sábado, 20 de junho de 2009

Pelo menos, valeu o truco!


Quer dizer que foram quatro anos da minha vida jogados fora? E mais outros tantos de preparação para o vestibular... rios de dinheiro pagos ao Colégio Objetivo - chega a um ponto que a gente até começa a questionar a importância da educação. Credo! E simples como cozinhar um arroz, o Ministro Gilmar Mendes me apronta essa: agora meu diploma não vale nada! Nada! Sabe o que isso significa? Também não sei. Ainda não consegui digerir.

Ele comparou um jornalista a um cozinheiro. Não me lembro bem das palavras, mas ele disse que um cozinheiro não precisa de diploma para cozinhar. Claro que não. Mas ele precisa saber cozinha. Acha que é fácil fazer comida boa? Cozinhar arroz, diga-se, não é tarefa das mais fáceis. Tem gente que não faz nem a custa de eboh. Mas sêo Gilmar insistiu. E eu fiquei pensando: será que para ser juíz (apesar de Ministro, ele antes é juiz) é preciso de diploma? Qual é a importância de um dilpoma para a categoria dele? Bem, se se trata de leis – e juízes julgam baseados nas leis – não precisa ser gênio e nem ter QI acima do normal para ser um juiz. Basta seguir a cartilha. Não é mesmo? Se existem as leis, basta decorá-las e aplicá-las. Pode até levar a cartilha debaixo do braço, caso tenha medo de se esquecer.

Mas voltando à universidade... o que eu fiz lá nos quatro anos que passei estudando, tendo aulas com o Pierre, que tava ‘bomba’ por falta. O que eu estava fazendo sacrificando meus domingos para ler “Os Bestializados”, a pedido da professora Dalva Maria? E a Jane Sarques, que me fez entender de cultura de massa lendo apostilas infindáveis para as provas bimestrais... Não adiantou de nada! Foi tudo em vão. Perdi tempo. Mas sêo Gilmar Mendes acha que isso é bobagem. Ele acha que, se o cozinheiro não precisa de diploma, jornalista também não precisa. E ponto! Será que o doutorzinho sabe cozinhar arroz? Será que ele saberia fazer uma entrevista e conduzi-la de forma inteligente, fazendo com que o entrevistado se mantivesse preso ao assunto? Duvi-dê-ó-dó!

Mas o que eu fiz na universidade, além de conquistar o meu diploma, que não vale mais nada? Conheci pessoas. Aprendi a fotografar, aprendi a beber de verdade... mas agora, perdi a minha conquista. No dia da minha formatura, joguei chapeuzinho pra cima, tirei foto com o canudo na mão. Pra que? Pro Gilmarzinho chegar agora e me comparar com um cozinheiro (sem querer desmerecer a profissão, já que também atuo na área – e até acho que agora serei mais reconhecido pela gastronomia!) e derrubar minha conquista!

Bem, de tudo ainda fica, pelo menos, um resquício do meu aprendizado na universidade. Aprendi que o zap vale mais e o sete de copas pode ser um coringão. Aliás, o truco acabou me fazendo PHd no baralho – e isso abriu um leque de oportunidades na vida de jogatina – e hoje comando várias rodas de jogos noite adentro. Se o Gilma (sem ‘r’ mesmo) arrancou de mim a minha conquista do diploma, essa ele não poderá mexer. E, nesse caso, a promessa que eu havia feito de não jogar mais truco, acaba de ser quebrada. Se uma das conquistas me foi arrancada, pelo menos essa outra eu tenho de manter. Sem diploma, mas com troféu. E em bom nível!

4 comentários:

Aline Leonardo disse...

É, não é fácil fazer comida boa.

C r i s disse...

acho que vc não perdeu tempo... vc é jornalista e sabe o que é... como designer sinto isso, qdo me deparo com uma dondoca se intitulando designer de interiores, ela tem o título, tambem, mas eu tenho o saber... :)

C r i s disse...

bom, ela nem tem o título, tem é o carão!

Loretta disse...

Sob qualquer ângulo que se analise, a decisão do STF não merece qualquer censura. Justamente os jornalistas, que se arvoram sempre no direito à liberdade de expressão, não podem impedir que outros, com o irreprovável dom da palavra, possam também exercê-lo nas redações dos jornais. Como impedir que pessoas como Clarice Lispector, Cecília Meireles, que não possuíam o canudo, salvo engano, mas detinham inquestionável talento para a escrita, e tantos outros, atuem como jornalistas? Por que a reserva de mercado injustificável? Não comungo a opinião de Gilmar Mendes, acho as opiniões dele desnecessárias. Mas o voto do Ministro Carlos Britto é paradigmática, joga uma pá de cal sobre o assunto com brilhantismo exemplar:
“Quem quiser se profissionalizar como jornalista, frequentando uma universidade, cumprindo a grade curricular, ganhando os créditos, prestando exames, diplomando-se, registrando o diploma em órgão competente, quem quiser pode fazê-lo. Só tem a ganhar com isso. Porém, esses profissionais —— vamos chamar assim —— não açambarcam o jornalismo. Não atuam sob reserva de mercado. A atividade jornalística, implicando livre circulação das ideias, das opiniões e das informações, sobretudo, é atividade que se disponibiliza sempre e sempre para outras pessoas também vocacionadas, também detentoras de pendor individual para a escrita, para a informação, para a comunicação, para a criação. Mesmo sem diploma específico. Então, a atividade jornalística tanto se disponibiliza para a profissionalização quanto não se disponibiliza, e nem por isso os não titulados estão impedidos de exercê-la. Sob pena de inadmissível restrição à liberdade de imprensa. Lembro-me, Senhor Presidente, de nomes como o de Otto Lara Resende, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira, Armando Nogueira, verdadeiros expoentes do vernáculo que sabiam fazer como faz Manoel de Barros: sabiam perfeitamente bem que penetrar na intimidade das palavras é tocar na própria humanidade. E não se pode fechar as portas dessa atividade comunicacional que em parte é literatura e arte, talvez mais do que ciência e técnica, para os que não têm diploma de curso superior na matéria.”