domingo, 9 de agosto de 2009

Sobre pescarias e amizade


Geralmente era na sexta-feira. Papai chegava do trabalho um pouco mais cedo. Ia direto para o quartinho da bagunça, onde guardava os apetrechos de pesca. Ele preparava duas ou três varas de bambu, colocava a chumbada, a linha e o anzol. Depois, pegava uma outra, mais moderna, com molinete de titânio, que eu trouxe para ele de Amsterdam, como presente de Dia dos Pais, alguns anos atrás. Em uma caixinha de plástico amarelo, com todas as divisões possíveis, ele colocava anzóis de todos os tamanhos “para pegar outros peixes”, explicava ele. Cada anzol, cada chumbada e cada uma das varas tinha um perfil, diríamos assim. Uma servia para pescar lambari. A outra, mais pesada que permitia que a linha chegasse mais ao fundo, era para pescar piau! E tinha também a vara de pescar lobó e a de traíra – esse era o peixe preferido de papai. Quando chegava em casa, ele limpava as traíras, cortava-as em pedaços generosos, salgava, passava na farinha de trigo e fritava. Um caminho para o céu!

Varas e toda a tralha de pesca prontas, papai ia preparar a isca. Ele não era muito adepto da minhoca. Fazia uma mistura própria de arroz cozido e fubá de milho. Embolava aquela massa e a colocava em dois sacos plásticos, dividida em duas porções. Uma delas ia para a mochilinha verde-exército, de lona surrada. Essa era a minha matula. Junto, ele colocava dois pães com mortadela. Era o nosso lanche, à noite, quando a fome batesse, na beira do rio. A mochila dele era uma capanga amarela, com uma alça comprida e um botão de camisa na frente, para abotoá-la. Simplicidade a toda prova, mas funcional.

Enquanto papai se trocava e vestia a calça jeans surrada e calçava o coturno preto, de cano alto, até dois dedos abaixo dos joelhos, eu organizava a tralha no carro. As varas eram encaixadas cuidadosamente do lado do passageiro. A base delas ficava no banco de trás e as pontas saiam pelo vidro do passageiro. As mochilas ficavam no banco traseiro. O som, que ficava no teto do carro, era sintonizado numa rádio que tocava música popular brasileira. Eu cantava alto, enquanto esperava papai. Rapidinho, ele vinha pisando firme. O coturno impunha uma certa marcha, que ele insistia em manter. Dizia que o calçado de cano alto era uma proteção, caso se deparasse com uma cobra, no meio do mato.

Tudo pronto e rádio sintonizado era hora de decidir onde seria a nossa pescaria. Papai sempre queria uma represa, na fazenda de um amigo dele, com garantia de bons peixes e mais conforto. Eu, aventureiro, sempre queria conhecer novos lugares. Na maioria das vezes, eu o convencia. Ao chegar, cada um procurava seu cantinho e começava o ritual. O primeiro ato era escolher a vara. Depois, a isca era colocada ao lado. A partir daí, conversa apenas o necessário para não afugentar os peixes. Papai conversava baixo quando queria falar alguma coisa. A sensação de um choque fraco na vara era a garantia da primeira fisgada. A pescaria se estendia até às 11 da noite, quando agradecíamos pela pescaria e voltávamos para casa.

Eu ficava em um tanque e ele no outro. Cada um limpava seus peixes. “Quem pescou tem que limpar”, dizia ele. Os primeiros eram as traíras. Ele já deixava o óleo no fogo e colocava duas garrafas de cerveja na geladeira. Em minutos, tínhamos peixe fresco frito e cerveja gelada. Os lambaris – meus preferidos – eram cuidadosamente guardados para fritar no sábado e comê-los na companhia de uma cervejinha gelada. Enquanto limpávamos o tanque e fogão, mamãe geralmente se levantava e beliscava um pedacinho de peixe e um copinho de cerveja. Só prá constar!

No sábado, logo pela manhã, papai acordava cedo e ia até a esquina de casa, onde estavam os amigos, contar as vantagens da pesca, como não poderia deixar de ser. Voltava pra casa, retirava os lambaris do freezer, temperava e os jogava no óleo quente. Era a hora em que a nossa intimidade se aflorava. Cerveja, lambari frito e limão. Era o que nós precisávamos para colocar o papo em dia. Era o nosso momento. O momento em que meu pai virava meu melhor amigo e eu o dele. O momento em que ninguém conseguia atrapalhar. O melhor momento! Tudo com uma simplicidade fora do normal, mas com uma intensidade que posso viver novamente, só de lembrar. Hoje, a pescaria não tem mais o mesmo gosto. Nem o pão com mortadela! Os lambaris e as traíras sumiram dos rios, meu pai deixou esta vida e eu abandonei os anzóis.

Onde estiver, Feliz Dia dos Pais!

6 comentários:

Aline Leonardo disse...

He,
Ser pai, na minha opinião, assim como ser mãe, é deixar o melhor de si, é viver no outro. Dá pra notar, não só no texto como na convivência diária com você, que seu pai fez um bom trabalho. E isso o torna imortal.

Cássia disse...

Mas você continua pescando essas coisas bonitas dentro de você. Mais um belo texto e uma linda homenagem. Beijos, Misifio.

monica disse...

nossa senhora foi a mesma coisa de ver o DEL, COM AQUELE COTURNO PRETO... ATÉ OUVI O SOM DO SEU PIZADO...ELE ERA E SERÁ SEMPRE ESSA PESSOA MARAVILHOSA , HUMILDE E AMIGO!!!!

PARABÉNS DEL PELO DIA DOS PAIS!!!

Alessandra Antonioli Maranhão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
mirna disse...

Belo texto! Vc consegue mesmo passar a sua emoção por meio das palavras! Acho que é hora de voltar às pescarias, mas agora, sentindo a presença de seu pai em toda a natureza, nas águas, nos peixes, no vento, etc... afinal, ele está presente mais do que nunca, o tempo todo!

Mônica disse...

Emocionante! E como é bom eternizar os momentos especiais com nossas lembranças, né amigo!!!Beijo " procê"!!!