sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Não precisa dizer que adora


Não precisa dizer que adora
A gente gosta do que é gostoso e rúcula não é
Não precisa dizer que adora

Rimene Amaral*
 
Goiânia - Sou um glutão contumaz e como de tudo: quiabo, jiló, abóbora, couve, agrião – principalmente se vier acompanhado de uma bela rabada com teor de colesterol que beira o infarto fulminante – pepino, azeitona (acredite, tem gente que não suporta o cheiro da azeitona!), enfim, os tais alimentos coloridos que devem – preste atenção, eu disse ‘devem’ – entrar no nosso prato para que a alimentação seja um exemplo de saúde nos dias modernos. A parte da discussão sobre vegetais cultivados com agrotóxicos, não será levada em consideração.
 
Tempos modernos e saúde comprometida. Sim, as pessoas se esquecem de que para comer bem precisa de tempo. Fast food mata! Algumas, aos poucos. E, de uns tempos pra cá, a frase “você é o que você come” passou a ser bradada até nos pitdogs de esquina e nas barraquinhas que vendem sanduíches com ingredientes de procedências duvidosas. Pronto. Virou moda.

Nutricionistas, nutrólogos, mestres-cucas, chefs de cozinha e a Marinalva, empregada da minha ex-sogra, começaram a introduzir as verduras e os legumes na dieta e diminuir a carne. Nem falo mais na batata frita. Esta, coitada, ficou renegada às boas lembranças da infância. E, do nada, aparece a rúcula. Do nada, não. Aquilo tem uma origem.
 
A rúcula, “Eruca Sativa”, é uma hortaliça procedente de áreas do Mediterrâneo e da Ásia Ocidental – eu aposto que chegou aqui de forma clandestina. Integra a família das ‘crucíferas’, em conjunto com o nabo, o repolho, os brócolis, o agrião, o rabanete e as couves, entre outros. Cresce entre 10 e 15 centímetros de altura, com folhas alongadas e recortadas. Tal como qualquer tipo de praga, o crescimento é rápido e forma pequenas touceiras. Seu sabor forte não passa despercebido – ah, mas não passa mesmo, já que tem gosto de borracha queimada.

Possui uma legião de apreciadores e outros não suportam seu sabor picante (a grande maioria dos 99,99% dos seres vivos existentes na face da terra, mas que comem por conveniência). Dizem que o suco da rúcula, combinado com o de agrião, aquele que vem com a rabada, provoca uma verdadeira limpeza e desintoxicação do organismo. Cabe dizer que o álcool também é usado como desinfetante.
 
A rúcula é muito utilizada na Itália. No Brasil é mais conhecida nos estados do Sul, mas já se alastrou como praga pelo país inteiro. É utilizada como complemento de refeições devido ao seu forte sabor, capaz de eliminar o sabor de outros alimentos.

É nutricionalmente rica em proteína – eu prefiro carne! –, vitaminas A e C e sais minerais, principalmente enxofre, cálcio e ferro. Contém ômega 3, que também encontro facilmente no peixe frito com cerveja, diga-se, ou em cápsulas, sem gosto algum. Também exerce uma função especial sobre o funcionamento dos intestinos, atuando como antiinflamatório nas colites.
 
Vale explicar que a única coisa que realmente me faz sentir náuseas é a tal da jaca. E não se fala mais nela, por favor! Não sou contra a rúcula ou qualquer outro tipo de alimento, se é que rúcula é alimento. Concordo com todos os benefícios nutricionais que essas folhas coloridas e tubérculos mal-encarados possuem.

Acho até, disso conseguiram me convencer, que faz muito bem à saúde, prevenindo um monte de doenças e tal. Tudo bem. Já sei disso e os como. Mas estufar o peito, virar o queixo em 30 graus para o ombro direito, baixar as pálpebras e erguer as sobrancelhas para dizer: “Eu adoro rúcula” aí é hipocrisia. A gente gosta do que é gostoso e rúcula não é.
 
Gostoso é o sabor de uma torta de trufas com morangos frescos, chantili com cerejas – belgas, por favor! Ninguém, no dia do aniversário, por exemplo, que é quando a gente baixa a guarda de qualquer dieta de restrição, achando que vale como presente, acorda com o desejo de comer rúcula.

Aposto que nesse exato momento muita gente pensou e até falou pra si mesmo: “Ah, eu gosto de rúcula”. Gosta não. Tolera por convenção ou porque é usada em pratos chiques. Ficou estipulado que rúcula faz bem ao organismo e pronto. Daí, gente cabeça aberta, que adora uma coisa diferente, até pra falar que é diferente também, sai com uma dessas. Ninguém gosta de rúcula. O sabor é ruim!
 
Então, deixando a hipocrisia de lado, o que não é nada feio e ninguém vai te recriminar por isso, ficamos assim: gostoso é um arroz com charque – e cabe aqui até uma vinagrete com muito azeite e limão. Gostoso é um sanduíche de esquina com maionese colorida e sunday de morango. É uma lasanha à bolonhesa com muito queijo e uma garrafa de Malbec. Gostoso é um prato bem fundo, cheio de feijoada com torresmo – aceito a laranja – e uma infinidade de delícias que eu poderia passar o resto da vida escrevendo.

Mas vamos botar a mão na consciência: rúcula não é gostoso. Assim como tantas outras coisas, ela existe apenas para mostrar que a vida não deve ser apenas um mar de chocolate derretido com conhaque ou champanhe. É saudável? É. Mas todo mundo pode encontrar a saúde – inclusive a mental – sem precisar estufar o peito e dizer que adora rúcula. Tenha santa paciência!
 
*Rimene Amaral é jornalista, fotógrafo e metido a chef.

Um comentário:

Luiz Herculino disse...

HAHAHHAHAHAHA mas jaca é melhor que rucula!