terça-feira, 31 de agosto de 2010

Frase minha, mesmo!

Amor é sentimento nobre e amar á uma arte!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Colorindo

Numa folha qualquer

Eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo...

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Passarela sem holofote


O sinal havia acabado de pular para o vermelho. Do lado direito, no estacionamento de uma clínica psiquiátrica, uma paciente era fotografada. Estava sendo desatada da camisa-de-força e parecia estar mais calma depois que as amarras foram afrouxadas. Fazia poses e sorria muito para a câmera, mesmo não tendo domínio completo dos movimentos. Ao lado, um furgão aberto escondia uma arara cheia de roupas brilhantes e bordadas e vestidos de festa. Perndurado na maçaneta do veículo um roupão atoalhado tinindo de branco! Parecia irradiar luz própria, tamanha era a brancura. Ao lado, duas mesas plásticas – daquelas usadas nas calçadas dos bares de periferia – imitavam o que era para ser uma penteadeira de camarim. Forradas com um tecido aveludado preto, sustentava duas maletas de maquiagem e bijouterias baratas. Aquele cenário ficaria ali por pelo menos a metade do dia, até que tudo voltasse ao normal.

Era um sábado de feira. Tempinho fechado com uma chuvinha fina que insistia em cair. Cloe esbanjando entusiasmo, aos 10 anos de idade, quando visitou a feira-livre do bairro pela primeira vez, na companhia na mãe, olhava uma pilha de cenouras cuidadosamente postas numa banca em forma de pirâmide. Era uma garota que chamava a atenção. Se tivesse 8 anos a mais, seria de parar o trânsito! Cabelos ruivos e os olhos azuis, bem arregalados, como duas turquesas que refletiam a alma – quando chorava, diziam, os olhos pareciam duas represas estourando as barragens e escorrendo pela face como córregos em um quênion. Calçava botas que protegiam as pernas até a altura dos joelhos. As calças foram escondidas pelo ponche xadrez marrom trazido do Peru pelo pai, na última incursão que fez de moto pela América Latina.

De longe, Sarrassini lançava um olhar curioso sobre a garota. Ele tinha a árdua tarefa de encontrar novos rostos para campanhas publicitárias. Ele era o que hoje se chama de scouter – um olheiro, pra ser mais claro! – e tinha achado uma jóia. Chegou mais perto e, percebendo que a mãe de Cloe havia notado, aproximou-se de uma vez, se apresentou e insistiu para que a mãe, de posse de um cartão de visitas, levasse a garota à agência de modelos. Em menos de um mês, Cloe era um dos rostos mais solicitados e fotografados em campanhas publicitárias e catálogos de moda infantil. E foi assim por mais de dez anos.

A garotinha com rosto de boneca tinha viagem marcada para um desfile nas passarelas de Milão e outro em Paris, além de um comercial em Londres. Coisa que já havia se tornado corriqueira. Fotos, maquiagem, muitas roupas, passarelas, flashes, autógrafos... muito glamour, muitas festas, muitas companhias. Algumas, más! Mas ela sempre se sobressaia. Até o dia, depois de um desfile, em que tomou algumas taças a mais de champagne e entrou no carro de um modelo, com quem fez uma ponta em um comercial. Do set de filmagem, os dois se dirigiram para um apartamento na região oeste de Paris. A festinha paricular rolou até de madrugada, regada a muito mais champagne. Quase amanhecia quando ofereceram a primeira carreira de pó a Cloe. Embriagada, ela nem teve tempo de pensar em recusar. Estava instalado o vício.

Em menos de seis meses a carreira da moça despencou, como se fosse uma modelo bêbada usando salto 15, numa passarela molhada. Os trabalhos se resumiam a umas poucas fotos para comerciais de iogurte e pontas em comerciais de TV como figurante. A família e os amigos começaram a se preocupar. Em pouco tempo, Cloe já havia frequentado quase dez clínicas para recuperação de drogados. Em vão! Um dia, numa balada recheada de álcool e cocaína, ela caiu no chão da boate, bateu a cabeça e quando acordou vivia uma confusão mental, que perdura até hoje, seis anos depois.

Aos 27 anos, a garota bonita, de olhos merejantes, tinha sido internada em um manicômio. Nos olhos dela agora o que escorria pareciam ser enxurradas de sangue. Periodicamente, ela saia do normal, tinha delírios e tinha de ser medicada para que o surto fosse controlado. Outras vezes, ela extrapolava as barreiras da realidade e dizia ser a modelo mais famosa do mundo. Era o pior estágio! Nessas horas, era preciso tratá-la como tal.

Ser levado


Acho que uma das vontades do ser humano é deixar ser levado, seja pelo vendo, voando, seja pela água, surfando. Vale a lembrança e a tentativa!

domingo, 8 de agosto de 2010

Dia dos Pais: sobre cardápios e dietas

Hoje papai não estará, pelo terceiro ano consecutivo, sentado à cabeceira da mesa da área de casa, para aquele almoço demorado de domingo, sempre feito a oito mãos. Cada duas, faziam pelo menos dois pratos. Pelo menos! Daí a se imaginar que em nenhum domingo havia menos que oito pratos deliciosos para serem saboreados no Dia dos Pais. E o bar abria cedo. A cerveja gelada já estava no copo às 10 horas.


Na verdade papai sempre disse que a melhor coisa que existia pra ele era um prato bem feito de macarrão. Daqueles comuns, mesmo. Simples como ele: ‘macarronada’ como ele fazia questão de frisar, com muito queijo ralado jogado por cima, depois do prato feito! Mas, mesmo assim, papai jamais dispensou um prato de macarrão qualquer que seja. Ele dizia, quase salivando, que o melhor macarrão era, na verdade, o cozido. E como gostava! Por isso mesmo, independente do cardápio de domingo, mesmo que os sabores não ‘ornassem’ entre si, o macarrão era cogitado como um dos pratos. Mas no Dia dos Pais a vontade dele era atendida sem que ele pedisse. O macarrão era majestade na mesa do almoço e, certamente, num prato fundo (por iniciativa própria dele), no jantar. Às vezes, rolava até uma garfada na virada da tarde. Gelado, mesmo.

Como dieta não é coisa de Deus, papai também não era uma pessoa muito fervorosa com os tais ditos de ‘o que comer’. Necesitava deles com uma certa frequência, mas burlava a todas as dietas. Me lembro bem que numa dessas, o cardápio de domingo era de apenas 600 calorias, tendo apenas uma fruta como sobremesa. (Aqui cabe uma nota: assim como eu, papai também o-di-a-va, com todas as forças, a tal da jaca.). Depois de comer um prato de legumes cozidos no vapor (ô, coisa sem graça...), duas colheres de arroz, duas de feijão, um filé de frango grelhado e uma colher de angu de milho verde, ele se levantou rapidamente e foi para a sala. Dizia que era pra conter a tentação, já que a fome continuava do mesmo tamanho. Mamãe foi atrás para saber o que queria de sobremesa. O diálogo foi curto, explicativo e de modo muito bem demonstrativo no quesito desespero:

Mamãe: Vai querer o que de sobremesa?

Papai: O que tem no cardápio?

Mamãe: Uma fruta.

Papai: Só uma?

Mamãe: Só.

Papai: Traz uma jaca!

Sem conseguir conter o riso e de ser condescendente com a situação, mamãe tentou mudar a escolha para uma melancia. Mas o que ele queria mesmo era voltar para a mesa e comer tudo que havia deixado de lado, por causa da dieta.

Outras vezes, papai seguia a dieta à risca em casa. Mas deixa todo mundo preocupado porque não emagrecia o que era esperado dentro do prazo dado pelo médico. A resposta veio muito tempo depois, quando a comida já não lhe trazia mais tanto prazer e a vizinhança começou a soltar as histórias. Segundo diziam, e isso papai chegou a confirmar, dentro de casa apenas salada e frango grelhado. Fora de casa, macarrão com queijo! E com um jeitinho especial, que só ele tinha, conseguia comer sem restrições em qualquer casa que entrasse. E, na maioria das vezes, era macarrão a oferta do anfitrião.

Hoje o macarrão parece ter menos molho, o queijo não parece ter o mesmo sabor e os almoços de domingo com um tempero diferente. Mas o Dia dos Pais, será, para sempre, um tanto sem sal!

Onde estiver, MEU PAI, feliz Dia dos Pais!