quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Um ebó mal despachado

Na minha vida sempre houve pessoas que foram mais do que eram para ser. Os amigos viravam irmãos, os pais deles eram meus tios, o vizinho virou compadre... Mas nada se comparou a Nazaré, a Naza!

Maria de Nazaré dos Santos Pereira. Uma figura única. Sem mais complementos. Trabalhava como doméstica na casa da sogra de minha irmã. Depois, veio direto para o seio familiar, com mais intimidade do que nunca. Lavava, passava, cozinhava muito bem, arrumava como ninguém e ainda deixavam orações espalhadas pela casa quando ia embora. Não demorou para que Naza fosse atender ao meu suplício e trabalhar comigo uma vez por semana. Diarista, toda quinta-feira ela me acordava cedo.

O primeiro mês foi tranquilo. Ela fazia de tudo, sem pestanejar e nem reclamar de nada. Conversava sozinha a maior parte do dia. Passado um tempo, descobri que ela não conversava sozinha, mas com o escorredor de pratos. (Nota: meu escorredor de pratos era de inox, com repartições específicas para cada coisa. Comprado em uma promoção relâmpago nas Casas Goianitas, ainda me custou os olhos da cara!). A princípio achei que ela falava com ele sobre a utilidade que ele tinha para ela. Até que meus ouvidos me mostraram o quão rancorosa Naza era com o pobre escorredor. Chegava em casa um dia e ouvi uma discussão ferrenha, vindo de trás da porta da sala. Achei que houvesse alguém em casa. Maria de Nazaré, aos berros, chingava o escorredor de pratos. Definitivamente, ela o odiava!

O motivo ela nunca me disse. Quando eu perguntava sobre o tal, ela mudava de assunto, nervosa! Deixei de lado. Um dia chego em casa e não vejo o escorredor de pratos no lugar de costume. Procurei pela casa toda. Nada! Dormi depressa para acordar logo e ligar para a Nazaré e saber onde estava o escorredor de pratos. Não acreditava que ela poderia tê-lo jogado no lixo. Minha surpresa foi quando ela me disse que o escondeu na gaveta do fogão, para não ter que olhar para ele enquanto estivesse lá em casa.

Bem, foi assim que Nazaré passou de minha diarista a quase esposa/mãe, daquelas que mandam na casa e em quem mora dentro dela.

(Nota: um dia, à noite, eu e alguns amigos tomávamos vinho na minha sala quando a energia acabou. Como a garrafa de vinho estava vazia, usamo-na para suportar uma vela. Com os ânimos alterados, todos foram derretendo a vela com chamas de fósforos e formando uma escultura de cera na garrafa. Gostei! Virou um castiçal bonito e o coloquei no meu bar.)

Era uma quinta-feira, cheguei cansado do trabalho, abri a porta da sala e dei de cara com a garrafa de vinho limpa e um bilhete debaixo: “Tava grudado demais. Mas consegui. Passei até bombril. Ficou limpinha! Eu, Naza” - o nome dela era escrito por ela com carinhas nas letras. Não acreditei! Subiu um fogo dentro de mim... Uma semana depois, espero Nazaré chegar e explico para ela que aquela garrafa era pra ter ficado daquele jeito. Não era sujeira, era estilo. “É o que?”, ela me perguntou com os olhos apertados. Disse a ela que aquilo era para ficar daquele jeito mesmo, cheio de cera de vela. Ela me perguntou se eu gostava de vela. Respondi que sim e saí.

Quando voltei, à noite, e abri a porta quase tive um piripaque. Minha casa estava cheia de velas, grudadas em pratos, em vasos, na mesa, no banheiro... parecia que tinham feito um despacho dentro da minha casa. Fiquei até com medo de dormir lá. Fiquei sabendo depois que Naza tinha levado as velas da casa dela e as espalhado porque eu gostava de vela. Ela quis se redimir da limpeza da garrafa. Naquele momento vi que eu não tinha qualquer domínio sobre ela e que ela estava começando a mandar em mim e a fazer o que bem entendesse na minha casa.

As histórias e peripécias de Maria de Nazaré dos Santos Pereira continuam...

5 comentários:

Mônica disse...

hihihi, adorei a Naza!!!Figuríssima!!!Já te contei que também fui " vítima" da limpeza de cera de vela???E tava tão liiiiinda, foram meses de jantares à luz de vela para enfeitar o meu castiçal improvisado numa garrafa de Bohêmia Confraria....e em minutos a minha fiel escudeira/faxineira limpou tudinho!!!ai,ai,ai...Beijo

Deire Assis disse...

q bom q teremos mais historias de naza. figuraça mesmo! acho q merecia crônica no jornal...

bjo.

Nilce Moretto disse...

Rimene, essa é a próxima que eu vou por no Pauta. Pode ser?

bjs!

Rimene Amaral disse...

claro que pode, nilce... fique à vontade!

Camyla disse...

A Naza é uma figura!!!

Acho que todos, num momento da vida, temos uma Naza. Mas você soube exatamente como mostrar o que uma Naza pode fazer na vida de uma pessoa... De bom, é claro!!!