sábado, 13 de agosto de 2016

Dia dos Pais - A incrível máquina do tempo


Eu sempre tive uma intimidade muito grande com cheiros. Podiam – e ainda podem! – me levar a lugares, situações, pessoas, sentimentos... É impressionante, por exemplo, passar por uma rua, vez ou outra, e sentir um cheiro de pequi e fumaça de fogão à lenha e ser remetido, instantaneamente, à cozinha da casa da minha avó, no interior da Bahia. 30 anos atrás! É a memória nos levando de volta no tempo e no espaço. E como me esquecer do bolo confeitado no dia do aniversário de alguém da família? Tias Tereza e Vânia se debruçavam sobre massas e recheios para um clássico: pão-de-ló com recheio de doce de leite e abacaxi e doce de leite e ameixa. Ah! O bolo ela molhado com guaraná. Mas o cheiro do glacê real, feito com clara em neve, açúcar e limão, me desalinhava os chacras.

Cheiro. Até quando a gente não procura por ele, ele nos acha. E foi assim que encontrei a essência que mais me emocionou. Bem depois de gravar para sempre o cheiro da jabuticabeira florida na primeira chuva de primavera, - que se misturava ao cheiro do café coado feito pelo meu pai, num sábado friozinho, de chuva leve e teimosa, e ia me acordava lá no quarto – gravei o cheiro da alfazema que meu pai usava. Incondicionalmente todos os dias. Fidelíssimo era ele... Muito tempo sem ver aquela embalagem de alfazema.

A memória também vai guardando todas aquelas lembranças num lugar bem reservado. Vez ou outra, parece que queremos abrir o tal lugar e escancarar os cheiros. Mas temos medo da dor que isso pode causar. Portanto, deixamos guardado lá. Mas nem sempre as coisas acontecem como queremos. Passeando por Firenze, na Itália, alguns anos atrás, parei na porta de um boticário, daquela de outros tempos, que fazem perfume à moda antiga. Entrei e vi uma prateleira reservada com várias notas de lavanda e alfazema. Pedi para sentir os perfumes. O primeiro frasco que o boticário abriu era o cheiro que, durante 33 anos, eu senti quando abraçava meu pai.

Mistura uma coisinha aqui, outra ali e o perfumista me apresenta o resultado. Meus olhos marejavam. Quando fechei os olhos para sentir, a primeira sensação foi entrar num túnel e voltar trinta e tantos anos, lá naquele sábado de chuva fina e insistente. O cheiro da jabuticabeira veio junto com o do café coado e, é claro, da alfazema de papai. Eu, definitivamente, não estava mais ali, naquela botica. Eu estava em casa, aconchegado na cama e esperando papai abrir a porta do quarto e chamar para o café. Ele era assim: acordava cedo e queria que todos estivessem de pé também. Rapidamente, voltei a mim, em frente ao balcão do boticário, que me olhava com olhos curiosos.

Paguei pelo frasco e o coloquei na mochila. É uma das coisas mais precisos que tenho. É o meu presente de Dia dos Pais para o meu pai. É o cheiro dele, engarrafado. Guardado só para mim e, de tempos em tempos, quando a saudade parece querer escancarar aquele lugar escondido dentro da gente, eu abuso primeiro, abro o frasco e fecho os olhos. Entro naquele mundo que pode me levar até onde e quando as jabuticabeiras floriam perfumadas e o aroma e se misturava ao cheiro do café e... alfazema.

Nem sábados, nem jabuticabeiras e nem a alfazema misturada a tudo isso. Não os sinto mais quando quero. As jabuticabeiras foram cortadas. Os sábados não têm mais aquela chuvinha fina e insistente. O café é o mesmo. E o cheiro de alfazema que me acalmava, agora só quando resolvo que é preciso escancarar. Daí entro na “máquina do tempo” e viajo longe para onde a felicidade parecia não ter fim.


Feliz Dia dos Pais, onde quer que esteja, meu herói.

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