podia encontrar.
Isso é para mostrar como construímos a imagem uns dos outros. A imagem que se tem da África fora da África é sempre associada à fome, à miséria, à guerra. Mas os africanos não vivem todos assim. Eles são felizes, são construtores de vida, têm uma vida social riquíssima, têm culturas diversas, é o lugar no mundo onde há mais diversidade do ponto de vista linguístico e cultural. Então os problemas que temos são os mesmos da maior parte dos países africanos. Têm a ver com a miséria, têm a ver com o fato de que a sua própria história é muito recente. Moçambique teve uma guerra civil de 16 anos, em que morreram muitas pessoas. Quando morre uma pessoa, tanto faz se é militar ou civil, mas o que é mais triste é que as guerras da África são guerras que matam sobretudo os civis. Os soldados morrem pouco, porque muitas vezes se transformam em forças descomandadas, já que não existe um Estado forte e não há territórios definidos. Mas a África toda não é isso, há grandes histórias de sucesso. Moçambique é ao mesmo tempo uma grande história de sucesso, porque a guerra acabou em 1992 e, quando eu pensava que nunca mais ia ver a paz, o governo conseguiu instalar a paz juntamente com a sociedade civil. E hoje Moçambique é um grande parceiro internacional de investimento e de outros governos. Por exemplo, hoje o Brasil está muito presente em Moçambique, com projetos de construção, de estradas, portos, barragens etc. Portanto, acho que Moçambique vive hoje um momento muito feliz. Mas continua sendo um dos países mais pobres do mundo.
Com sua obra, você conseguiu apresentar a realidade de um país, e até de um continente. Como é a sua relação com Moçambique?
Eu não me considero representante de Moçambique, me considero apenas representante de mim mesmo. Eu tenho duas dificuldades: eu sou de um continente em que os brancos são minoria. Os brancos moçambicanos são minoria. Num país de 21 milhões, os brancos são 10 ou 20 mil. Portanto, eu não poderia ser o representante de qualquer coisa, se é que existe isso de representatividade. E a outra dificuldade é que eu tenho nome de mulher. Agora já não acontece tanto, mas antes, quando eu ia visitar um outro país, muitas vezes estavam esperando uma mulher negra. E eu ficava no aeroporto esperando que alguém viesse falar comigo e nada. Já tive desentendimentos terríveis.
Uma vez fui visitar Cuba e tinham organizado um presente para cada membro da delegação de jornalistas. Voltei com uma caixa de presentes. Na época, vivíamos em guerra. E, na guerra em Moçambique, nós vivíamos em uma situação-limite, não tínhamos nada. Nós saíamos de casa em busca de coisas para comer. Era essa a situação que meus filhos tinham de enfrentar todos os dias. Então eu estava fascinado com aquela coisa de ter ganhado um presente. Quando cheguei em Maputo, abri aquela caixa e eram vestidos, brincos, eram coisas para uma mulher, para a senhora Mia Couto. Então eu não me sinto representante nesse sentido, mas sinto que o fato de seu ser conhecido hoje fora de Moçambique me obrigar a ter uma responsabilidade para com o meu próprio país. Então, quando estou fora, eu tento divulgar a cultura de Moçambique, os outros escritores. Trago livros de escritores moçambicanos e entrego às editoras, para saber se é possível que sejam editados etc.
E com Portugal?
Eu sou descendente, sou filho de portugueses e tenho uma relação com Portugal muito curiosa, porque eu não conhecia Portugal até eu ser adulto. Só fui a Portugal quando eu comecei a publicar meus primeiros livros. E era uma coisa muito estranha, porque a concepção africana de lugar é que o lugar é nosso quando os nossos mortos estão enterrados no lugar. E eu não tenho mortos em Moçambique, infelizmente. Então os meus mortos estão enterrados em algum lugar no norte de Portugal. E eu fui ver esse lugar. Eu queria ver justamente porque queria ter essa relação quase religiosa com o lugar.
O que acontece é que os meus pais imigraram para Moçambique quando eram jovens, tinham 20 anos, e viveram toda a sua vida lá, nunca mais tiveram relação com Portugal. E eles contavam histórias de um país que, ao mesmo tempo que me fascinava, era uma coisa muito distante. O que acontecia é que a minha mãe, ao contar histórias sobre a sua família, seus tios e avós, trazia para mim e para meus irmãos uma presença que nos fazia muita falta, porque todos os meus amigos tinha avós, tios e falavam dos primos. Eu não tinha ninguém. A minha família eram os meus pais e os meus três irmãos. Então o que a minha mãe fazia ao contar histórias era inventar a família inteira. Eu precisava ter um sentimento de eternidade que era conferido por essas histórias que a minha mãe contava. Mas eram quase todas mentira, quase todas eram inventadas por ela.
Qual é a sua opinião sobre a reforma ortográfica?
Eu não sou a favor. Considero que alguns dos motivos que foram invocados para a reforma ortográfica não são verdadeiros. E acho que é uma discussão com a qual os portugueses, principalmente, ficaram muito nervosos, porque, para Portugal, mexer na língua é uma coisa muito sensível. Algumas pessoas de Portugal acreditam que a língua é a última coisa que eles têm, que é a primeira e última coisa que têm, é um sentimento imperial da sua própria presença no mundo que foi posto em causa. Mas a minha questão não é essa. É que eu sempre li os livros dos brasileiros e nunca tive problema nenhum, nunca tive dificuldade nenhuma. Para vocês, que estão lendo meus livros em português de Moçambique, existe alguma dificuldade particular por causa da grafia? Ou a dificuldade é o resto e essa é a única coisa que não é difícil?
Eu acho inclusive que haver uma grafia que tem alguma distinção, um traço de distinção pode trazer um outro sabor a uma escrita. E os brasileiros conhecem muito pouco de Moçambique, de Angola ou de São Tomé. Às vezes eu ando na rua e tenho uma dificuldade enorme para explicar quem eu sou. Na verdade, isso eu não sei explicar, mas a dificuldade é para explicar de onde eu venho. Quando falo que não sou de Portugal, sempre fica uma coisa difícil. Fazem as perguntas mais estranhas sobre o que pode ser Moçambique, se é um país que fica perto do Paraguai, por exemplo. Então a distância entre nós não é um problema que deriva da ortografia, deriva de outras coisas, de política, de uma falta de interesse, de um distanciamento. Isso não será resolvido mudando o acordo ortográfico.
O que pode mudar a imagem negativa que muitas pessoas têm da África?
Há várias Áfricas e eu estou falando daquela que eu conheço. Essa África que eu conheço sobrevive por um espírito de solidariedade, de abertura e de respeito com os outros. A forma que os africanos têm de se abordar, de saber um dos outros é uma coisa genuinamente autêntica. Quando eu estou cumprimentando alguém, quando estou falando com alguém, eu dou espaço para o outro. Então há uma lição de escutar os outros. Eu nunca falo quando o outro está falando, dou espaço, não tenho medo do silêncio, que é uma coisa que acontece aqui. As pessoas estão conversando, de repente há um silêncio, e isso é um peso, é uma coisa da qual temos que nos libertar, é uma ausência. Na África, essa ausência não existe. Nesse silêncio, há sempre alguém que fala. São os mortos. Por exemplo, a relação com o corpo. É preciso ter tempo para encontrar alguém. Quando eu estou falando com um homem, eu cumprimento com um aperto de mão. Mas o aperto de mão não é igual, tem um ritual. Depois do aperto, a mão fica na mão da outra pessoa. Não tem nada a ver com interpretação gay. A mão fica na mão da pessoa com quem estamos falando, e essa mão não tem peso, é uma mão leve. Porque se fala com o corpo. Temos essa liberdade de poder usar o corpo para dizer coisas que não podem ser ditas pela palavra. São coisas pequenas que nos mudam muito interiormente. É uma capacidade de estar disponível para os outros. E capacidade de ser feliz.
Eu também encontro muito isso no Brasil. Tem a letra de música brasileira que diz “levanta, sacode a poeira, dá volta por cima”. Eu acho que isso é, em grande parte, uma herança africana. Isto é para não ficar lamentando a desgraça. Eu acho que, se os europeus vivessem as dificuldades que vivem os africanos, eles seriam muito amargos. Aliás, já são. A forma como os africanos celebram a alegria de viver e o fato de que qualquer momento é um momento de festa, de celebração, de dança, de canto, acho que é outra coisa que é importante aprender. Há uma tolerância profunda. Vocês vão ouvir mil histórias sobre intolerância, e essas histórias também são verdadeiras. O mundo é feito dessa coisa contraditória, mas a verdade é que há uma tolerância muito grande. Essa tolerância nasce de uma coisa. O que eu vou dizer agora é muito importante: a África só pode ser entendida se vocês perceberem que a África tem uma outra religião. Essa África negra tem uma outra religião. Essa religião não tem nome. Não é o candomblé, não é a umbanda, é outra coisa. É uma religiosidade que não se separou das outras esferas do pensamento. Não é um sistema de pensamento. Na África que eu conheço, existem os deuses das famílias. Você tem os seus deuses, eu tenho os meus deuses. Isso significa que eu não estou muito preocupado em te convencer de que existe uma verdade só, que é uma coisa muito típica das regiões monoteístas, que é uma verdade que tem de ser imposta ao outro e o outro tem de seguir esse princípio. Você pode ter a sua verdade, eu tenho a minha, e está tudo certo. Acho que essa é a razão para os africanos terem essa tolerância.
Mas a verdade é que africanos são muito parecidos com todos os outros. Essa ideia de que a África é muito diferente, muito exótica existe só na cabeça de algumas pessoas. Mas há uma coisa que é preciso ser dita. Em uma sociedade que é muito pobre, às cinco da manhã, às vezes eu saio de casa e vejo as pessoas já acordadas, atravessando quilómetros a pé, andando 30, 40 quilómetros para ir à escola, saindo de casa sem o café da manhã e tomando simplesmente uma xícara de chá com muito açúcar para dar energia, para ir para a escola aprender. Eu tenho um prazer enorme de ir às escolas em Moçambique, porque os meninos estão ali com uma fé quase religiosa. Eles estão ali absorvendo, têm os olhos abertos até o infinito, estão completamente ali. Não se ouve uma mosca passando na sala. É um investimento que eles fazem em uma outra esperança, em uma outra crença. É impressionante. Mas há escolas em Moçambique nas quais eu não vou: a escola americana, por exemplo, que é uma chatice. É uma vida feita de facilidades, em contraste com essa vida de conquistas, em que as pessoas têm de sair de manhã e têm de lutar. Às vezes nem tenho coragem de perguntar a esses meninos o que eles fizeram para chegar à escola naquele dia. Muitas vezes o giz é feito com pau de mandioca seca. Às vezes, não há sala. É uma árvore. E não há cadeiras, as pessoas sentam no chão. No entanto, aqueles meninos estão todos os dias ali na escola, assim como os professores. Isso é uma grande esperança. É um universo de gente que sabe que tem de fazer isso para construir uma vida diferente. É uma grande escola.
Como você e as personagens da sua obra dialogam com o mundo contemporâneo, que é marcado pelo consumismo e pelo hedonismo?
Eu acho que um jogo de construção e desconstrução porque esse mundo que você retrata como sociedade do consumo existe e não existe em Moçambique, porque muitas vezes consumimos muito pouco. Consumimos mais aquilo que é ilusão. Cada vez menos o Estado confere Educação e saúde, e nós temos que conseguir isso por outras vias. Então o que eu procuro fazer nos meus livros é uma coisa que eu posso fazer como escritor. Eu não posso lutar para além desse limite, que é sugerir que há outros caminhos, que é possível sonhar, que não podemos ficar acomodados, resignados. Obviamente eu não posso propor uma tese ou um modelo alternativo nos meus livros, nem saberia fazer isso, mas posso incentivar o gosto, a vontade.
Como você vê os seus personagens no cinema? Como é a visão física deles?
É um estranhamento, porque aquilo que eu criei não tinha voz nem rosto, nem para mim mesmo. Então de repente o personagem tem uma voz. Mas, mesmo que seja a mais bela voz do mundo ou o rosto mais belo do mundo, o fato de ter um rosto e uma voz e não estar aberto e não ter vozes múltiplas é uma perda. Por isso, eu me distanciei. Se participo do filme, é somente para pontualmente dar algum apoio, mas não como alguém que tenha competência para isso, porque eu não tenho. Eu quero que o realizador de cinema faça um produto distante, que é capaz de se soltar, ganhar asas e sair do texto escrito, senão perde como livro e perde como filme.
Você gostou de Um rio chamado tempo, uma casa chama terra, filme baseado em seu livro?
Mais ou menos. O que tinha de dizer já disse ao realizador, que é meu amigo. Gostei, mas não gostei.
Retirado de:

Vale a pena conhecer! Vale a pena entender...

http://www.esquerda.net/artigo/onze-perguntas-para-mia-couto-uma-entrevista-inspiradora

sábado, 18 de maio de 2013

Salve Jorge e seus furos gloriosos: uma avaliação fria do fim de alguns personagens


A novela acabou (graças a São Jorge Guerreiro), mas uma nuvem ainda paira sobre minha cabeça: a situação de alguns personagens que, como vários da trama mal escrita de Glória Perez, ficou sem desfecho. Um fim com furo glorioso, se me permitem o trocadilho! A eles:

Fatma
Desde que Mustafá saiu da TV Pirata, Fatma estava ali do lado dele e de Berna (ou seria Gina?), ouvindo todos os segredos cabeludos daquela casa. Nos últimos capítulos, sua participação resumiu-se em preparar chás para Mustafá não beber. Era só ele chegar em casa – pensem!, – pedia um chá. Enquanto a pobre mucama caminhava até a cozinha pra preparar o bendito, padrão Musta já tinha cascado fora. “Onde está Mustafá Bei”, foi uma das frases mais ditas por Fatma que, se tiver tomado a metade dos chás que ofereceu para o vendedor turco quando ele a deixava na chapada, deve ter virado membro do Santo Dayme e sumido para a Amazônia, já que até a aparência indígena lhe era peculiar. Foi viver com os índios Wayampi, no norte do Amapá, e fazer shampoo de mutamba porque vale lembrar: não existe índio careca.

Adam
Marido de Fatma, (e isso só foi dito, mesmo, quando já tínhamos visto a luz no fim túnel, que era a novela) foi acometido por um surto psicótico depois que viu um bebê no meio de tanta prostituta. Deve ter imaginado que VOUTEVINGARJÉSSHYKA seria a próxima a dar o show no palco. Em um de seus sumiços, foi tomado por uma força extraterrestre que se hospedou no corpo dele. Tal e qual abdução, sumiu!

Zoe
Essa moça turca, amiga da Aisha, é uma das moças turcas mais inteligentes de que já tive notícia. Morava em Istambul e falava português melhor do que 90% da população brasileira. Seu papel, que se resumia em buscar Aisha na praia durante as crises de frescura, deve ter também se findado na praia. Aisha subiu, desceu e subiu de novo o morro. E a amiga? Ã? A família de Mustafá abandonou a amiga da filha postiça onde? Cri cri cri...

Irina
Depois de ter a vida devassada por conta de passar 99,9% dos capítulos fazendo contas sentadas... Depois de especularem que ela estava com problemas no fêmur e que não podia andar pela idade... Depois de confundirem-na com Charles Xavier, dizendo que, como mutante, ela tinha conseguido outro emprego, se fez de coitadinha. “Eu só fazia a contabilidade!” e teve que se levantar e quase saiu correndo. É a maior prova de que a necessidade faz o sapo pular...

Miro (André Gonçalves)
Nem tivemos tempo de decorar o nome do personagem. Veio e foi como uma onda no mar, plagiando Lulu Santos. Fim sem sentido também.

Nilceia
A irmã da Lucimar (também conhecida como Solineusa ou Pôia) fez unha, merchan da Natura, subiu e desceu o morro e... deve ter ficado perdida num daqueles becos e não chegou a tempo de gravar o final escrito pra ela. Dizem que até agora tem contrarregra procurando ela no Morro do Alemão. Parece-me que seu destino glorioso (me perdoem o trocadilho outra vez!) era um salão de beleza no povoado de Zyah, na Capadócia. Também só especulação.



Jéssica (a outra que morreu)
Ghost! Depois da última mesa branca, que na verdade foi num barranco na praia, nunca mais apareceu para agradecer Morena pela vingança prometida e feita. Deve ter baixado em outra freguesia.


Tamar
A mulher do neto do Silvio Santos também estava na trama com um zero à esquerda, assim como Juniô! Pariu um filho, que serviu apenas para massacrar a irmã de inveja, e... e só!

Junior
Além de gritar “Vó, a Adriana”, “Eu quero brigadeiro” e “Cadê minha mãe” com toda aquela emoção (eu sempre achei que ele era parente da Vick e que de noite dormia, mesmo, numa caixa) serviu de empata foda, a parte mais atuante do personagem. Fora isso... Nadica de nada.

Vó Farid
Milagrosamente se curou do Alzheimer. Deve ter transferido a doença para a autora. Já ouvi dizer que essas coisas acontecem mais do que se imagina.

Sarila
Depois de descobrir o paradeiro de VOUTEVINGARJÉSSIKHA por causa de uma pétala de flor que estava na roupa do neto quando foi sequestrado pelos capangas de Lívia e blá blá blá... foi chamada para fazer o CSI Capadócia!

Ekran
Acho que caiu no poço e ninguém salvou!

Esma
Juro que não pensei num fim pra ela.

Kemal
Juro que não pensei num fim pra ele.


Ricardo
O policial federal narigudíssimo da silva xavier, como entrou sumiu! Começou um flerte com a Cissa Guimarães e mijou na espoleta. Como assim, né? Era claro que era pra ser. Mas como dizia a Érica: “Não era pra ser!"


Drago
O filho da Cristiane Torloni, que tem cara de qualquer coisa, menos de gente, foi cúmplice do outro montador de cavalo e saiu sem um arranhão da história. Também saiu pela porta dos fundos do quartel. Ninguém viu.

Pescoço
Deveria ter tido um fim mais glorioso (se me perdoem mais uma vez o uso do trocadilho). Nem os telefonemas do celular dela para Lívia (feitos por Wanda numa outra encarnação e muito mal amarrado pela autora) ficaram claros. Continuou ali, deitado no sofá e sofrendo de um torcicolo chamado Aisha.

Diva
Se fazia de esperta, mas a sonsa nunca descobriu que o binóculo do marido, seu Clóvis (outro zero à esquerda), era pra ver a piriguetaiada do morro.

Sidney
“Quem, mesmo?”, você deve ter se perguntado. O Filho do Mussum, neto da dona Diva e do Clóvis que nunca teve pai, nem mãe! Que fim levou? Eu imaginava um final glorioso (abusando do trocadilho) com uma rádio comunitária no morro ou um site bombado em toda a América Latina, com extensão na Turquia, dada a facilidade da ponte-aérea... Imagine a internet.

Beto
E o Beto? Beto... Beto... Beto... Ah, o progenitor do Júnior. Só passou na trama pra ser pai do boneco e ensinar Morena atirar! Pronto.

Yolanda
Criada para causar a discórdia, deram notícia dela num dos capítulos do mês passado. Disseram que estava casada com um argentino. Coisas de Glória Perez com preguiça de ir até o país vizinho gravar uma ceninha dela com o marido, já que o orçamento tinha estourado com tantas pontes-aéreas Rio-Turquia como se fossem Salvador-Santo Amaro da Purificação.

Caíque
Ficou metade da novela emprestado para o SBT, onde gravou participação no remake de Carrossel. Apareceu de novo para tirar as roupas da mulher do Tande do armário e levar pra casa dela. Pronto. Sumiu de novo. Era namorado da Lurdinha e o relacionamento também não teve fim...

Salete
A empregada de dona Leonor (que ganhou na justiça o direito de ser reconhecida como empregada pela CLT) tinha feito a vida inteirinha pra passar ao lado do turco Murat, que conheceu quando foi arrastada para ser capacho – ou melhor, tapete persa – na Turquia, voltou pra cozinha e de lá não saiu mais. Eu acho.

Murat
Sem destino final. Com participação irrisória, me esqueci de pensar no fim dele. Deve tá lá onde estava. Onde era mesmo?

Tartan
O velho marido de Cyla que repetia tudo como disco de vinil furado em radiola velha é um caso à parte. Era um personagem interessante. Mas como todos os personagens interessantes da novela, ficou renegado à repetir as últimas palavras na cozinha do restaurante. Eu acho.

Buquê
Esse era o nome da personagem de Narjara Tureta. Sabiam? Bem, voltou para o Rio de Janeiro, devido á grande facilidade de ponte-aérea, e deu um up grade na barraca de cocos que tem em Copacabana. Agora com um plus: Coco com rack!

Russo
Depois de ser estapeado pelas garotas, foi esquecido algemado na cama. Parecem derrubaram a boate cenográfica em cima dele. Também, né, um personagem tão escondido na trama... Nem merecia fim maior. Caiu no esquecimento mesmo.

Foi isso. Um fim nada glorioso, se me permitem, mais uma vez, o trocadilho, para os personagens. Fiquei sabendo que Glória Perez recebeu mais uma chance. Depois de ser chamada ao Departamento Pessoal da Rede Globo, assim que o último capítulo foi ao ar, acabaram revendo a condição dela, o tempo de casa e tals, e encaminharam-na para o elenco de apoio de Zorra Total. É isso... Que venha Amor à Vida.














sexta-feira, 17 de maio de 2013

Último capítulo: A culpa é do mordomo


Assim: Solineusa e a filha e o neto invadem uma casa no Morro do Alemão, logo após a pacificação. O pai do neto some como quase todos os outros personagens criados por Glória Perez. Tempos depois, descobre-se que a casa era da prima, da vizinha, da tia, da cunha, da mulher, do tio, da irmã da outra tia de Tompson. Ela morre. deixa a casa pra ele. Ele vende, mas Solineusa que faz faxina na casa da Véia milionária com cachorra de colar que some e volta empalhada, que é a invasora num tem grana. A filha vai pra Turquia pra ganhar grana e pagar a casa pro Tmpson. Vai com promessa de ganhar um dinheirão. Pretende comprar o morro inteiro com U$ 1.500 por mês. É enganada. Passa o diabo! Vira prostituta. Escrava. Volta. Caladinha da Silva Xavier e com 723548492094 kg de cocaína no bucho. Volta pá Turquia. Sobrevive a um atentado que mata até sheik. Volta. Solineusa se encanta com com o algoz da filha (pq aquilo é morte!). Nesse ínterim, por culpa da aprovação da Lei das Domésticas, Solineusa passa a ser diarista da Véia rica e só vê o mordomo um dia por semana e olhe lá. 83264654923 capítulos vagos depois, Donelô, que foi pá puliça federal só pra isso, pq a novela segue um trâmite certinho, e acaba com todo mundo que fazia o diabo na vida da filha da Solineusa que foi pá Turquia ganhar dinheiro pá pagar a casa do mordomo. Donelô acaba cá turma toda. Tompson vira cozinheiro de Solineusa (e eu achei que ele não gostasse da fruta!) e vai casar com ela, no entendimento da Glória, que não é a Carla, nem a Pires, e sim, a Perez (que também já foi chamada ao Departamento pessoal da Globo e encaminhada para o elenco de apoio de Zorra Total). Casô! A casa agora é de quem? De quem? Da Solineusa e da filha dela e do neto mudo e cheio de emoçãosóquenão! Volta lá em cima e vê se a culpa de tudo isso num é do mordomo... Que falta de criatividade, hein, Glória? Precisava de oito meses pra contar isso? Ah, e tinha um cara! FIM.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A gentileza e o emprego do coveiro


Nada tem a ver as boas maneiras de etiqueta com a educação de berço que recebemos desde quando a vida começa. Saber segurar os talheres corretamente ou aerar um vinho, conforme a temperatura, e ver as lágrimas escorrer pelas bordas de um legítimo Baccarat são valores de sofisticação desconhecidos para muitos. Educação, mesmo, é lançar mãos de atitudes quotidianas em favor da civilidade, da pacificação, de uma harmonia coletiva e da generosidade. Pensar no bem-estar do ser humano também é educado!

Oferecer o lugar na fila do caixa do supermercado a alguém que vai pagar apenas um litro de leite é gentileza. Já ajudou alguém a atravessar a rua? Isso também é gentileza. E no trânsito, onde pode ser feito um dos maiores exercícios de gentileza? E paciência, que também faz parte. Sorrir para alguém na rua é gentileza. Conversar com o garçom, olhando-o nos olhos, também. Responder ao ‘bom dia’ da mocinha que distribui panfletos no sinal é gentileza. Ser gentil é tratar o ser humano da mesma forma como gostaríamos de ser tratados, por um mundo melhor!

Hoje, uma daquelas sextas-feiras que deveriam ter, pelo menos, 48 horas, parei num dos shoppings para um almoço rápido. Depois de pegar o prato, procurei quase que o andar inteiro da área de alimentação por uma mesa vazia. Enfim, duas senhoras e uma moça se levantaram das cadeiras e desocuparam uma. Cheguei a tempo de ouvir uma delas dizer: “Deixa isso aí” – se referindo às três bandejas, pratos, talheres, copos e latas de refrigerante – “se não a moça que faz o serviço pode ser demitida por falta de ter o que fazer”.  Além de falar bobagem, ensina coisa errada. Gente assim deve achar que precisa morrer para garantir o emprego do coveiro.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Festa na roça (é pra lá de bom...)


A saga de um relacionamento que começou numa rede social e acabou em casamento no interior de Goiás. Durante três meses eles “namoraram pela webcam”. Agora, ele veio para casar. E tudo acontecerá numa grande festa!

A festa de casamento vai começar na quinta-feira, assim que o avião do noivo pousar na aeroviária de Goiânia. Toda a turma – amigos, parentes e agregados – estarão à espera do rapaz com plaquinhas, balões, apitos e lembrancinhas regionais. Os homens, todos!, usando óculos Prada e as mulheres, todas!, com bolsa Michael Kors. Um garçom circulará pelo saguão da aeroviária servindo pamonha frita, carne de lata e pastelzinho de pequi, um breve esquenta do que será o cardápio da festa. No sistema de som local, claro, Leonardo, o embaixador de Goiás – e do tomate – no mundo, vai cantar os sucessos de toda a carreira, inclusive quando ainda havia Leandro. Os padrinhos vão aguardar o noivo na porta da sala de desembarque com uma palma branca. Não! Não será macumba. Apenas sinal de paz e amor.

Depois da gritaria e de toda euforia, todos sairão aglomerados do saguão da aeroviária, carregando o noivo nos ombros e gritando: “Com quem será... com quem será...”. No estacionamento, ele receberá uma camiseta com uma foto de todos os amigos, assinada por cada um, com a frase: “Seja bem-vindo para sempre no Goiás!”. Ele entra numa caminhonete gigante, cuja carroceria é usada única e exclusivamente para as caixas de som do potente Pioneer, que tocará, durante todo o trajeto, repertórios de todas as 4634548364 duplas sertanejas goianas. Serão 220 quilômetros até Iporá, a cidade dos pais da noiva. Os carros que seguirão a caminhonete estarão conectados e tocarão a mesma música. O encerramento do comboio será um trator, com uma carrocinha acoplada, levando barris de chope e um carregamento exclusivo de copos de plástico de 300 mililitros e ‘pêta’ de polvilho azedo, para o caso de um desavisado ter um ataque de hipoglicemia. Nem pense em Epocler, Engov e coisas do tipo. Goiano não precisa desses subterfúgios.

Nas aproximadas três horas – que devem se tornar umas seis – de circuito até a cidade do casório, a viagem deve ser divertida. Ninguém pode ficar calado mais que o tempo de engolir o chope. Apenas! Cada boteco de estrada, posto de gasolina, puteiro ou o que o valha, uma parada obrigatória de 15 minutos será feita. O noivo descerá da caminhonete, o volume da música será reduzido e ele fará um pequeno discurso. Sempre com um dos amigos-padrinhos ao lado, com uma dose de Ypióca na mão. Terminou o discurso, vira a dose. E segue o cortejo.

Na chegada à cidade, faixas espalhadas – duas em cada quarteirão – deixarão claro ao noivo a paixão da noiva, da família da noiva, dos parentes da noiva e a sacanagem dos amigos da noiva. Frases criativas tomarão a cidade, do tipo: “O ideal no casamento é que a mulher seja cega e o homem surdo”. Ou “O casamento é a única virtude ao alcance dos covardes”. Ou ainda: “Lutar pelo amor é bom, mas alcançá-lo sem luta é melhor”. Na chegada à casa dos pais da nubente, uma banda esperará o comboio e tocará o arrocha assim que o noivo descer da caminhonete, bêbado e vomitando, numa clara evidência que já queimou a largada, mas ainda permanece de pé depois de todas as paradas nos botecos, postos e puteiros da estrada. Será recebido pela família da noiva – pai e mãe – que tentarão, em vão, falar do orgulho que será tê-lo como um filho no seio familiar. O discurso da mãe será abortado, antes mesmo da primeira frase ser bradada, pela euforia etílica dos amigos, parentes e agregados que fazem parte do comboio.

Entrando em casa, as portas estarão decoradas com festões coloridos e brilhantes, ainda que faltem dez meses para a chegada de Papai Noel. Lá dentro o som vibra e faz tremer tudo que não esteja fincado ao chão com alicerce de base firme, tocando o que? Leonardo, claaaaaro! Até quando ainda havia Leandro. O cunhado, repentinamente, surgirá na sala, vindo do quintal com os pés descalços e sujos pela terra ainda unida debaixo da mangueira, cantando desafinadamente mais alto que o som, com os braços abertos e estendidos ao noivo, um copo de alumínio cheio de cerveja numa mão e a garrafa na outra. Ele também estará com a camiseta da tchurma “Seja bem-vindo pra sempre no Goiás”, mas com um X em cima do nome do Estado, substituído, em pincel atômico vermelho, por “Iporá”.

Todos se apronchegam! Cada qual com seu copo vai entrando e já pegando um dos pratos, que estarão postos em forma de torre colorida em cima da mesa da cozinha e rumando, esfomiadamente, para o quintal, onde dois cavaletes de pintor e uma tábua larga por cima, fazem as vezes de outra mesa e sustenta as panelas com a comida do almoço. O cardápio: arroz branco, arroz à grega, feijão de caldo, feijão tropeiro, carne de lata (carne de porco frita e guardada por semanas em latas de 20 litros, compradas com tinta), almôdegas, uma bacia enorme de macarrão número 5 (aquele com um buraco no meio, que você tenta chupar, ele assovia e não entra na boca) com molho de extrato de tomate elefante, maionese de batata e ovo e tomate picado com óleo de soja e cebola de folha rasgada com o dedo. No final do banquete, uma mesinha menor com um recipiente Duralex marrom, servirá a sobremesa: arroz doce.

A bebedeira, a comilança e a música seguirão com a mesma intensidade até o domingo, quando, enfim, o noivo cairá pelas tabelas bêbado e, com princípio de coma alcoólico, será levado ao hospital municipal para tomar glicose na veia, aplicada por uma enfermeira prática, formada pelo extinto Mobral, com especialização pelo Telecurso Segunda Grau. Todo o comboio que o acompanhou desde a aeroviária até Iporá seguirá junto. Desta vez, com a noiva, não menos embriagada e com um copo de sal de fruta na mão, tentando aliviar a azia causada pela mistura bombástica, nem um pouco leve, do cardápio de quatro dias de festa e muita cachaça. Quando chegar a segunda-feira, ele, o noivo, dormindo no quarto cedido pelo cunhado, abrirá os olhos. Vai mirar um ponto no telhado da casa e dizer baixinho, com um sotaque digno de goiano genuíno: “Divino Padeterno! Nossinhora, meu Deus! Ah, nem...”. Dará um suspiro, virará para o canto e resolverá pensar na vida depois que a ressaca passar.

Rimene Amaral

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Justine Ghofiri Stwart


E quem pensou que a família de Irving tinha acabado se enganou! Conheçam Justine Ghofiri! Ela tem uma história emocionante! 

Esta é uma parte da vida que Mr. Carl, e toda a família Stwart, desejaria esquecer. Principalmente em respeito à matriarca, Ms. Glenda Awa Stwart. Mas não podemos deixar de apresentar todos os personagens dessa família que ganhou meu coração. A foto da vez é de Justine Ghofiri Stwart! Como perceberam, uma esquila negra, cheia de vida, esperta e independente. Justine é filha bastarda de Mr. Carl J. D. Stwart, o patriarca, reconhecida judicialmente por ele, depois de uma briga que abalou todas as estruturas da requintada sociedade da fauna ‘centralina park novaiorquina’. Acostumado à vida aventureira de solteiro, quando andava pelo mundo todo em busca de emoções, o garotão Carl Stwart partiu o coração da então jovem Glenda Awa, assim que se casaram. 

Ainda nos tempos em que entrar de gaiato num navio era coisa fácil, Mr. Carl, o pai de Irving, que há pouco havia se casado com Ms. Glenda, ficou sabendo de uma embarcação que sairia de Nova York rumo à África. O sonho de conhecer o continente dos “strange large animals”, como ele mesmo dizia, fez seus olhos brilharem e, com o consentimento da jovem esposa, partiu para uma longa aventura. E bota aventura nisso! Munido apenas de um embornal com um tônico licoroso fortificante, preparado por Wilbur Ross J. D. Stwart, o Tio Wil, seu meio-irmão feiticeiro, Mr. Carl foi a pé da esquina da 5th Avenue com a 59st até a embarcação que estava ancorada na margem direita do Hudson River, de onde ganharia o mar até chegar à África. 

Assim que avistou a escotilha por onde entraria e viajaria tranquilamente, o jovem Carl acelerou os passos. Em pouco tempo já estava familiarizado com todos os outros animais escondidos no porão da pequena nau. Há dois dias em alto mar, ele conheceu Radhiya, uma legítima esquila mulata. O tônico que Carl levava no embornal, já fermentado, estava também alcoólico e, numa noite de lua cheia, em alto mar, o jovem Carl, embriagado, sucumbiu aos encantos de Radhiya. Antes que a nau aportasse no continente africano, a jovem já sentia os primeiros sintomas da gravidez. Carl ficou apavorado! 

Os dois ficaram juntos durante toda a temporada dele na África, onde Radhiya morava na Tanzânia. Quando a pequena esquilinha nasceu, Carl voltou para Nova York. Poucos meses depois, recebera uma carta avisando do falecimento de Radhiya, por afogamento, quando voltava para os Estados Unidos em outra embarcação e caiu em alto mar, no meio da madrugada. A carta foi escrita por um rato de porão que havia acompanhado a aventura do jovem casal quando tudo aconteceu. Este mesmo rato cuidou da pequena Justine. Foi ele quem a entregou, pessoalmente, a Mr. Carl, em sua toca, no Central Park. Por azar, Ms. Glenda estava em casa no momento da inesperada visita. 

E quem pensava que não havia escândalos no mundo animal, ainda mais na seletiva sociedade que vive no Central Park, em Nova York, eis que a história mostra o contrário e apresenta provas. Ms. Glenda ameaçou colocar a toca abaixo, chamou todos os parentes, vizinhos e amigos e anunciou sua debandada da região. Iria para Massachussets, passar uns tempos no Boston Public Garden e refazer a vida. Mas a tempestade daquela noite a fez esperar e esfriar a cabeça. Um chá de casca de nozes a acalmou e, no dia seguinte, com sol e calmaria, Ms Glenda sugeriu que Mr. Carl registrasse a pequena Justine e desse a ela o nome da família. Sugeriu mais, que acrescentasse “Ghofiri”, nome de origem Suarili, muito comum no Quênia e na Tanzânia, que significa “Perdão, perdão!”. 

Hoje, Justine tem Ms. Glenda como mãe, apesar de conhecer a história. Estuda música nas horas vagas e pretende ser historiadora. Tenta, já faz algum tempo, ter alguma notícia da família africana através de sites de buscas de pessoas desaparecidas na internet. Mas vive em uma família completa e se sente orgulhosa por ser uma legítima Stwart!

terça-feira, 26 de março de 2013

A resposta do Banco Itaú e a minha tréplica


Prezado Sr. Rimene,

Em atenção à sua manifestação registrada através do Reclame Aqui, cujo teor mereceu nossa total atenção, esclarecemos que a utilização de comprovantes emitidos em papel térmico em substituição à autenticação está sendo avaliada pelo Banco Itaú Unibanco dentro de um novo modelo de atendimento no terminal caixa das agências, com o objetivo de tornar mais eficiente este processo, reduzindo o tempo de fila para os clientes. 

Em relação à validade deste comprovante, não há impedimentos legais que inviabilizem a sua utilização como meio de comprovação de pagamento, inclusive para INSS. Esta forma de comprovante já está sendo utilizada por outras instituições bancárias e seus correspondentes.

Recomendamos apenas que, para maior durabilidade do comprovante, evite-se contato direto com plástico, produtos químicos, excessiva exposição a calor, umidade, luz solar e lâmpadas. Além disso, para proporcionar maior comodidade aos nosso clientes, disponibilizamos a 2ª via dos comprovantes para correntistas através do ?Itaú 30 Horas na Internet?. 

Conforme previsto no artigo 320 do Código Civil, dispõe que a quitação, que sempre poderá ser dada por instrumento particular, designará o valor e a espécie da dívida quitada, o nome do devedor, ou quem por este pagou, o tempo e o lugar do pagamento, com a assinatura do credor, ou do seu representante. Parágrafo único. Ainda sem os requisitos estabelecidos neste artigo valerá a quitação, se de seus termos ou das circunstâncias resultar haver sido paga a dívida. 

Nesse contexto, entendemos que o fornecimento de comprovante de pagamento com todos os dados que permitam identificá-lo ? nome da instituição, agência, data de vencimento, data de pagamento, valor, documento pago (número do título/guia), devedor, credor, etc.? atende as normas contidas no Código Civil. 

Atenciosamente,
Itaú Personnalité



TRÉPLICA
Não concordo! Acho que não tive atenção, porque se vocês tivessem, pelo menos, lido a carta que enviei, perceberiam que todas estas justificativas já foram derrubadas no que eu escrevi! Primeiro porque esta decisão não segue um padrão de sustentabilidade tão divulgado pelo banco. Segundo, não há economia, muito pelo contrário, há um desperdício gigantesco de papel e um papel que não é reaproveitável. É um papel químico que causa, sim, graves problemas de saúde, inclusive câncer. Manter isso guardado será como cuidar de um bebê, precisaremos de ter todo o cuidado do mundo para que ele se mantenha com todas as informações. Mais uma coisa que vocês não responderam, o que prova uma certa ignorância (de não saber mesmo) no assunto: Vocês não se importam com seus funcionários que manuseiam este tipo de papel todos os dias? Não se importam que eles possam adquirir qualquer doença, a maioria delas incurável? A intenção é afastar o cliente da agência, para fazer com que ele use mais o caixa eletrônico, e, daí, a instituição possa dispensar seus funcionários diminuindo gastos e aumentando lucro? E a rapidez, onde isso acontece. Apertar um botão para chancelar um documento é muito mais rápido que esperar a impressão de um papel que, quando apagar e for preciso comprovação, vai gerar dor de cabeça para o cliente e para um funcionário do banco que terá de fazer uma devassa na conta para encontrar a transação. Sinceramente, não acho que isso seja uma coisa séria. Vocês do Banco Itaú deveriam, no mínimo, esclarecer os seus funcionários e clientes sobre as reais implicações do uso do papel termo-sensível e deixá-los decidir como preferem que seja feita a autenticação. Ou seja, as justificativas do banco não convencem e, acima de tudo, deixam de lado o bem-estar de funcionários e clientes em prol do lucro. Isso é lastimável!

sábado, 23 de março de 2013

E o Itaú sempre me surpreendendo!

CARTA ENVIADA AO BANCO ITAÚ



Nunca fui de me enfurnar numa agência bancária, a não ser que houvesse necessidade. Já tive problemas com sites de bancos por causa de transações feitas pela internet. Então, por isso mesmo, gato escaldado... Mas ainda me sobra o bankfone, do Banco Itaú! Uma maravilha. Posso pagar as minhas contas todas pelo telefone. Sempre fiz isso. Agiliza e evita tumulto nas agências. Sou a favor disso. Mas não quer dizer que seja uma regra! É uma opção, diga-se. (O caixa ainda continua sendo caixa e, pela lei brasileira, qualquer cidadão pode se dirigir ao caixa para efetuar qualquer serviço de banco!). Depois de todo pagamento, a moça do outro lado da linha perguntava como eu gostaria de receber o meu comprovante de pagamento. “Pelos Correios”, eu informava. Em sete dias, recebia o documento comprobatório e o colocava naquela caixinha de comprovantes. Ali ele ficará por cinco anos. É assim que ensinam. Mas esta opção não existe mais. Segundo os atendentes, é a política de economia e sustentabilidade do Banco Itaú, para evitar o desperdício de papel e aumentar a segurança de documentos (?). Quer dizer que antes esse tipo de atitude, de enviar documentos pelos Correios, era inseguro? Bem, mas se a política do banco é assim para ajudar o meio ambiente, vamos aceitar. É bonito ver cada um fazendo a sua parte. Recebo o comprovante agora por e-mail. Mas... Daí vem o paradoxo!

Fiquei surpreso ao saber que o Banco Itaú (um dos mais lucrativos do Brasil nos últimos anos) não autentica (ou chancela) mais os documentos pagos no caixa. O cliente recebe apenas um tíquete, em papel térmico, cuja durabilidade não ultrapassa um ano! Mas o Banco Itaú deu um jeitinho e, se você fizer tudo que seu mestre mandar, ele vai durar sete anos. Perguntei para meio mundo sobre o por quê disso e as respostas foram as mais variadas. Nenhuma delas me convenceu! Até disseram (o gerente de outra agência que não a minha) que era uma norma do Banco Central. Não é! Conversei com o meu gerente, da Agência Personnalité, e ele me tranquilizou dizendo que a agência em que movimento a minha conta faria, sim, a tal chancela no boleto de pagamento ou no papel que o valha. Mas não foi assim! Deram-me o tal papelzinho amarelo como comprovante e eu ainda pedi para que o rapaz do caixa fizesse uma fotocópia dos tais (eles até recomendam isso) para grampear junto aos documentos. Trabalho dobrado e triplicado. Não é isso?

Bem, vale ressaltar que a minha ‘bronca’ é devido à qualidade do papel em que é impresso a comprovação do pagamento. O papel termo-sensível, também usado nos extintos aparelhos de fax, varia de acordo com a temperatura e com o tempo. Em aproximadamente um ano tudo o que foi impresso, apaga. Simplesmente apaga! E todo mundo sabe disso. Se reclamo, é porque já tive problemas do gênero. Depois de pagar várias prestações, as primeiras já sumiram. Como comprovar que paguei? Indo até o banco e solicitando que faça uma devassa na minha conta, não é mesmo? Pois é. Tempo perdido, trabalho dobrado e dor de cabeça para todos os envolvidos. Simples, simples seria autenticar o documento e fazer com que todos sejam felizes para sempre.

De tantas explicações que me deram, uma delas fala sobre a agilidade! Ora, que demora há em chancelar um documento? Acredito que a impressão no papel termo-sensível demore uma eternidade, perto do que é apertar um botão para fazer com que a ‘comprovação’ fique marcada no meu documento. E ainda tem a fotocópia! Mais: eu pago para isso! E ninguém pediu a minha opinião para saber se eu aceito, se eu gosto, se eu prefiro e se eu quero receber um papel impresso que vai apagar logo, ou se eu quero a marca impressa no meu documento. Acho isso totalmente antidemocrático! E venhamos e convenhamos, a outra explicação de que é econômico também não procede. O papel é caro e gasta-se muito mais. Cadê aquela política de economia para não desperdiçar papel? Onde foi parar aquela iniciativa de diminuição de emissão de papeis para ajudar o meio ambiente? Balela? Sem falar que o papel termo-sensível contém produtos químicos nocivos à saúde humana. Imagina guardar isso dentro de um armário... E quem lida com ele todos os dias? Os bancos pagam adicional de insalubridade para que os funcionários o manuseiem todos os dias? Será que a alta cúpula do Banco Itaú sabe disso? Vamos lá: Esse papel não é reciclado! (Onde está aquela história de empresa autossustentável, amiga do meio ambiente?). Trata-se do papel termo-sensível, isso porque a impressão dos dados é térmica (feita a partir da temperatura da máquina, reagindo com o papel). Embora pareça inofensivo, esse tipo de papel apresenta em sua composição o bisfenol-A, ou BPA, que é potencialmente nocivo à saúde. Não sou eu quem diz isso. É estudo científico comprovado.

Segundo informações divulgadas no site da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia do Estado de São Paulo (SBEM-SP), “vale a pena ressaltar que alguns dos efeitos deletérios do bisfenol, como por exemplo, os de alterar a ação dos hormônios da tireóide, a liberação de insulina pelo pâncreas, bem como os de propiciar a proliferação das células de gordura, foram observados com doses nanomoleculares, ou seja, doses extremamente pequenas, as quais seriam inferiores à suposta dose segura de ingestão diária. (Fonte: Melzer et al, Environmental Health Perspectives, 2011)”.

Os males
De maneira geral, o BPA desequilibra o sistema endócrino, modificando o sistema hormonal. O efeito do BPA no organismo pode causar aborto, anomalias e tumores do trato reprodutivo, câncer de mama e de próstata, déficit de atenção, de memória visual e motor, diabetes, diminuição da qualidade e quantidade de esperma em adultos, endometriose, fibromas uterinos, gestação ectópica (fora da cavidade uterina), hiperatividade, infertilidade, modificações do desenvolvimento de órgãos sexuais internos, obesidade, precocidade sexual, retardo mental e síndrome dos ovários policísticos.

Normalmente, a contaminação se dá pela ingestão, o BPA se desprende dos recipientes plásticos e acaba contaminando o alimento. Uma pesquisa publicada pela Analytcal and Bioanalytical Chemistry, mostrou que, no caso dos papéis termo sensíveis, a contaminação pode ocorrer pelo contato com a pele. Segundo a pesquisa, a contaminação varia de acordo com a quantidade de BPA presente na composição do papel, e é bem menor do que a contaminação pela ingestão, mas ainda sim devemos estar atentos.

O que fazer?
Sempre que possível evite a impressão de extratos e comprovantes, dê preferência às versões digitais, como a comprovação do débito por SMS, por exemplo. Embora o papel termo-sensível seja reciclável, devido à presença de BPA em sua composição, o Pollution Prevention Resource Center (PPRC) recomenda o descarte desse tipo de papel no lixo comum para evitar a contaminação por BPA, que é liberado no processo de reciclagem. Segundo a pesquisa, a reciclagem do papel termo-sensível pode aumentar a exposição humana ao BPA, uma vez que, durante o processo, pode haver contaminação de outros produtos de papel reciclado. O BPA já foi encontrado, por exemplo, em papéis toalha.

Mas, além desses “probleminhas” causados pelo tal papel (e tenho certeza de que a empresa – Banco Itaú – se preocupa com a saúde dos seus funcionários e clientes) fica no ar a minha questão: qual o motivo disso? Economia, agilidade e meio ambiente? Já derrubei todas essas hipóteses. Por que não me deixam escolher o que eu quero? O banco resolve algo, que não se sabe por qual motivo, não consulta seus clientes sobre a decisão tomada e, sequer, os informa das mudanças. Isso não existe! Eu sou cliente, pago por isso e quero que os meus documentos sejam chancelados, marcados para sempre, como tatuagem. Se o banco não pode atender aos meus anseios (que são mais que normais e naturais) também não sirvo para ser cliente. Quando falamos em atendimento de excelência, a satisfação do cliente está em primeiro lugar. Não precisa ser PhD em marketing ou estratégia mercadológica para saber disso.

Então, que fique claro a minha insatisfação com o banco. Que fique claro que não aceito o tal papelzinho amarelo de fax, que contamina e prejudica a saúde, como comprovação de pagamento. Quer forçar o cliente a usar o caixa eletrônico? Ótimo! Desafoga fila. Gosto disso. Mas então, use material inofensivo e que seja de qualidade e não apague com o apagar das luzes de um ano (ou sete, como dizem, se houver cuidado maior do que se tem com um recém-nascido) já que dinheiro não é problema... Chateado com isso! Será que fui convincente?

Rimene Amaral
Jornalista e cliente Itaú Personnalité