
Na semana passada, uma moça que mora na cidade de Nova Veneza e estuda em Goiânia foi impedida de entrar no ônibus que transporta os estudantes do interior para a capital. O motivo foi a falta de pagamento da mensalidade, de R$ 50, do transporte escolar. A mãe da garota trabalha como doméstica e ganha uma quantia que, retirando os R$ 50, compromete o orçamento mensal familiar. Os vencimentos mensais da família – pai, mãe e filha –, conseguem pagar os estudos da moça, a alimentação, energia, água, IPTU e todos os impostos que nos são cobrados dia-a-dia. Pois bem, a ameaça agora é o abandono dos estudos.
Desde a década de 1980, a Prefeitura de Nova Veneza cede o transporte para aqueles que pretendem ir além do ensino colegial – que é oferecido na cidade –, ou para quem procura um ensino diferenciado, em escolas melhores que as públicas que existem no interior. Me lembro que antigamente uma Kombi transportava os poucos alunos, que se revezavam diariamente no lanche para não pesar no bolso de ninguém. Cada dia um tinha a responsabilidade de providenciar o café da manhã para todos.
Com o passar do tempo, o número de pessoas que procurava uma vida melhor aumentou. Elas acreditavam que a solução para tudo estivesse na educação e, como a capital é próxima e o ensino melhor, estudar em Goiânia deixou de ser capricho e passou a ser a coisa certa a se fazer. O colégio da cidade oferecia o curso de Magistério. Mas nem todo mundo queria ser professor. Então, quando se concluía a antiga 8ª série, o melhor a fazer era procurar um cursinho em Goiânia e enfrentar o vestibular. A vida começava a tomar rumos melhores.
Muitos profissionais de hoje, que saíram de Nova Veneza para fazer a vida na capital, conseguiram notoriedade. Outros apenas se formaram e continuam trabalhando com dignidade e ainda gerando renda para o município, em forma de impostos e com a força de trabalho. Até mesmo o prefeito da cidade usufruiu do ônibus que saía de Nova Veneza às 5h30 da manhã, todos os dias, e retornava às 14h. Ele também foi um dos que tiveram que deixar o interior para estudar na capital e ter uma vida melhor. Tanto que virou prefeito.
Pois bem, no mês passado, a Câmara Municipal de Nova Veneza (cujo presidente é o vereador Andrey Mesquita, que também usufruiu do transporte gratuito durante anos!) aprovou o início da cobrança pelo serviço de transporte de estudantes. Coisa que foi feita uma única vez, durante uma administração, no início da década de 1990, mas que não foi adiante. Acredito que o papel do poder público seja o de incentivar ao máximo a educação. Quando fiquei sabendo que a cobrança passaria a ser feita, liguei para o prefeito de Nova Veneza, Luiz Antônio Stival Milhomens, com a certeza de que ele vetaria a cobrança. Vã ilusão, a minha! Ele disse a mim que seria uma cobrança a título de colaboração. O problema é que quem não colabora, também não pode usar o transporte. Na verdade, uma colaboração compulsória!
O prefeito Luiz Antônio se justificou dizendo que a queda no Fundo de Participação dos Municípios (FPM) havia comprometido o orçamento; que deveria fazer grandes sacrifícios para não ser pego pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Disse também que a arrecadação de impostos caiu, que muitos secretários tinham até reduzido os próprios salários... Enfim, disse-me que a situação do município não era das melhores. Assim como não é boa situação dos 246 municípios goianos! Mas o que não pode, na minha opinião, é mexer na educação. O que não pode é impedir que os sonhos de muitos jovens sejam comprometidos por causa dos R$ 50 que o prefeito acredita, vão ajudar a balancear as contas do município. Não vai refrescar em absolutamente nada! Se há de serem feitos cortes, que não sejam na educação!
Um problema é a falta de recursos e isso é preciso resolver. E é justamente o poder de resolver os problemas de um município, sem criar outros, que faz do político um bom administrador. É a forma de administrar, facilitando o acesso à educação, saúde, saneamento básico, enfim, que faz do administrador, um estadista, sonho de todo político! Acredito que, como jovem visionário que é, como administrador que tem se mostrado ser e como um estudante dependente de um transporte que já foi, o prefeito Luiz Antônio Stival Milhomens vai rever essa cobrança. Já que, se o maior problema é com as contas, poderia começar cortando o supérfluo, como a decoração natalina da praça da cidade. Foram muitos R$ 50 gastos para espalhar luzes, “cascata com água cristalina”, anjos e uma casa de Papai Noel. Mas o saco do bom velhinho provavelmente estará vazio e o sonho de muitos estudantes, de um dia ter um diploma, pode ter se tornado historinha triste de Natal.