segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ainda há dúvidas


Quando Luiz Fernando Veríssimo primorosamente escreveu O Clube dos Anjos – Gula, um dos melhores livros sobre os pecados capitais, ele mostrou que não é apenas o peixe que morre pela boca. Os gulosos acabam findando suas vidas por um pouquinho a mais do prazer da gula. Mas é pelo prazer. Quando esse prazer dá lugar à imposição e comer sem fome ou enfiar comida goela abaixo de alguém torna-se um sufoco quotidiano, há uma reação natural do organismo em regurgitar tudo de uma vez, até mesmo o que ainda cabia, devagarinho. É assim que enxergo o protesto que tomou conta das ruas no Brasil, ecoou nos mais longínquos cantos do mundo, sufocou outros assuntos importantes e se transformou no maior movimento popular da história de um país de mais de 500 anos. Encheu. Lotou. Ninguém engole mais. Estamos vomitando o que sempre foi enfiando goela abaixo de todos nós, os brasileiros.
Ainda há muitas dúvidas. Não sei, por exemplo, até onde tudo isso vai chegar e se, quando as manifestações cessarem, o preço do arroz e do feijão vai baixar para que a comida chegue ao prato de todos os brasileiros. Gostaria de saber se depois de tantos gritos e quebradeiras as crianças de todos os cantos terão salas de aula decentes, merenda escolar e livros para estudar e entender, num futuro, o que está acontecendo hoje. Queria saber se haverá mudanças nos contracheques dos professores, verdadeiros responsáveis pela formação de toda uma Nação. Não sei se as condições do transporte público, depois disso, serão condizentes com os valores pagos. Preocupa-me também o atendimento à saúde pública, que deixa gente morrer a mingua numa fila à espera de atendimento. Morre de esperança. Morre mas é obrigada, antes, a pagar todos os impostos, sob pena de perder a cidadania. E o pior: impostos altos e que, ao invés de retornar em forma de benefícios para quem os paga, como rege a lei, retorna para satisfazer as vontades de poucos e encher os bolsos de outros. Já enchemos. Estamos lotados. Não cabe mais!
Ainda fico pensando se haverá, de fato, uma limpeza na política e na forma justa de agir com quem mete a mão no dinheiro público, que deveria ser usado para consertar os estragos das rodovias, para equipar os hospitais, para melhorar os salários de quem realmente trabalha para o país crescer, que precisa contribuir por mais de meio século para ter direito à aposentadoria, enquanto poucos recebem, em 12 meses, 15 salários e outros auxílios, podendo se aposentar com dinheiro suficiente para construir, todo mês, uma sala de aula de primeiro mundo para 50 crianças estudar. Será que o jogo de interesses terá sempre um político como vencedor? Nunca o povo? Será que é utopia pensar num país onde as pessoas não precisem chorar e pedir “pelo amor de Deus” para dizer que estão morrendo? Isso é desespero! É utopia querer fora do poder aqueles que, criminalmente, desviaram as verbas que serviriam para melhor as condições de vida da população em benefício próprio? Acho que chega. Basta!
Será que depois disso tudo aquela história de empregar a esposa, a irmã, o irmão, a cunhada e o genro em cargos de ‘aspones’, com salários milionários em órgãos públicos vai acabar? E se não acabar, haverá punição? Vão devolver o dinheiro com correções? Enquanto isso, como fica o salário daquele fulano que estudou durante 20 anos, tirando da boca para pagar escola particular – já que a qualidade da pública... você sabe! – e é obrigado a bater ponto e trabalhar as oito horas por dia? Como vai funcionar a assiduidade nas cortes políticas? Todos vão trabalhar de segunda a sexta-feira, pelo menos? Vão justificar seus salários? Ou as manifestações conseguirão diminuir os valores estratosféricos nos contracheques de muitos políticos? Sim, porque quando se consegue de um lado, como foi o caso da ‘redução’ do valor da passagem do transporte público, é preciso realocar verbas para suprir a necessidade de outro setor, o empresarial, no caso. Ou seja, cobre um santo e descobre outro. E vão tirar de onde?
Se o leão acordou – e bravo, pelo que vimos! – ele vai enfrentar com ganância, com força, mas vai agüentar até quando? E depois que ele se cansar, vem o sossego ou ele volta a dormir e tudo começa a ser enfiado goela abaixo de novo? Não se pode mais parar. Começou tem de ir até o fim. Quando é o fim? Na hora de reinventar a política brasileira e mostrar, aí sim, quem manda nesse território Tupiniquim, hoje jogado às lambanças. Quem está por aí, nessa vidinha suntuosa e apenas empurrando goela abaixo o que o povo é obrigado a aceitar, já foi escolhido. Chega. Basta. Não dá mais! É o momento de renovar. Se a faxina foi feita, temos de trocar tudo e colocar só coisa nova. Gente nova! Gente que se preocupa com o preço do arroz e do feijão porque quer ver comida no prato do povo, que quer dar às crianças um ensino digno para que eles possam ser os novos que assumirão, um dia, a responsabilidade pelo país. Gente que não agüenta ver doente na fila, morrendo a mingua. Gente que tenha vergonha na cara e não aceita que o dinheiro dos impostos seja usado para outra finalidade que não o bem coletivo. Gente que trabalha, que dá o suor e o sangue, se preciso for, para não deixar a sujeira contaminar de novo o que um dia uma Nação inteira limpou. 


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