domingo, 12 de agosto de 2012

Dia dos pais: “Boteco bom é boteco vazio”




     Papai era um tanto quanto conservador quanto ao seu vestuário. Pernas de fora não eram a cara dele e somente calças abrigavam a parte esquerda do armário que dividia com mamãe! E isso era assim em qualquer lugar cujo clima pudesse ultrapassar o imaginável, quando o assunto era calor. Pois bem, fomos à praia! Litoral do Espírito Santo, Manguinhos, sábado, 11 horas da manhã. Começa a saga!
     Família reunida. Estacionamos os carros cerca de 200 metros do quiosque onde montaríamos nosso QG até o fim do dia. Crianças e mulheres à frente. Corram todos para o mar! Protetor solar, pular sete ondas, lavar a areia do calção... Tinha todo um processo que demandava tempo. Ao voltar ao quiosque, sentimos falta de papai. Imaginamos que ele teria saído para fazer o reconhecimento do local, já que ficar num quiosque de praia vestindo calças jeans não era uma coisa muito in.
     Mulheres pedem peixe, outros pedem cerveja, crianças pedem picolé. Peixe e cerveja vêm. Picolés derretem. Crianças dormem. Todos comem. Bebem... e papai sumido! Havia mais de duas horas que não tínhamos notícia dele. Minha tia, irmã de papai, já estampava o desespero na face. Começamos todos a nos preocupar e nos dividimos, cada um prum lado, à procura dele.
     A meta principal: procurar em TODOS os bares da orla. De preferência os mais vazios (aqui cabe uma nota: papai sempre dizia, e com razão, que boteco bom é boteco vazio. Como não tem gente suficiente pra acabar com a cerveja, ela fica mais gelada!). E a procura começou. Parecia cena de novela. As pessoas com as mãos na testa para se proteger do sol, gritavam na praia por ele. Todos os bares da orla foram visitados. E todos estavam cheios. Mas ninguém o encontrou em nenhum deles.
     De volta ao QG, já com a preocupação tomando forma de desespero, me atentei para o serviço de som da praia. “Vamos mandar anunciar!”, sugeri já perguntando para o dono do quiosque onde ficava a central de som da praia. Ele não soube explicar. Fui entrando pelas ruas da cidade até receber a informação correta de onde ficava a central. Voltando para QG, antes de pedir para anunciar, enxerguei uma porta aberta e a ponta de um balcão com uma garrafa de cerveja e um copo americano na beiradinha. Uma mão abraçou o copo e a levou cuidadosamente até a boca, impossibilitada de ver pela sombra. Atravessei a rua quase que num passo só. Adentrei ao bar e ele me olhou, com ar de dúvida, e perguntou: “Produtos de exportação das emissoras de TV, com seis letras?”. Não acreditei! Tranquilamente aconchegado a um banco de madeira, com encosto estofado, papai tomava a quinta cerveja e já devorava a quarta página de palavras cruzadas.
     Tentei não me irritar. Cheguei perto e ele se explicou: “Todos os bares da orla estavam cheios. A cerveja não estava boa! Achei esse aqui!”. Disse que não se sentia à vontade com areia nos sapatos e com a maresia embaçando os óculos. Tomei o último gole daquela garrafa com ele e disse que iria até a praia dizer aos outros que o tinha encontrado. Quando saía do bar, olhei pra ele de novo e respondi: “Novelas. No plural!”. Ele sorriu, matou mais uma série de palavras cruzadas, virou a página e pediu outra cerveja.
 
Pai, Feliz Dia dos Pais, onde quer que esteja!
Sinto saudades!